Augusto Diniz | Música brasileira

Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

Augusto Diniz | Música brasileira

Produtor de Gloria Groove, Ruxell diz que artista tem que ter posição

Uma conversa com um dos mais requisitados produtores do rap e do funk e um dos líderes do movimento da Música Eletrônica Popular Brasileira

Foto: Larissa Kreili/Divulgação
Foto: Larissa Kreili/Divulgação
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Ruxell é um produtor de mão cheia do rap e do funk. Na lista de artistas da nova geração que já desenvolveu trabalho está Anitta, Iza, Lexa e Rashid. No álbum que lançou ano passado, tinha participação também de MC Rebecca e Rincon Sapiência. 

Para completar, seu trabalho está diretamente ligado ao sucesso do último disco de Gloria Groove, o Lady Leste, lançado semanas atrás. Ele assina todas as composições e a produção, ao lado do companheiro Pablo Bispo – aliás, os dois são produtores do Inbraza, selo pop da gravadora Som Livre, que tem um punhado de artistas candidatos a terem milhões de plays em plataformas de áudio e vídeo.

Os nomes dos artistas citados até aqui, com milhões e milhões de acessos na internet, têm algo incomum: opinião

Ruxell explica: “Ter postura e posicionamento é fundamental. A Gloria (Groove) nem se fala. É disparada a maior artista brasileira hoje. Isso é muito importante. Estão fazendo história. Faz diferença quando você sabe o que é, o que quer, qual sua importância social, como as pessoas te enxergam”. 

E vai além: “O que você tem a oferecer como artista? Eu e Pablo sempre discutimos isso. Não é só sobre um hit (sucesso musical). A gente está fazendo política, sem falar dela. As coisas estão acontecendo”. 

Bass music

Nascido em Irajá e criado na Taquara, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, Ruxell, com 12 anos, já trabalhava com produção fonográfica. Há cerca de 10 anos se envolveu com a bass music, originada em Londres em meados dos anos 2000 e que combina uma série de gêneros musicais urbanos.

“Os DJs deram uma cara brasileira ao bass music. E aí juntei uma galera e disse que precisávamos de nosso gênero. A gente acaba não sendo visto. A gente ficava no meio do caminho, não era 100% pop nem considerado música eletrônica”, diz.

“Daí, sugeri para a galera criar um nome, que é a Música Eletrônica Popular Brasileira, que são os ritmos urbanos periféricos, com inspirações da cultura da bass”. Os ritmos que o produtor cita são o funk e suas vertentes, o trap com a linguagem daqui, o afrobeat e até a MPB.

O termo Música Eletrônica Popular Brasileira começou a ser difundido há menos de um ano. “A gente ainda está nesse movimento de trazer os DJs para levantar essa bandeira. Queremos criar esse gênero, para que DJs e produtores brasileiros possam ter uma definição”, afirma.

Há também interesse em dar um nome ao gênero no Brasil e aproveitar que artistas como Anitta, Alok e Tropiklaz estão levando o som brasileiro lá fora.

“Todos eles estão levando nossa música para ser consumida de forma global. Só que acho que as pessoas não enxergam essa potência”, avalia. 

O EP lançado dias atrás, Tropical Baile (Inbraza), de Ruxell, é um trabalho que expressa bem o significado do termo Música Eletrônica Popular Brasileira. 

São cinco faixas, em que o produtor conta com a participação de artistas ainda pouco conhecidos, mas dentro de seu projeto de apresentar novos nomes no segmento de atuação, como Yoùn, Lukinhas, Kynnie, Felp22, Luan Otten, Leo Middea, Fraga, entre outros. 

Ruxell participa do festival Rock in the Mountain, em Itaipava, na região serrana do Rio, que acontece a partir do dia 16 de abril. Além de tocar suas músicas, pretende apresentar alguns remix da Tropicália, inspiração do movimento da Música Eletrônica Popular Brasileira. 

Sim, a Tropicália de Gil, Caetano e cia., que recebeu influências de fora, mas extremamente receptora das linguagens locais, de propagadora de mensagens transformadoras, sem ser óbvias, mas influentes.

Assunto nebuloso

O rap tem uma característica: as letras são feitas em cima de bases sonoras, os chamados beats. Eles são determinantes para se compor para o gênero.

“Para muitos artistas da nova geração do funk e do rap, a música se faz pelo beat. Se você não tem um beat bom, a música não funciona”, afirma. “Então, por que os produtores não têm esse direito?”

O direito que ele está falando é de entrar como compositor da música, que ainda, em muitos casos, o beatmaker ou o DJ, como Ruxell, acabam não tendo reconhecimento, mesmo com participação efetiva na criação da canção. 

“É um assunto nebuloso. Está mudando essa cultura. O funk e o rap estão trazendo essa integração. É uma batalha diária pra brigar por esses direitos. Hoje em dia, na forma que se vai para o estúdio gravar, a gente se considera um compositor”, diz Ruxell.

O produtor conta que há vários casos no Brasil de saírem músicas que os produtores não são valorizados. “Vamos entender que todos são criadores. Lá fora, quando se entra no estúdio, já se sabe que vai dividir tudo por igual”, cita. “No rap é interessante que os produtores estão entrando como artistas, algo que o pop ainda não está fazendo”.

A forma de se fazer, criar, produzir e realizar música mudou e está muito diferente do que já foi. Ruxell, artista deste nosso tempo, resume bem a nova face: “É uma grande colaboração”. Os sucessos que ele já fez acontecer são bons exemplos.

 

Augusto Diniz

Augusto Diniz
Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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