Augusto Diniz | Música brasileira

Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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Por que levar ao palco a sonoridade criada no estúdio é um desafio para artistas, segundo estudioso

Sergio Molina afirma que a tecnologia sempre ditou a transformação estética na música, mas se aprofundou neste século

Foto: Freepik
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O músico e estudioso Sergio Molina conta que o álbum dos Beatles Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967) foi uma revolução no que ele chama de “música de montagem”.

“A canção popular, a partir desse disco, passou a ser criada em estúdio, pela sobreposição de pistas de gravação, por cortes, colagens e muitos contrastes entre as faixas de um mesmo álbum”, afirma a CartaCapital.

Sergio é o autor do livro Música de Montagem: A Composição de Música Popular no Pós-1967.

Lançado pela editora É Realizações, o trabalho venceu o Prêmio Funarte de Produção Crítica em Música (2016) e o Prêmio Tese destaque USP (2015). O livro discute a relação entre a criação musical e o desenvolvimento da tecnologia nas últimas cinco décadas.

“Na canção popular do século XX, o desenvolvimento da tecnologia sempre foi causa e efeito das transformações estéticas”, avalia. “Neste século XXI, essas experiências de criação e contrastes de sonoridade vêm se aprofundando, especialmente no ambiente da música pop. Existe muita criatividade e pesquisa sonora nas texturas acústico-eletrônicas no trabalho da Björk, do Tune-yards, da Billie Eilish. No Brasil, temos isso nos trabalhos de Juçara Marçal e Xênia França e também, eventualmente, no último álbum do Caetano (Veloso).”

O estudioso explica que a relação da canção com a tecnologia se confunde atualmente, pois a criação pode acontecer diretamente no estúdio, o local de produção musical, a partir de timbres, beats, levadas eletrônicas, riffs de guitarra etc., com o uso da tecnologia.

“A voz e a palavra, em vez de serem o ponto de partida, podem ser a última etapa. E na medida em que a criação acontece no estúdio – que pode até ser em um laptop -, levar toda essa dimensão sonora para o palco tem sido um grande desafio para os artistas atuais.”

Em seu trabalho musical recente, com o quinteto Música de Montagem, Sergio Molina levou a cabo essa questão. Os singles Alada (Sergio Molina e Paulo Souza] e Melancholia II (Sergio Molina e Chico Cesar), segundo ele, exploram a convivência entre sons eletrônicos e acústicos, com todos os integrantes tocando de forma orgânica, tanto os instrumentos mais tradicionais, como bateria, baixo, guitarras, piano, vozes, quanto os sons processados.

“Os dois sons têm camadas de complexidade sem deixar de se mostrar acessível. Música para ouvir, para dançar, para se ligar na poesia, para cantar junto.”

Sergio é coordenador da Faculdade Santa Marcelina na pós-graduação “Canção Popular: Criação, Produção Musical e Performance”, a primeira do País a ter a canção popular como foco de estudos – aliás, o próximo curso acontece a partir de 11 de março.

“A discussão mais aprofundada sobre a canção popular nas universidades públicas acontece nas áreas de História, Semiótica, Letras, mas não nos departamentos de Música”, reconhece. “Em pleno século XXI, muitos ainda restringem o ensino de música aos fundamentos que estruturam a (também rica) tradição da música de concerto originária da Europa.”

A canção popular urbana emergiu como manifestação espontânea das classes mais populares. “Mas ela se fundamentou nas práticas musicais de matriz africana, privilegiando o ritmo, o pulso marcado para ser quebrado, a percussão multifacetada, a improvisação, a dança e, principalmente, a voz e as palavras. E esse encaixe entre melodia e palavra, do som com a sílaba, é um dos seus principais segredos na primeira metade do século passado.”

“Dorival Caymmi foi um mestre desse artesanato composicional e Carmem Miranda foi um diferencial nas entoações e divisões na interpretação.”

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