Augusto Diniz | Música brasileira

Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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Patrícia Ahmaral canta a revolucionária obra de Torquato Neto, que faria 80 anos

A cantora apresenta um vigoroso álbum duplo com 19 faixas e direção de Zeca Baleiro

Foto: Reprodução
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Torquato Neto foi um dos artistas forjados pela Tropicália e seus colegas de movimento até hoje o exaltam como umas das figuras centrais daquela “geleia geral”.

O poeta, letrista, jornalista, cineasta e ator piauiense partiu aos 28 anos, em 1972, após cometer suicídio, mas deixou uma produção e tanto – não à toa, sua obra foi declarada Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil (ainda que tardio) no ano passado. Em 2024, ele completaria 80 anos.

A cantora mineira Patrícia Ahmaral resgatou a obra de Torquato Neto e gravou um álbum em dois volumes com 19 faixas.

O sonho da intérprete de promover esse registro começou quando, em início de carreira em 1998, foi convidada pela organização da 1ª Bienal Internacional de Poesia de Belo Horizonte a apresentar um show com as parcerias musicais de Torquato Neto.

“Desde lá fui tomada por uma alegria por estar em contato com essa obra genial, plural, diversa”, relata. “Torquato teve parcerias com universos muito distintos, de Caetano (Veloso) a Paulo Diniz. A poesia dele é forte, seminal em termos de letras de canção. Eu repeti esse show algumas vezes e aos poucos foi nascendo esse desejo de fazer um disco.”

O projeto foi realizado com recursos da Lei Aldir Blanc e por crowdfunding e lançado integralmente no ano passado. É o quinto álbum da carreira de Patrícia Ahmaral, com direção artística de Zeca Baleiro e participações de Banda de Pau e Corda, Chico César, Jards Macalé, Maurício Pereira e Tonho Penhasco, projeto Moda de Rock – com os violeiros Ricardo Vignini e Zé Helder -, Ná Ozzetti e Paulinho Moska.

O álbum tem o grande mérito de reunir ótimos arranjos sem tirar o brilho das letras de Torquato Neto. Trata-se de um trabalho muito bem resolvido musicalmente, no qual se exalta o poeta do período efervescente do final dos anos 1960 e início de 1970 com uma sonoridade atual marcante.

“Ficou um espectro bem colorido. Lancei o volume 1 e o 2 juntos, um álbum mesmo, como se fosse um disco de vinil. Percorrendo as 19 faixas tem-se uma ideia muito clara dos pensamentos do Torquato, das dialéticas presentes, nas parcerias diversificadas”, explica a intérprete.

O volume 1, com nove faixas, tem o nome de Um Poeta Desfolha a Bandeira, e as composições são mais ligadas à Tropicália. “No volume 2 (de 10 faixas, com o nome de A Coisa mais Linda que Existe) resolvi colocar as canções de amor, que era uma perspectiva que nunca tinha sido feita”, afirma Ahmaral. “Ele tem um conjunto de letras de amor extraordinárias. É um contraponto com o volume 1.”

Entre as canções gravadas, estão Louvação (Gilberto Gil e Torquato Neto), Let´s Play That (Jards Macalé e Torquato Neto), Geleia Geral (Gilberto Gil e Torquato Neto), Mamãe, Coragem (Caetano Veloso e Torquato Neto), Go Back (letra de Torquato Neto que foi musicada postumamente por Sergio Britto dos Titãs) e a belíssima Pra Dizer Adeus (Edu Lobo e Torquato Neto).

Patricia Ahmaral afirma que Geleia Geral não poderia ficar de fora. “É uma canção-manifesto total da Tropicália”, diz. “Geleia Geral leva o DNA do Brasil. A visão que o Torquato traz na letra, a visão de país que ele tinha, com vinte e poucos anos, é muito impressionante. É uma canção que tinha que gravar. É uma canção muito importante.”

Segundo ela, a música sintetiza a figura do Torquato. “Não tive intenção de fazer um disco tropicalista, mas um disco de Patricia Ahmaral em conexão com essas coisas todas. Ele pode soar um pouco tropicalista no sentido de trazer cores, referências, texturas. Isso é uma herança, mas não houve intenção.”

Torquato ficou reconhecido como um letrista revolucionário. “Ele foi muito cristalizado como poeta suicida, como uma cara combativo, extremo”, justifica a cantora sobre os motivos de ele não ter sua obra tão lembrada. “Ele não é para ser uma figura mítica, mas presente, que ainda pode dialogar, se inspirar.”

Assista à entrevista de Patrícia Ahmaral a CartaCapital:

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