Augusto Diniz | Música brasileira
Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.
Augusto Diniz | Música brasileira
Novo álbum exalta os vissungos, cantos que mostram a força dos tambores afro-mineiros
O disco conta com as participações de Juçara Marçal, Tiganá Santana, Sérgio Pererê e do mestre vissungueiro Enilson Viríssimo
Utilizados em Minas Gerais no século XVIII como cantos de trabalho na mineração, os vissungos foram incorporados aos rituais afro-mineiros marcados pelos tambores. Clementina de Jesus, por exemplo, gravou vissungos em sua carreira, iniciada na década de 1960 — até o grupo musical que por vezes a acompanhava levava o nome da tradição ancestral. Agora, o álbum recém-lançado Vozes Vissungueiras, com 15 cantos, recupera esses importantes traços musicais da diáspora africana em Minas.
O disco tem a direção musical de Salloma Salomão e a curadoria de Rita Teles, Luciano Mendes e Joana Corrêa. A curadoria se justifica pela construção do repertório, a partir de registros orais contemporâneos coletados nas comunidades quilombolas de Serro e de Diamantina, no norte de Minas Gerais; partituras reunidas pelo filólogo e linguista Machado Filho no livro O Negro e o Garimpo em Minas Gerais (1943); registros sonoros feitos por Corrêa de Azevedo e temas presentes no álbum O Canto dos Escravos (1982), de Tia Doca da Portela, Geraldo Filme e Clementina, com a participação dos percussionistas Papete, Djalma Corrêa e Don Bira.
O registro tem uma produção contemporânea, e a instrumentação vai além da forte presença da percussão, com baixo, violão, guitarra e flauta. O tom atual não tira, no entanto, a carga das tradições resgatadas, com os instrumentos marcando uma presença branda e refinada. O projeto se define como ressignificação das comunidades detentoras dos cantos ancestrais.
Participam do álbum Juçara Marçal, Tiganá Santana e Sérgio Pererê — cantores reconhecidos pela relação umbilical com as expressões afro-brasileiras — e o mestre vissungueiro Enilson Viríssimo de Milho Verde, distrito de Serro, um guardião do repertório oral dessa tradição.
Paralelamente, o Mukuá – Laboratório de Estudos sobre Vissungos, um dos grupos envolvidos na produção do álbum, trabalha em um documentário na região de Serro e Diamantina.
O diretor musical, historiador, músico e compositor Saloma Salomão relaciona o projeto ao reconhecimento da herança bantu, da qual o vissungo surgiu. Para ele, a formação afrodiaspórica na cultura brasileira “tem sido apagada, apartada e suprimida pelo racismo cultural, uma modalidade que não atinge diretamente o corpo da pessoa, mas seus sentimentos e pensamentos”. O álbum, segundo o historiador, tem essa dimensão política.
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