Augusto Diniz | Música brasileira

Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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Filha de João Gilberto lança seu 1º disco: ‘Demorei a entender a importância do meu pai’

Loulu Gilberto gravou bom um álbum, reeditando o enigmático clima ‘joãogilbertiano’

Filha de João Gilberto lança seu 1º disco: ‘Demorei a entender a importância do meu pai’
Filha de João Gilberto lança seu 1º disco: ‘Demorei a entender a importância do meu pai’
Foto: Bob Wolfenson
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Filha de João Gilberto e da jornalista Cláudia Faissol, Luísa Carolina Gilberto lançou aos 21 anos seu primeiro álbum, pela gravadora Sony, sob o título de seu nome artístico, Loulu Gilberto. O trabalho tem produção de Cézar Mendes e Mario Adnet. 

Certa vez, contou Loulu em entrevista a CartaCapital, João Gilberto pediu a Cézar Mendes que desse aulas de violão a ela. “Mas eu não queria fazer aula de violão de jeito nenhum. Tinha tentado com vários professores.”

Ela foi, inclusive, apresentada pelo pai a Cezinha como futura cantora: “Cezinha falou: ‘João, não força, deixa ela’”. Passados alguns anos, após a morte de João, em 2019, Loulu, então com 16 anos, procurou Cezinha e cobrou as aulas de canto. 

Cézar Mendes relutou, porque sua especialidade eram as aulas de violão, mas topou a empreitada diante da insistência de Loulu.

“Eu ia à casa dele uma ou duas vezes por semana e escolhia uma música. A gente cantava, ele me acompanhava, me corrigia na melodia e na afinação. Passamos a ficar amigos, criando uma relação além das aulas.”

Em um desses encontros, Loulou mostrou a Cezinha alguns sambas antigos que seu pai lhe ensinou. “Ele ficou fascinado. Não conhecia aquelas músicas”, recorda.

Surgiu, então, a ideia de fazer um disco — e, claro, de Loulu virar uma cantora. Cézar chamou Mario Adnet para se juntar à produção e começou a elaboração do álbum.

O desfecho foi a gravação de Loulu Gilberto, de 13 faixas. O resultado é positivo e mantém o clima enigmático das gravações de João Gilberto, agora pela voz sensível de Loulu e pela instrumentação delicada e “joãogilbertiana”.

O álbum começa com a música João (Cezar Mendes e Arnaldo Antunes). Loulu conta que Cezinha e Arnaldo a compuseram em homenagem a João Gilberto e a mostraram a ele. “É uma música que dimensiona quem o meu pai é para o mundo”, resume. 

Loulu tinha uma percepção diferente de João Gilberto até pouco tempo atrás. “Para mim, ele era meu pai. Demorei a entender que era essa figura importante para a história.”

A música seguinte, O Amor Nos Encontrou, é uma inédita de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli, da qual havia apenas uma gravação privada de João. Em seguida, vem Avarandado (Caetano Veloso), uma escolha de Loulu. No registro do disco, ela faz um duo com Tom Veloso, filho de Caetano. 

Em seguida, Loulu canta um standard americano apresentado pelo pai, Tea for Two (Irving Caesar e Vincent Youmans), com a participação de Daniel Jobim ao piano. 

“Falo inglês desde pequena”, afirma. João Gilberto lhe ensinava músicas traduzidas de Tom Jobim. “Muitas eu aprendi primeiro em inglês, como Dindi (Tom Jobim e Aloysio de Oliveira).” 

Outra canção em inglês introduzida por João é Mr. Sandman (Pat Ballard), também registrada no álbum. 

O disco oferece músicas antigas, reeditando o movimento de João Gilberto de mostrar o cancioneiro brasileiro antes do surgimento da bossa nova, em 1958, quando ele lançou o compacto com Chega de Saudade (Vinicius de Moraes e Tom Jobim).

Assim, Loulu gravou Manias (Flavio Cavalcanti e Celso Cavalcanti), Joujoux e Balangandãs (Lamartine Babo) — em duo com Maria Carvalhosa —, Beija-me (Mária Rossi e Roberto Martins), Duas Contas (Garoto), Dorme que Eu Velo por Ti (Mário Rossi e Roberto Martins), Cuidado com o Andor (Mario Lago e Marino Pinto) e Qui nem Jiló (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira).

“O cancioneiro brasileiro dessa época é muito impressionante”, afirma Loulu. “É muito importante que essas pessoas sejam resgatadas. Hoje quase ninguém grava isso, mas são músicas muito bonitas, de qualidade poética.”

A faixa que encerra o álbum tem duas cantigas populares: Cavalo-Marinho e Bicho Curutú. Eram entoadas por João Gilberto à beira da cama da filha, para niná-la. 

O show de lançamento do disco deve ocorrer no segundo semestre. Resta saber se a apresentação do álbum no palco ficará à altura do trabalho bem alinhado.

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