Augusto Diniz | Música brasileira

Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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‘Farra dos cachês’ evidencia o fracasso da política cultural nos municípios

Os 3 bilhões de reais destinados pelo poder público a apenas 40 artistas assusta e expõe a inépcia de governos em ações de valorização local

‘Farra dos cachês’ evidencia o fracasso da política cultural nos municípios
‘Farra dos cachês’ evidencia o fracasso da política cultural nos municípios
Foto: Divulgação
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Publicado em julho, o relatório Farras: Como os Shows com Dinheiro Público Conectam Artistas, Bets, Política e Agronegócio, do Observatório do Agronegócio De Olho nos Ruralistas, é estarrecedor. 

O documento aponta que prefeituras e governos estaduais gastaram 3,08 bilhões de reais na contratação de apenas 40 artistas para shows realizados entre 2024 e 31 de março 2026. Ao todo, envolvendo outros artistas, o montante ultrapassa os 5 bilhões de reais. 

Entre os gêneros, de acordo com o relatório, lideram o sertanejo e o piseiro, que se apresentam ao público como estilos apolíticos, mas no fundo guardam relação visceral com o sistema político.

Chamam a atenção as ligações dos municípios com a chamada “farra dos cachês”. Das 2.006 cidades que tiveram shows públicos dos 40 artistas que mais receberam no período analisado, 1.069 decretaram situação de emergência (comprometimento parcial dos recursos locais) e outras 13 formalizaram estado de calamidade pública (incapacidade total) — por seca, inundação ou outros motivos. Um disparate de gestão pública.

Muitos dos pagamentos de shows também “comeram” os orçamentos no período. Em Estrela do Norte (GO), os gastos com alguns dos tais 40 artistas alcançaram 2,9% de seu orçamento de 2024. Enquanto isso, o índice de mortalidade infantil do município é o dobro da média nacional, segundo o documento.

Cabe destaque também para Água Branca (AL), com 1,54% do orçamento gasto com shows. Em Banzaê (BA), o índice chega a 1,52%. Estas duas cidades são conhecidas por suas manifestações culturais, mas o dinheiro graúdo foi mesmo para as mãos de sertanejos e piseiros.

A contratação de shows de grandes nomes, com recursos vultosos e muitas vezes em cidades com problemas graves, evidencia, no mínimo, falta de prioridade na gestão pública.

Nesse universo de cidades envolvidas na farra dos cachês, não é difícil supor o fracasso — ou o desinteresse — na adoção de políticas culturais locais, tão importantes ao longo de todo o ano para a região.

Imagine quanto poderia ser realizado com a distribuição direcionada a expressões e tradições executadas pelos habitantes de um município. Enquanto isso, um único cachê de show pode ultrapassar 1 milhão de reais.

Os integrantes do top 10 (receberam cerca de 100 milhões de reais ou mais) envolvidos na farra dos cachês, de acordo com o relatório, são: Natanzinho Lima, Henry Freitas, Wesley Safadão, Tarcísio do Acordeon, Iguinho & Lulinha, Seu Desejo, Maiara e Maraisa, Léo Santana, Pablo e Xandy Avião. O documento completo está disponível no Observatório do Agronegócio.

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