Augusto Diniz | Música brasileira
Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.
Augusto Diniz | Música brasileira
Entidade contesta o sistema de recomendação de músicas no streaming
O desafio não é lançar uma obra, mas ser descoberto em um ambiente cada vez mais mediado por sistemas automatizados, diz a ABMI
O Global Music Report 2026, da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI, na sigla em inglês), aponta que o streaming já responde por cerca de 70% da receita da música gravada. O índice é semelhante ao do ano anterior e mostra a consolidação do modelo por assinatura e da monetização de plataformas digitais.
“Não existe mais um mercado relevante dissociado dessas dinâmicas. Quando a distribuição depende cada vez mais desses sistemas, cresce o incentivo para que o catálogo se adapte ao que eles privilegiam”, diz Felippe Llerena, presidente da Associação Brasileira da Música Independente (ABMI), entidade que representa mais de 100 empresas do setor fonográfico.
A ABMI observa uma mudança na própria linguagem da música para se adaptar a esta era das plataformas. “Faixas mais curtas, introduções cada vez mais rápidas e estruturas pensadas para capturar a atenção logo nos primeiros segundos tornaram-se estratégias recorrentes, em um ambiente em que retenção e engajamento influenciam diretamente a circulação das obras.”
Segundo Llerena, “a criação deixa de dialogar apenas com intenções artísticas e passa a considerar, cada vez mais, as regras implícitas de distribuição estabelecidas pelas plataformas”.
O presidente da ABMI expressa preocupação com o fato de que milhões de descobertas musicais aconteçam diariamente por meio de recomendações algorítmicas e playlists de plataformas, o que confere um poder de decisão imenso às corporações que as controlam.
“Em vez de dialogar prioritariamente com referências culturais ou trajetórias artísticas, parte crescente da produção passa a responder a métricas que determinam visibilidade e alcance”, ressalta.
Felipe Llerena propõe cautela ante a alegação de que as plataformas oferecem mais oportunidades à indústria. “A redução das barreiras para publicar uma música não significa, necessariamente, maior diversidade de escuta. A tecnologia democratizou a produção, mas não democratizou a atenção.”
Assim, segundo ele, o principal desafio na indústria não é lançar uma obra, mas ser descoberto em um ambiente cada vez mais mediado por sistemas automatizados de recomendação.
Para o executivo da ABMI, isso ajuda a explicar por que, mesmo diante de um volume recorde de lançamentos nas plataformas, uma parcela pequena do catálogo concentra a maior parte das reproduções.
Cabe agregar uma informação da Luminate, uma das principais empresas globais de dados de entretenimento: no relatório sobre o desempenho do mercado global da música em 2025, apontou que quase 90% das músicas tiveram no máximo mil reproduções ao longo do ano.
“Nesse cenário, a música independente preserva um papel essencial como espaço de experimentação, identidade e inovação”, resume Felipe. “Ainda assim, enfrenta limitações evidentes para alcançar o consumo de massa quando não consegue acessar, de forma consistente, os mecanismos que definem o que será recomendado, ouvido e compartilhado.”
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