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Voz do povo
Sem a participação da sociedade civil, a crise da política perpetua-se no Rio de Janeiro
Em outubro, a população do Rio de Janeiro escolherá o próximo governador que vai comandar o estado durante quatro anos. Será uma eleição emblemática e de extrema relevância para o futuro fluminense, uma vez que há muitos anos não temos o atual ocupante do cargo concorrendo a uma possível reeleição. Depois de uma sequência de crises políticas, cassações e denúncias de corrupção, abre-se uma rara oportunidade para discutir quais instituições precisam ser reconstruídas para que o Estado volte a planejar seu futuro.
Se existe uma lição que os últimos anos deixam, é que o esvaziamento da participação social, para além de uma rachadura na nossa democracia fluminense, é uma perda de capacidade de governança. Mas, para entender como chegamos até esse ponto de afastamento da população das decisões que tanto impactam o desenvolvimento do nosso estado, vale voltar um pouco no tempo.
Depois de 2013, ano que transformou a política brasileira e que é também o marco de criação da Casa Fluminense, vivenciamos um passo para a participação popular que parecia ser uma política de Estado: a criação da Câmara Metropolitana de Integração Governamental do Rio de Janeiro, instituída para articular as políticas públicas entre as cidades. Essa novidade de ampliação integrada e participativa para a Região Metropolitana do Rio de Janeiro chegava muito em linha com os objetivos da nossa organização. A Casa atua pela construção coletiva de políticas públicas para melhorar a vida dos moradores da região, e na época foi eleita para a presidência do Conselho Consultivo da Câmara. Após as eleições de 2018, com a aprovação da Lei Complementar 184, que extinguiu a Câmara e a substituiu pelo Instituto Rio Metrópole, o cenário mudou.
Se antes a antiga Câmara Metropolitana tinha caráter consultivo e colegiado, o novo órgão foi estruturado como uma parte do governo, com autonomia administrativa para colocar em prática as decisões e os projetos do Plano de Desenvolvimento Urbano Integrado. Sendo assim, as funções técnicas e a responsabilidade por gerir temas como transporte, saneamento e habitação metropolitana migraram integralmente para o IRM. Com esse movimento, o então governo Wilson Witzel retirou a Casa e outros representantes da sociedade civil desse espaço, dando um recado claro: a participação deixava de ser entendida como parte da governança e passava a ser tratada como um obstáculo. Se, em 2013, uma primavera buscava apresentar outras prioridades para a política, após 2018 um cenário que já vinha em mutação se transformou por completo.
As denúncias contra o Instituto Rio Metrópole provam os efeitos do afastamento da sociedade
Voltando para 2026. Por coincidência – ou não –, o assunto ainda é a Câmara Metropolitana. Recentemente, o Ministério Público do Estado do Rio deflagrou a Operação Ouroboros para investigar um esquema de corrupção exatamente no Instituto Rio Metrópole, antiga Câmara Metropolitana. As investigações apontam que foram negociados contratos suspeitos que chegam a 86 milhões de reais. Em pouco mais de uma década, um espaço que foi concebido para aproximar Estado e sociedade civil tornou-se manchete nas páginas policiais, com diversas prisões em flagrante. A coincidência é um convite a uma pergunta incômoda: o que acontece quando instituições excluem a participação da sociedade?
É impossível não relacionar a exclusão da sociedade civil do mecanismo de governança da situação vivida pelo IRM, o que reforça a necessidade de aumentar a participação popular em outros espaços estratégicos, como o Fórum Rio de Janeiro de Mudanças Climáticas. Mais de 70 organizações e ativistas publicaram uma carta na qual manifestam o desejo de ampliação da participação social no Fórum – hoje, a sociedade civil tem apenas duas das 21 vagas da composição. Justamente quem sente na pele as consequências da crise climática é, atualmente, o setor menos representado em discussões relevantes.
Os efeitos da falta de participação social podem não ser vistos de imediato, mas causam danos profundos para a sociedade no longo prazo. Primeiro, enfraquece os espaços de diálogo. Depois, compromete a capacidade de planejamento. Por fim, abre caminho para a captura de instituições que deveriam servir ao interesse público. No Rio de Janeiro, esse roteiro se repetiu diversas vezes para ser tratado como coincidência. A eleição de 2026 oferece uma oportunidade rara para interromper esse ciclo. Porque fortalecer a participação social não é apenas ampliar a democracia. É impedir que a próxima falência da política comece, mais uma vez, pelo esvaziamento de suas instituições. •
*Gerente Programática da Casa Fluminense.
Publicado na edição n° 1426 de CartaCapital, em 19 de agosto de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Voz do povo’
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