Republicanos evitaram o impeachment. Toparão ser o Partido de Trump?

O trumpismo veio pra ficar, e seus efeitos continuarão a atormentar a democracia e sociedade norte-americanas por um bom tempo

Presidente dos EUA, Donald Trump. Foto: AFP

Presidente dos EUA, Donald Trump. Foto: AFP

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Apesar das evidências do envolvimento direto do ex-presidente Donald Trump nos eventos históricos do dia 6 de janerio último, a maioria dos senadores republicanos se recusam a condenar Trump, evitando assim um inédito impeachment do ex-presidente, que o impediria também de disputar outras eleições.

 

 

Embora muitos do partido se digam, ainda que em voz baixa, exaustos da figura polarizadora de Trump, poucos terão coragem de enfrentá-lo abertamente. Temem que o grande número de apoiadores do ex-presidente nas bases sociais do partido se mobilizem para impedir a reeleição do atuais congressistas.

A atual crise na sociedade norte-americana não começou com Trump, mas piorou sob sua presidência. Além de uma crise humanitária e econômica históricas, os EUA enfrentam um acelerado processo de cisão entre grupos sociais que se veem, de forma mais e maks aguda, como auto-excludentes. E, embora Trump seja o principal responsável pela acentuação dessa tese, o partido Republicano já não pode mais ser visto como ‘sequestrado’ por Trump para estes fins – hoje grande parte de seus membros se alinha, por convicção ou pragmatismo, ao trumpismo vivo e forte no país.

Fundado na tradição política majoritária de Lincoln e desde muito representante dos interesses corporativos dos país, os republicanos vem desde 2008, contudo, viabilizando politicamente e legitimação culturalmente de segmentos que, desde pelos menos 50 anos, viviam à margem do sistema político, em especial supremacistas brancos e milícias raciais e anti-estado. Apresentando-se desde a eleição de George W. Bush, no ano 2000, como representante do homem comum (entenda-se, homem branco, sem educação superior), os republicanos surrupiaram votos tradicionais do partido Democrata, historicamente ligado aos sindicatos, especialmente no chamado Cinturão da Ferrugem, os estados em franca desindustrialização do Meio Oeste do país.

Trump aproveitou-se da frustração desses segmentos em 2016. O imigrante não-branco e pobre foi o bode expiatório de uma campanha xenofóbica, chauvinista e divisionista. Agora, com sua guarda pretoriana atacando o Capitólio, Trump leva a lógica e o discurso anti-sistêmico ao limitr, e impõe um dilema aos republicanos. Ou o partido retoma a narrativa pró-business institucionalista, ou se consolida com o partido de extrema-direita populista mais importante no mundo. A escolha não é fácil.

Desde de novembro passado, Trump vem arrecadando fundos. Inicialmente, sob o pretexto de arcar com os custos dos processos de recontagem de votos em estados-chave. Estima que o montante arrecadado some em torno de 200 milhôes de dólares. O dinheiro é alvo da cobiça de vários aliados de Trump dentro do partido. Alinhados ao ex-presidente, esses quadros podem obter recursos para suas próprias campanhas no futuro – desde que concorram ao lado de Trump, seja o apoiando seus interesses ou sua prometida campanha de reeleição em 2024.

O apelo financeiro é sempre central nas eleições americanas. Mas há também o apelo político. Aliados do ex-presidente continuam a dominar a direção nacional do partido e a maioria do diretórios estaduais.  É difícil saber qual destino terá Trump fora dos campos de golfe de seus luxosos hotéis. Muito dependerá de sua capacidade de manter o apelo entre mais de 70 milhões de eleitores que, apesar de tudo, preferiam ele na Casa Branca.

Um número demasiadamente elevado de norte-americanos continua a seu lado. De fato, cerca de 45 por cento dos eleitores republicanos entrevistados após os eventos do Capitólio acredita que o ataque foi justificado.

A manutenção desse apoio dependerá da habilidade de Trump em manter a narrativa conspiratória da ‘verdadeira América’ e de sustentar como a solução aos problemas existenciais do país. Muito dependerá também dos rumos que o partido Republicano escolherá tomar – ainda que a popularidade de Trump tenha grande e direta influência sobre a escolha do partido.

Como em outros países, em especial no Brasil desde 2015, a democracia e a superação da violência na esfera pública dependerão, de maneira especial, do comportamento da direita. O trumpismo veio pra ficar, e seus efeitos continuarão a atormentar a democracia e sociedade norte-americanas por um bom tempo. Caso o partido Republicano se consolide como uma força anti-sistêmica, como o Partido de Trump, a erosão da democracia norte-americana tende a se aprofundar.

Rafael R. Ioris é Professor na Universidade de Denver e Pesquisador do Instituto de Estudos do Estados Unidos (INCT-INEU)

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Professor na Universidade de Denver e Pesquisador do Instituto de Estudos do Estados Unidos (INCT-INEU)

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