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Por que o Brasil precisa de usinas de reserva para evitar o colapso elétrico?
À medida que crescem os riscos de apagões generalizados, celebrar a transição energética não é suficiente para garantir estabilidade na infraestrutura elétrica brasileira
O Sistema Interligado Nacional (SIN) vive um paradoxo técnico preocupante. Enquanto o Brasil celebra o avanço histórico da transição energética, ancorada na expansão das fontes solar e eólica, a infraestrutura de bastidores opera sob estresse agudo. Há anos, relatórios do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) trazem alertas inequívocos: o país enfrenta um risco real e crescente de apagões sistêmicos de larga escala. Blecautes de menores proporções, em decorrência da atual situação, já foram ameaça real. O motivo principal para esse cenário não é a falta de energia, mas a escassez crítica de capacidade de reserva de potência para suportar os momentos de pico do consumo nacional.
Diariamente, entre 18h e 21h, ocorre o fenômeno técnico conhecido como rampa de carga. É o momento do dia em que a massiva geração solar do país desaparece com o pôr do sol, enquanto milhões de brasileiros retornam para suas casas e ligam chuveiros, aparelhos de ar-condicionado e eletrodomésticos. Para equilibrar essa balança e evitar o colapso físico da rede, o ONS enfrenta o desafio complexo de injetar, em menos de 120 minutos, entre 25 GW e 40 GW de potência firme – gerada por grandes hidrelétricas e termelétricas. Trata-se de uma operação de guerra repetida diariamente, com maior intensidade nos dias úteis no período do verão.
A fragilidade desse arranjo não é teórica; ela foi testada e evidenciada em três episódios severos recentes, já divulgados pelo ONS e incorporados à literatura do setor elétrico brasileiro. Em agosto de 2023, um descasamento sistêmico e a baixa reserva de potência firme na região Nordeste provocaram a desconexão automática de milhares de megawatts após uma pane no Ceará.
Entre o fim de 2024 e o início de 2025, o Plano de Operação Energética (PEN) emitiu alertas estruturais para 11 estados diante do calor extremo, o que obrigou o ONS a realizar cortes preventivos e a acionar térmicas caras fora da ordem de mérito — usinas que, em condições normais, não seriam acionadas, exceto por extrema necessidade.
Por fim, em outubro de 2025, um incêndio na Subestação de Bateias (PR) exigiu o acionamento emergencial do Esquema Regional de Alívio de Carga (ERAC), o que interrompeu 16 mil megawatts e afetou mais de 600 mil consumidores. A medida foi tomada para impedir um blecaute generalizado que levaria o país à mais absoluta escuridão. Isso sem mencionar o Dia dos Pais de 2025, quando o excesso de geração distribuída quase provocou um blecaute. Linhas de transmissão foram desligadas para aliviar a carga no sistema elétrico brasileiro.
O Brasil já foi um país em que grandes hidrelétricas, com imensos reservatórios de água, eram construídas em diversas regiões. A última foi a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu – um projeto de 11 mil MW de capacidade instalada e pouco mais de 4,5 mil MW de potência firme, o que significa um fator de capacidade de 40%. Essa limitação ocorre em razão das restrições da cota da barragem de Pimental e de Belo Monte, complexo que forma as reservas de água (o “combustível” que faz girar as turbinas). Hoje, é impensável a construção de projetos dessa natureza em rios da Amazônia ou em quaisquer outros. A resistência do movimento ambientalista inviabiliza tais obras, e nenhum governo tem força política para levá-las adiante. Logo, sem as grandes hidrelétricas na equação para ampliar a base do sistema elétrico – aquela energia que a tradição do setor chamava de “energia firme” –, não há outra alternativa imediata para garantir esse seguro de capacidade de reserva senão pela via das termelétricas.
Portanto, esses incidentes relatados pelo ONS reforçam que a estabilidade do SIN depende da realização de leilões de Reserva de Capacidade. O leilão de março último gerou reações contrárias e pressões jurídicas para anular o certame, mas felizmente será mantido. A contestação jurídica desses leilões eleva o risco regulatório e afasta investimentos essenciais na expansão da infraestrutura básica. É fundamental que novos leilões sejam feitos, até para garantir a expansão da energia renovável de maneira planejada e com custos otimizados.
O horizonte é de urgência máxima. As projeções oficiais indicam que, em 2028, a necessidade de mobilização instantânea no horário de pico saltará para 50 GW. Como uma usina termelétrica estruturada demanda ao menos dois anos de construção — sem computar eventuais entraves de licenciamento ambiental —, o tempo para garantir a segurança energética do fim da década está perto do fim. Sem usinas de reserva contratadas e prontas, o país caminharia para uma situação de altíssimo risco.
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