Pedras que lembram vidas, pedras que lembram mortes: Stolpersteine

Na coluna Vozes da Diáspora, Ana Graça Wittkowski escreve sobre as Stolpersteine e a falta de memória às vidas negras na 2ª Grande Mundial.

Pedras que lembram vidas, pedras que lembram mortes: Stolpersteine

Artigo,Opinião

No dia 27 de janeiro de 1945 os aliados abriram os portões do campo de concentração de Auschwitz, na Polônia. Sem as câmaras dos aliados não teríamos tido a chance de ver os documentos do genocídio que aconteceu aqui na Europa.

Aqui na minha cidade, como em muitas outras da Alemanha, encontramos “Stolpersteine” como uma tradução literal que significaria pedras-obstáculo.

Esse é um meio que foi encontrado para que as pessoas aqui que hoje têm tantos privilégios não esqueçam que alguns seres humanos pagaram por esses privilégios com as vidas, seres humanos que não cometeram crimes, que não tinham culpa e que muitos até o fim não conseguiram sequer acreditar que seus conterrâneos cairiam em um poço ilusório e tão obscuro de teorias fascistas nos que comunidades inteiras sucumbiriam por excesso de loucura e maldade.

Em Mainz é estimado que antes de 1945 havia uma comunidade judaica com mais de 2.600 pessoas.

No dia 10 de fevereiro de 1943 saía de Mainz o último transporte para os campos de concentração. Não se sabe ao certo quantas pessoas, todavia crê-se que mais da metade desta comunidade religiosa foi dizimada por aqueles que diziam ser os herdeiros da chamada “raça ariana”. 

Entre as muitas estupidezes que ainda regem o mundo, há ainda quem creia que os chamados “arianos” tenham alguma relação com os povos nórdicos, povos loiros de olhos azuis. Não, isso é estupidez. Os verdadeiros arianos são cidadãos de uma comunidade que existe até hoje no Iran. Não são necessariamente muçulmanos, mas não são indubitavelmente povos da Europa.

Voltando, desde o ano de 2000 encontramos em Mainz as “Stolpersteine” em várias partes da cidade. Passeando pela cidade temos assim a chance de registrarmos que as pessoas da comunidade judaica de Mainz estavam em vários bairros, bairros pobres e bairros ricos da cidade de Mainz, nos centros e adjacências. Essas casas e sinagogas desapareceram completamente da cidade.

Por isso, frente às casas onde habitavam pessoas judaicas que foram deportadas e assassinadas pelos nazistas, o artista Gunter Deming coloca pedras cobertas com bronze. Nestas ele escreve os nomes das famílias, quando nasceram e quando foram deportadas e mortas.

Essa é uma forma que foi encontrada para que não esqueçamos que em vários cantos desta cidade houve pessoas que tiveram suas humanidades dilaceradas. Este projeto não é só em Mainz, como também em toda a Alemanha.

Em quase todas as grandes cidades podem ser vistas essas pedras que simbolizam vidas de judeus, homossexuais, pessoas que foram contra a injustiça. Todas elas foram levadas.

Este projeto do artista da cidade de Colônia tornou-se um dos maiores projetos da Europa para que não seja esquecido e, atualmente, já são mais de 74.000 “Stolpersteine” nas calçadas da Alemanha, calçadas por onde um dia passearam cidadãos alemães, os quais acreditavam nos direitos humanos, no Monoteísmo, falavam a língua do país, eram homens e mulheres, professores, médicos, enfermeiros, artistas…. eram seres humanos.

A intolerância aqui nesta terra não é nada de novo. Nunca parou de existir e vejo com muita preocupação as formas e tons que ela vem tomando nos canais sociais e também no parlamento. Há políticos que querem negar que houve o holocausto. Estes mesmos usam atualmente as imagens dos imigrantes para semear o medo, da mesma forma como naquela época foram usadas as imagem dos judeus.

Estou grata que ainda há uma comunidade judaica aqui na minha cidade, sou grata que eles ainda não desistiram de estar aqui e que, têm possibilidade de manter estes memoriais aqui e em toda a Europa.

Espero o dia que também será possível termos também “Stolpersteine” para as pessoas negras que morreram na Europa lutando ao lado dos aliados para acabar com o nazismo. Muitos soldados africanos e afro-americanos também derramaram seus sangues para que hoje possamos desfrutar desta democracia, desta paz tão louvada aqui na Europa. A França não só não agradeceu como também invisibilizou esses soldados negros.

Infelizmente há muito pouca informação sobre os heróis afrodescendentes na luta contra o nazismo e o fascismo. Espero que ainda consigamos ter também nossas “Stolpersteine”, nós, afrodescendentes.

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Nascida e criada em Salvador da Bahia. Quinta de oito crianças, formada em Letras Vernáculas pela UFBa. Pós-Graduada em Literatura Contemporânea pela UEFS-Bahia. Formada em Etinologia e Lusitanística pela Johannes-Gutenberg-Universität-Mainz. Fundadora da ONG-BrasilNilê. Embaixadora da Década Internacional dos Afrodescentes na Alemanha.

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