Artigos
Para preservar o valor do voto, é preciso tornar visível a confiança nas urnas
Não basta produzir informação correta. Também é necessário pensar em quem a transmite e nas vozes que conseguem chegar ao eleitor
Quatro anos atrás, durante as celebrações do 7 de Setembro, o então presidente Jair Bolsonaro desfilou em um carro de som com a frase “voto limpo e transparente”. Às vésperas do primeiro turno, os ataques ao sistema eletrônico de votação ocupavam um lugar central em sua campanha, enquanto milhares saíam às ruas pedindo o chamado “voto auditável”.
Nas redes, uma onda de conteúdos colocava as urnas sob suspeita. Não era o início dessa desconfiança, mas um momento-chave no qual o sentimento de distanciamento em relação ao sistema eleitoral encontrou uma interlocução política declarada e passou a ser traduzido, de forma organizada, em desconfiança no sistema eletrônico de votação.
Do outro lado, o Tribunal Superior Eleitoral tentava conciliar uma dupla tarefa: desmentir as notícias falsas que circulavam sobre o processo eleitoral e, ao mesmo tempo, promover campanhas em defesa da integridade das urnas eletrônicas. Nesse processo, a própria instituição também se tornou alvo dos ataques.
Enquanto conteúdos e grupos mobilizados para questionar e atacar o sistema eleitoral ganhavam espaço e visibilidade, eram menos frequentes as manifestações espontâneas de indivíduos que faziam o movimento contrário, de afirmar publicamente sua confiança nas urnas e defender as eleições.
Uma pesquisa Quaest, divulgada em agosto, mostrou que, desde 2022, houve uma queda generalizada na confiança nas urnas eletrônicas em todas as faixas etárias e regiões do País. Entre os eleitores que se identificam com o bolsonarismo, a desconfiança chega a 51%. O rechaço à tecnologia encontrou espaço para se espalhar, enquanto faltaram respostas capazes de alcançar e proteger aqueles que ainda não sabiam ao certo como se posicionar diante de dúvidas genuínas sobre o funcionamento do sistema.
Como ampliar a confiança no sistema eleitoral
Mas informação confiável, sozinha, não produz confiança. É possível explicar em detalhes como a urna funciona, publicar auditorias, abrir códigos e responder a cada boato que circula nas redes e, ainda assim, não alcançar quem desconfia do sistema. Confiança não depende apenas do conteúdo de uma mensagem, mas também de quem a transmite, de onde ela circula e da relação que existe entre quem fala e quem escuta.
Essa questão se torna ainda mais importante diante das transformações na forma como os brasileiros se informam. O “Digital News Report 2026”, do Reuters Institute, mostra que as mídias sociais já superam a televisão e sites de notícias como fonte semanal de notícias no Brasil. Um em cada três brasileiros (33%) afirma consumir conteúdo de criadores ou influenciadores que falam principalmente sobre notícias. Ao mesmo tempo, a confiança geral no noticiário brasileiro caiu seis pontos em um ano, chegando a 36%.
Isso ajuda a entender por que enfrentar a desinformação não pode significar apenas produzir mais informação correta. É preciso também pensar em seus vetores, em quem transmite as informações.
Novos atores no processo de esclarecimento
Isso não significa transformar influenciadores em porta-vozes institucionais do sistema eleitoral. Aliás, parte da capacidade de comunicação desses criadores de conteúdo pode estar justamente na independência que mantém frente às instituições e na relação construída com suas próprias comunidades. O desafio é fazer com que informações verificáveis e transparentes sobre as eleições possam circular também por essas relações de confiança, traduzidas para diferentes públicos, canais, linguagens e contextos.
Há uma diferença importante entre dizer a alguém que a urna é segura e criar condições para que essa pessoa confie no processo. A primeira tarefa exige informação. A segunda exige informação, transparência e interlocução.
As fontes oficiais continuam sendo fundamentais: quando querem verificar se uma informação é verdadeira, 35% dos entrevistados pelo Reuters Institute dizem recorrer a fontes oficiais. Mas essa informação precisa estar disponível de maneira acessível e ser capaz de atravessar os espaços em que as dúvidas efetivamente surgem.
Recuperar a confiança nas eleições, portanto, não pode ser uma tarefa exclusiva do Tribunal Superior Eleitoral. As instituições públicas têm a responsabilidade de garantir transparência e acesso à informação. Mas jornalistas, pesquisadores, organizações da sociedade civil, plataformas e criadores de conteúdo também participam do ambiente no qual a confiança é construída ou corroída.
Se a desconfiança conseguiu se espalhar porque encontrou atores dispostos a repeti-la, traduzi-la e aproximá-la de diferentes públicos, a reconstrução da confiança também depende de encontrar seus próprios interlocutores e aproximá-los, com independência, das instituições públicas.
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.



