Artigo
Opinião: Que Bolsonaro saia do poder e entre na lixeira da história
‘Cada dia a mais no poder de um governo genocida é mais um dia de ofensa aos mortos, de ultraje’, escreve Esther Solano
O impeachment de Jair Bolsonaro não é uma questão política, não é uma questão jurídica. É uma questão de vida ou morte. Os mais de 200 mil mortos aguardam uma resposta. Cada dia a mais no poder de um governo genocida, que debocha da morte e ridiculariza a dor, é mais um dia de ofensa aos mortos, de ultraje aos vivos. É mais um dia no qual a civilização morre um pouco.
Bolsonaro deve abandonar o poder para que o Brasil possa viver. E que saia do poder para entrar na História, só que na lixeira da História, pela porta dos fundos, pela qual passam aqueles a quem a História dá um gigantesco pé na bunda.
Para tirá-lo do poder devemos politizar ao máximo a pandemia, a morte e a vacina, pois a vacinação é uma questão humanitária, uma questão de saúde e uma questão política.
Num país com um governo negacionista, letal, devemos fazer política com a vacina, sim. Aliás, neste contexto de antipolítica, de antipartidarismo, devemos fazer política com tudo, porque o cotidiano é feito de política e devemos recuperar a importância da política na nossa realidade. Os mais de 200 mil mortos são política.
A política da vacina me preocupa. Preocupa-me porque quem tem conseguido se situar como o principal opositor a Bolsonaro no momento, politizando a vacina, tem sido João Doria, aquele representante de uma suposta direita “civilizada” e “limpinha”. Como eu queria que fosse o campo progressista que estivesse agarrado com força às rédeas da politização da pandemia, colocando-se diante da sociedade como a principal força antibolsonarista.
“Doria fez marketing com a vacina”, reclamam alguns. Meus caros, política não se faz sem marketing, sem cenografia, sem símbolos. Marketing é uma parte essencial da política. Sim, sim, a gente detesta a política marqueteira de Doria, mas vocês acham que a esquerda ganha eleições sem marketing? “Doria está pensando em 2022.” Óbvio. Não era para pensar? Não era para transformar a vacina no grande símbolo eleitoral de 2022 contra um governo genocida? Não era para pensar desde agora numa eleição na qual Bolsonaro pode ganhar de novo? Não deveria a esquerda pensar diariamente em como impedir um segundo turno entre Bolsonaro e a “direita cheirosa”?
Longe de mim defender João Doria e, por favor, não queiram me explicar de quem se trata. Sei perfeitamente quem ele é e o que a sua política significa. Nos últimos dias, as minhas redes sociais foram inundadas por um monte de comentários de homens que se autointitulam de esquerda com a pretensão de me iluminar a respeito das maldades do Doria. O princípio é que, ao me dispor a analisar o feito político da vacinação em São Paulo, eu estaria elogiando o governador.
Eu, socióloga, professora, que dedico a minha vida a fazer pesquisas de opinião sobre sociologia política, moradora de São Paulo, necessito da erudição de um homem branco qualquer que me chama de ignorante ou estúpida porque ignoro quem seja João Doria.
Obrigada, homens brancos, o que seria de uma coitada cientista social que dá palestras em diversos países sem a ajuda de vocês. Como eu queria para todas as meninas deste mundo a autoestima de um homem branco medíocre.
A ciência política, queridos homens brancos medíocres que pretendem me iluminar, não é panfletagem. O que move o cientista são os fatos e suas interpretações, e o fato é que a maior derrota de Bolsonaro até o momento chegou via CoronaVac, do Instituto Butantan, da ciência brasileira, da pesquisa pública, do SUS… e de Doria.
A esquerda permanece invisível na disputa e na estratégia sobre o grande símbolo político atual anti-Bolsonaro, a vacina. Sim, sei do golpe, sei do bloqueio da mídia, tal e tal, mas vamos ficar eternamente a nos escorar nesses fatos ou vamos ressurgir das cinzas?
A realidade sofrida é que precisamos derrotar Bolsonaro para sobreviver, para que a vida volte ao Brasil, e a esquerda hoje está um passo mais longe de se apresentar como a real alternativa ao ex-capitão.
Para 2022, Doria e a tal direita “ilustrada” estão um passo à frente. É essencial entender isso para poder agir, para poder reagir, pois do jeito que a coisa anda nem chegarão ao segundo turno em 2022. Vacina, impeachment e política andam juntos.
Publicado na edição n.º 1142 de CartaCapital, em 29 de janeiro de 2021.
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