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O mágico Jogo da Paz contra o Haiti em 2004 e o jogo de hoje, que é uma guerra

Em uma Copa na qual a Fifa se apequenou em aceitar o abuso dos EUA, o que nos resta é torcer pela Seleção Brasileira

O mágico Jogo da Paz contra o Haiti em 2004 e o jogo de hoje, que é uma guerra
O mágico Jogo da Paz contra o Haiti em 2004 e o jogo de hoje, que é uma guerra
Treino da Seleção Brasileira em 18 de junho de 2026, em New Jersey. Foto: Mauro Pimentel/AFP
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“Se queres ser universal, começa por cantar a tua aldeia” – Leon Tolstói

O governo Lula tinha acabado de tomar posse pela primeira vez e Brasília fervia com as movimentações naturais de quem precisa estar perto do poder. Quem conhece um pouco da vida política sabe bem como funciona esse jogo. Eu era, à época, advogado da CBF e também do seu presidente, Ricardo Teixeira. A CBF é uma potência em vários aspectos. O futebol move muito dinheiro, poder e vaidade. Advogo há muitos anos na área e sei um pouco dessa força.

Ricardo Teixeira me pediu para apresentar a ele o então ministro José Dirceu e o presidente Lula. Uma aproximação absolutamente republicana e natural. Fiz um jantar em casa com Zé Dirceu e Teixeira e, nessa conversa a três, surgiu a incrível ideia do Jogo da Paz no Haiti, que passava por momentos dificílimos. Ricardo topou o jogo da Seleção Brasileira contra a do Haiti, que aconteceu no pequeno estádio Sylvio Cator, em Porto Príncipe. Todos os jogadores abraçaram a causa e toparam participar. A partida se deu em 18 de agosto de 2004 e o Brasil, então campeão mundial, venceu de 6 a 0. Foi o jogo mais emocionante que já presenciei.

O cuidado com a segurança era tal que os dois aviões, o da Seleção Brasileira e o do presidente Lula, tiveram de aterrissar e passar a noite anterior ao jogo na República Dominicana, por falta de estrutura no Haiti. Dormimos em Santo Domingo e só chegamos ao Haiti na hora do jogo. O transporte do aeroporto ao estádio foi feito em tanques urutus e caminhões da ONU. A preleção que o presidente Lula fez no pequeno vestiário para agradecer aos jogadores brasileiros foi muito emocionante. Me lembro do presidente Lula falando aos jogadores, agradecendo, enquanto o Ronaldinho Gaúcho batucava e cantarolava. Roberto Carlos teve de chamar a atenção do grande Ronaldinho Gaúcho. O espírito de solidariedade era o que reinava.

Estava com meu filho, que preferiu sentar na arquibancada e não no pequeno camarote improvisado. O Lula viu que estávamos na arquibancada e nos chamou. Eu disse que era impossível subir pois a multidão fazia uma verdadeira muralha humana. Um haitiano, ao ver o Lula me chamando, imediatamente soltou a voz e pediu passagem. A arquibancada abriu como por milagre. Subimos para o camarote e presenciamos o show brasileiro.

Hoje, passados 22 anos, o Brasil volta a enfrentar o Haiti. Não é um jogo amistoso, pela paz. É um jogo de vida ou morte na luta para o Brasil continuar a sonhar com o título. Em uma Copa na qual a Fifa se apequenou em aceitar a prepotência e o abuso dos EUA, que esbanjam arrogância e arbitrariedade, o que nos resta é torcer pela Seleção Brasileira. Até para mostrar que somos brasileiros tanto no jogo da paz quanto na hora da guerra dentro do campo.

Lembrando do compositor, poeta e bom jogador Chico Buarque na canção O Futebol:

“Para estufar esse filó
Como eu sonhei

Se eu fosse o Rei”.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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