Artigo
O fim da escala 6×1 e a retomada do senso de coletividade
A principal razão para o fim da escala 6×1 não está nas análises de custo-benefício. Está na chance de recuperarmos algo que perdemos há mais tempo
A principal crítica ao fim da escala 6×1 e à redução da jornada de trabalho, sem corte salarial, é o potencial aumento do custo do trabalho sem ganho equivalente de produtividade. Já assistimos a este debate, quando a Constituição de 1988 determinou a redução da jornada de trabalho de 48 para 44 horas.
Apesar do cenário adverso então vigente, com economia em recessão, inflação descontrolada e desemprego em alta, o colapso de custos que os pessimistas anunciavam nunca ocorreu. Quase 40 anos depois, persistimos com uma das jornadas mais longas dentre as principais economias e, ainda assim, segundo a OIT, o Brasil ocupa a 94ª posição entre 184 países em produtividade do trabalho. A lição é clara: trabalhar mais horas nunca foi a solução.
Por décadas, repetem-se os argumentos sobre os gargalos estruturais que impediriam o país de dar um salto de produtividade – infraestrutura precária, sistema tributário caótico, baixo investimento em P&D, e uma força de trabalho com escolaridade insuficiente. A boa notícia é que, hoje, as condições são favoráveis a uma mudança bem-sucedida.
Rodovias, ferrovias, saneamento, portos e aeroportos: a cadeia logística está sendo reestruturada, com investimentos que chegam, no quadriênio 2023-2026, a 1 trilhão de reais. São recursos públicos, parcerias publico-privadas e financiamentos, em especial do BNDES, um mix inovador que está mudando a qualidade da infraestrutura logística do País.
A reforma tributária aprovada é a mais abrangente desde a redemocratização: cinco tributos serão substituídos pelo Imposto sobre Bens e Serviços e pela Contribuição sobre Bens e Serviços, simplificando radicalmente o ambiente de negócios. Para as empresas, o impacto é imediato no fluxo de caixa. Não por acaso, 83% delas esperam efeitos altos e positivos ainda no curto prazo, segundo a PwC Brasil.
O Brasil também voltou a investir em ciência e tecnologia. São mais de 50 bilhões de reais em três anos — o maior ciclo da história recente, impulsionado pela liberação de recursos do FNDCT e das instituições que compõem o braço financeiro da política industrial. Nas duas últimas décadas, chegou a 10,1 o número médio de anos de estudo dos brasileiros de 25 anos e mais e praticamente triplicou a parcela da população com ensino superior.
O argumento de que “ainda não estamos prontos” não tem sustentação objetiva. Ademais, como calculou o Ministério do Trabalho e Emprego, o custo médio de migrar as 44 para 40 horas sem redução de salário equivale a apenas 4,7% da massa salarial. E hoje, 66,8% dos vínculos celetistas, 29,7 milhões de trabalhadores, já atuam em regime 5×2. A escala 6×1 é a exceção, não a regra — e concentra-se em setores como alimentação, alojamento e transporte, onde a agenda do cuidado pesa mais sobre as mulheres.
A questão deixou de ser se vamos reduzir a jornada e passou a ser como fazê-lo. A resposta está em uma transição gradual, pactuada e baseada em evidências. E, em diálogo com o setor produtivo, construir estratégias que conectem a redução de jornada com a modernização e inovação nos processos produtivos, enfrentando de forma sistêmica o problema crônico de produtividade.
O debate sobre a escala 6×1 não é sobre horas de trabalho — é sobre o tipo de sociedade que queremos ser.
Em O Mal Ronda a Terra, o filósofo Tony Judt alerta sobre o esvaziamento de sentido de palavras como justiça, bem comum e responsabilidade coletiva. O movimento “Vida Além do Trabalho” expressa essa insatisfação. Quando trabalhadores tomam as ruas para dizer que não aguentam mais, estão fazendo a pergunta que Judt nos convoca a retomar: isso é justo? Ajuda a construir um mundo melhor? A resposta econômica é sim e as condições para avançar são favoráveis. Mas a principal razão para o fim da escala 6×1 não está nas análises de custo-benefício. Está na chance de recuperarmos algo que perdemos há mais tempo: nosso senso de coletividade.
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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