Artigo
O equívoco do falso dilema energético
Não há contradição em defender o fim progressivo da queima de combustíveis fósseis; a manutenção responsável da extração de petróleo como matéria-prima estratégica; e o uso da renda petroleira para financiar uma transição justa
Sempre que um novo conflito internacional envolve países produtores de petróleo – como ocorre hoje no Oriente Médio – o debate público volta à tona com o falso dilema de colocar o combustível fóssil como oponente a fontes renováveis de energia.
Os argumentos são de que a dependência mundial do petróleo traz insegurança aos sistemas energéticos e às economias, além dos impactos ambientais.
Esta visão, porém, é parcial e não considera a perspectiva de que combustíveis fósseis e fontes renováveis podem coexistir e são ponto central na discussão sobre a transição energética ordenada, onde os fósseis atuam como base firme enquanto a infraestrutura renovável se expande. Ou seja, os combustíveis a partir do petróleo desempenham papel importante na
estabilidade da rede elétrica e segurança energética, sendo alternativa imediata e previsível.
O petróleo está presente no cotidiano, indo muito além dos combustíveis (gasolina, diesel). É matéria-prima básica para uma infinidade de produtos, dos mais sofisticados, com alta tecnologia incorporada, até bens de consumo não duráveis, bens de capital etc. Derivados do petróleo são insumos utilizados por praticamente todos os setores industriais.
Hoje não existem substituições viáveis e em escala necessária para a maior parte das inúmeras aplicações da cadeia do óleo e gás. A interrupção abrupta da extração de petróleo não significaria apenas menos combustível, significaria falta de matéria prima essencial para cadeias produtivas inteiras.
No Brasil, essa discussão ganha um componente estratégico. O setor de petróleo e gás responde por parcela relevante do PIB industrial e é fonte significativa de arrecadação, investimentos e empregos. A renda gerada pode – e deve – financiar políticas públicas e acelerar a própria transição energética. O debate sobre petróleo, além de ambiental, é também industrial, econômico e geopolítico.
Não há contradição em defender o fim progressivo da queima de combustíveis fósseis; a manutenção responsável da extração de petróleo como matéria-prima estratégica; e o uso da renda petroleira para financiar uma transição energética justa.
Uma transição realista não pode ignorar a dependência material do mundo contemporâneo. Ela precisa reduzir emissões sem provocar colapso produtivo, desemprego em massa ou aprofundamento das desigualdades entre países centrais e periféricos.
Descarbonizar não é destruir a base industrial, é transformá-la. O caminho responsável é diminuir o uso energético fóssil, ampliar renováveis, investir em inovação e, ao mesmo tempo, reconhecer que o petróleo ainda sustenta estruturas fundamentais da vida moderna. Se o objetivo é enfrentar a crise climática com seriedade, o debate precisa ser técnico e estratégico.
A escalada da guerra e o bloqueio do Estreito de Ormuz, se mantido, possivelmente continuará produzindo a elevação dos preços internacionais de petróleo e gás natural e de outros bens que utilizam aquela rota, como os fertilizantes importados pelo Brasil. Por ele passam cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia e cerca de 25% do gás natural, essenciais para abastecer os mercados mundiais, sobretudo o asiático.
O conflito na região reforça a necessidade de o Brasil ampliar investimentos em produção energética e em fertilizantes, com o incremento, por exemplo, das obras da unidade de fertilizantes de Mato Grosso do Sul (UFN3) e conclusão da manutenção da fábrica de fertilizantes do Paraná (Fafen-PR).
São necessárias também inversões em fontes alternativas, energias renováveis, combustíveis do futuro e biorrefinarias, além da produção de bioinsumos.
A questão passa ainda por investimentos na produção de óleo e gás na Margem Equatorial e na ampliação da capacidade de refino do país, sem perder de vista os campos maduros e visando a maior disponibilidade de oferta para atender a demanda interna, garantir o abastecimento nacional, em tempos de paz ou de guerra, e conter a inflação.
Mais do que em qualquer outro momento histórico, os investimentos em exploração e produção de petróleo, bem como na expansão do parque de refino e renováveis são estratégicos para a manutenção da soberania nacional e mitigação dos efeitos gerados por um cenário de possível recessão global, a partir deste conflito bélico de proporção global.
Nesse sentido, a exploração de novas reservas de petróleo e a ampliação da capacidade de refino são medidas econômicas relevantes, mas sobretudo, medidas de segurança e soberania nacional.
No caso dos fertilizantes, a situação é ainda mais grave, uma vez que a dependência externa brasileira ultrapassa 85%.
Em meio a uma crise profunda do multilateralismo e sob os impactos de uma nova escalada bélica no Oriente Médio, o Brasil deve buscar o seu interesse nacional, aumentar a capacidade produtiva e a internalização de bens e insumos estratégicos à sua economia e segurança nacional. Nesse sentido, o país deve acelerar investimentos e medidas para produção de combustíveis, sobretudo de diesel e de fertilizantes nitrogenados.
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