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O complexo econômico-industrial da saúde como motor de reconstrução do Rio de Janeiro

A crise profunda não é fortuita, mas o resultado de décadas de desarticulação no planejamento estatal e sucessivas rupturas institucionais

O complexo econômico-industrial da saúde como motor de reconstrução do Rio de Janeiro
O complexo econômico-industrial da saúde como motor de reconstrução do Rio de Janeiro
Comunidade do Vidigal, no Leblon, na zona sul do Rio de Janeiro – foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
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O estado do Rio de Janeiro atravessa um de seus períodos mais dramáticos. Esta crise profunda não é fortuita, mas o resultado de décadas de desarticulação no planejamento estatal e sucessivas rupturas institucionais que culminaram em vácuos de liderança e escândalos políticos recorrentes.

Diante da paralisia, a recuperação fluminense exige mais do que medidas paliativas de austeridade; existe uma latente necessidade de um projeto de desenvolvimento estratégico que mobilize as virtudes e potencialidades da região.

Nesse cenário, o Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS) emerge como o eixo fundamental para o crescimento sustentável e a soberania nacional.

O CEIS é um arranjo produtivo que conecta base industrial, tecnologia e serviços para garantir a autonomia do sistema de Saúde. Sua estrutura se organiza em quatro subsistemas interdependentes, que são de base química e biotecnológica, para produção de fármacos e vacinas; mecânica e eletrônica, que engloba da produção de dispositivos simples a equipamentos de alta complexidade; serviços de saúde, com uma rede assistencial que consome a produção e gera retorno para inovação; e informação e conectividade, sendo vetor de modernização que integra IA e telemedicina à prática clínica. Nesse sentido, é evidente a relevância econômica desse ecossistema.

O setor da Saúde responde por cerca de 10% do PIB brasileiro. Estudos do pesquisador Pedro Linhares Rossi demonstram o impacto multiplicador do setor: para cada R$ 1 milhão investido no CEIS, são gerados 27,7 novos postos de trabalho qualificados. A cada R$ 1 de demanda final na Saúde, é incrementado R$ 2,86 na economia nacional via efeitos indiretos.

Investir no CEIS é, portanto, uma estratégia macroeconômica que gera renda, arrecadação e inovação tecnológica em cascata.

A urgência desta política foi exposta pela pandemia de Covid-19. A crise revelou a vulnerabilidade brasileira perante as cadeias globais, resultando em um déficit comercial na Saúde de quase US$ 20 bilhões.

O Rio de Janeiro, com infraestrutura robusta, tem a oportunidade de liderar a reversão dessa dependência. O estado abriga instituições como a Fiocruz, o INCA e o INTO, além de uma vasta rede hospitalar que posiciona o Rio como um dos maiores compradores de insumos do hemisfério sul.

Entretanto, persiste o “paradoxo fluminense”: apesar de deter 500 mil empregos no setor e movimentar R$ 40 bilhões anuais, o Rio falha em converter esse potencial em liderança industrial. O crescimento impulsionado pelo SUS foi capturado por outros estados, enquanto o Rio sofria com o esvaziamento de sua máquina pública e perda de competitividade logística.

Para que o CEIS impulsione uma nova era, é necessário enfrentar gargalos históricos. A desestruturação da administração direta e a ausência de incentivos fiscais coerentes são barreiras iniciais.

Somam-se a isso deficiências críticas na infraestrutura de energia e telecomunicações — essenciais para a Saúde digital — e a insegurança pública, que encarece a logística e afugenta investimentos.

Em suma, a superação da crise passa pela capacidade de transformar o SUS e o CEIS em indutores de desenvolvimento regional. Ao integrar tecnologia e pesquisa ao poder das compras públicas, o estado poderá gerar empregos de alta renda e dignidade.

O fortalecimento do Complexo da Saúde é o compromisso político de transformar a secular vocação científica do Rio em prosperidade e autonomia nacional.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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