No Brasil, a barbárie foi incorporada no cotidiano

A elite do atraso e o resultado de 300 anos de escravidão

Foto: Reprodução

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Bia Doria, primeira-dama de São Paulo, ganhou destaque por um vídeo no qual aconselhava os espectadores a não ajudar os sem-teto com comida ou roupas, pois eles “gostam” de viver nas ruas. “É um atrativo”, completou. Por mais chocante que seja a declaração, não deveria surpreender aqueles que conhecem o Brasil e a nossa elite.

Uma semana antes, uma idosa trabalhadora doméstica foi resgatada em situação de escravidão em Pinheiros, bairro no Centro Expandido da capital paulista. Trabalhava há 20 anos e estava sem acesso a banheiro. A família tinha fugido da casa de madrugada e largou a senhora lá.

Há poucos dias, um casal carioca sem máscara no espaço público enfrentou um fiscal que os abordou e alertou educadamente como “cidadãos”. “Cidadão, não!”, foi a resposta, “engenheiro civil formado. Melhor do que você.” A cara da elite do atraso, como bem definiu o sociólogo Jessé Sousa. Neste caso, pela repercussão ampla, a autora da frase perdeu o emprego e descobrimos que o “engenheiro civil” recebeu até auxilio emergencial de 600 reais.

Como esse tipo de frase surge na boca dos privilegiados do País? O que isso tem a ver com a memória e formação histórica brasileiras? Como alguém pode achar razoável negar comida a quem passa fome debaixo de um viaduto? Ou que, por ter um diploma, está acima da lei e pode humilhar o outro?

É impossível entender esse fenômeno sem recorrer à grande ferida aberta: a escravidão. Ao contrário do que muitos querem fazer parecer, ela não aconteceu milênios atrás por um curto período de tempo. Não foi uma passagem superada da nossa história. A escravidão durou mais de 300 anos no Brasil. No total, ao menos 5 milhões de africanos foram sequestrados e trazidos para cá para ser escravizados. E só foi abolida oficialmente há 130 anos. Isso significa que o Brasil tem mais que o dobro de tempo histórico com escravidão legalizada do que sem. Imagine que o Brasil fosse alguém que viveu 100 anos: seriam 70 na senzala e 30 em liberdade.

Uma sociedade que passa três séculos a conviver dia e noite com gente algemada, chicoteada, famílias dizimadas e todos os tipos de abusos que se possa imaginar foi também ensinada a naturalizar isso. No Brasil, a barbárie foi incorporada no cotidiano. E a sociedade condicionada a passar e simplesmente não olhar. E, se olhar, não perceber. E, se perceber, aceitar que não adianta se rebelar. Um sem-teto? Um faminto? Uma criança negra assassinada pela polícia na porta de casa? “Sempre foi assim e sempre será”, diz a voz opressora que permeia as relações sociais.

A sociedade que surgiu da escravidão criou uma divisão estanque entre dois tipos de gente: os humanos e os não humanos. Quem merece ser tratado como gente, como cidadão, e quem não merece. Os cidadãos e os subcidadãos. A casa-grande e a senzala.

Essa herança está em qualquer lugar que você for. E é a grande marca das nossas cidades. A cidade é dividida, muitas vezes, como em São Paulo, por uma ponte. Quem mora fora do Centro só cruza a ponte para trabalhar. Tem o quarto de empregada, a roupa de empregada, o elevador de serviço. São Paulo, aliás, é um símbolo dessa segregação.

Quem não se lembra da polêmica sobre a estação de metrô em Higienópolis? Ia facilitar a vida de milhares que trabalham diariamente na região e gastam horas para chegar ao serviço. Os moradores do bairro protestaram. A justificativa foi verbalizada por uma moradora: o problema era a “gente diferenciada” que ia chegar no bairro. Gente diferenciada, leia-se, é gente que é menos gente que os moradores do pedaço. São pobres e negros que moram do outro lado da ponte.

Higienópolis, aliás, faz jus à sua origem. O bairro surgiu no início do século XX como reação da elite paulistana às epidemias de febre amarela e varíola. Criaram uma região “higienizada”, sem cortiços, sem circulação popular, verdadeira barreira social em nome da “saúde pública”. São Paulo é o laboratório da segregação urbanística. Foi aqui também que surgiram a rampa antimendigo – de concreto ou pedras pontiagudas para impedir moradores de rua em locais “indesejados” – e a lixeira anticatador – trancadas com cadeados para evitar a circulação de trabalhadores da reciclagem com suas carroças.

Bia Doria não quer ver a miséria que reina na cidade que seu marido abandonou como prefeito. Lamentavelmente, ela não é um caso isolado. Expressa a consciência social da elite de um país com uma abolição inacabada, uma democratização incompleta, enfim, que não acertou as contas com o passado, que não fez reparação histórica. Não por acaso, sua vizinha, no bairro ao lado, fugiu no meio da noite e deixou uma idosa sem acesso ao banheiro depois de 20 anos sem salário. E o casal carioca deu a carteirada num fiscal por ter diploma de nível superior. São três cenas que nada têm de aleatórias: resumem 520 anos da história de um país. Até quando?

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Coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Foi candidato à Presidência da República em 2018, pelo PSOL.

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