Na briga entre Bolsonaro e o mercado, perde o Brasil

Não há mocinhos na história

Fotos: Evaristo Sá/AFP e Tânia Rêgo/Agência Brasil

Fotos: Evaristo Sá/AFP e Tânia Rêgo/Agência Brasil

Artigo

Dado o histórico de dois anos de governo, a tendência de qualquer brasileiro minimamente informado é considerar que a troca de comando na Petrobras é mais uma decisão desastrosa de Jair Bolsonaro. Sem poder salvar da fogueira o aliado Daniel Silveira, preso por ameaçar o Supremo Tribunal Federal e defender a ditadura, o ex-capitão resolveu cantar em outro galinheiro. Sobrou para a estatal.

Insatisfeito com a política de preços (a gasolina ficou 30% mais cara neste ano) e ameaçado por uma greve dos caminhoneiros, Bolsonaro anunciou na noite da sexta-feira 19 a substituição de Roberto Castello Branco, financista indicado por Paulo Guedes, pelo general Joaquim Silva e Luna, que presidia Itaipu. O cacoete de recorrer a um militar sempre que a corda aperta reforçam a desconfiança geral. Pior: como de costume, a escolha recaiu sobre um oficial sem experiência no ramo.

 

 

O mercado aproveitou para gritar “intervencionismo”. No Twitter, Gustavo Franco, ex-diretor do Banco Central, saiu da catacumba para lançar uma não tão enigmática advertência: “Boa tarde, Venezuela”. Durante o dia, nervosos com a ameaça de demissão de Castello Branco, os investidores puniram as ações da Petrobras. Os papéis negociados na Bolsa de Nova York caíram 9%. Os próximos dias tendem a ser piores.

Dará, no entanto, com os burros n’água quem tentar identificar o mocinho desse duelo. Desde a queda de Dilma Rousseff e a ocupação de Michel Temer do Palácio do Planalto, a Petrobras adotou uma política de reajustes automáticos dos preços dos combustíveis, ancorada à flutuação da cotação do barril de petróleo e do dólar, que atende a interesses minoritários. A ortodoxia econômica celebrou a medida: livre da ingerência estatal, a empresa adotaria as “melhores práticas”, recomporia o caixa e sairia mais forte do processo.

Embora não seja prudente represar preços a ponto de afetar o fluxo de caixa de uma empresa e sua capacidade de investimento, o reajuste automático é bom para os acionistas e péssimo para o resto da economia. Em um mundo dependente dos combustíveis fósseis, o valor da gasolina e do diesel influencia praticamente toda a cadeia produtiva. Quando sobe demais – e se varia de forma brusca -, onera a produção, reduz a renda dos trabalhadores e afeta a eficiência da economia. Por essa razão, a maioria das nações não permite a livre flutuação. Os modelos são diferentes, mas, em geral, os governos modulam os reajustes para impedir choques de preços intensos. Os Estados Unidos são uma exceção, mas, lá, a enorme quantidade de refinarias, mais de 150, possibilita uma competição real entre os fornecedores. Dar previsibilidade aos reajustes, um conceito adorado pelos analistas do mercado, não significa comprometer o futuro da petroleira – talvez só reduza o ganho imediato dos acionistas.

A passagem de Pedro Parente pela presidência da Petrobras, durante o governo Temer, deve ter servido de alerta a Bolsonaro. Temer era refém do mercado e Parente foi colocado na estatal como um tributo pelo apoio do sistema financeiro ao impeachment de Dilma. O executivo implantou a política de reajustes automáticos e foi louvado pela “turma da bufunfa”, para usar uma expressão do gosto do economista Paulo Nogueira Batista Jr… Quem investiu nas ações da companhia não teve do que reclamar, mas o Brasil foi empurrado de volta à crise que penava para superar. Em maio de 2018, insatisfeitos com a constante alta do preço do diesel na bomba, os caminhoneiros iniciaram uma greve que paralisou o País. Houve desabastecimento e desorganização da cadeia produtiva. Segundo cálculos do Ministério da Fazenda à época, o locaute tirou 1,2 ponto percentual do Produto Interno Bruto. Naquele ano, crescemos míseros 1,8%. Quem perdeu? Adivinhe.

A insatisfação provocada pelos protestos dos caminheiros gerou ainda um efeito colateral nada desprezível: encorpou o sentimento geral de desesperança que levaria Bolsonaro à Presidência.

 

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É diretor-executivo de CartaCapital.

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