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Mudanças no comando da PM de SP testam limites de uma política baseada na violência

Desde o início da gestão de Tarcísio de Freitas, a Polícia Militar passou por uma reconfiguração significativa em sua estrutura de comando

Mudanças no comando da PM de SP testam limites de uma política baseada na violência
Mudanças no comando da PM de SP testam limites de uma política baseada na violência
Polícia Militar de São Paulo (PM-SP). Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
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A recente nomeação da coronel Glauce como comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo e do coronel Kitswua como subcomandante representa um marco institucional relevante. Pela primeira vez, uma mulher assume o posto máximo da corporação, ao mesmo tempo em que se eleva ao comando um oficial com trajetória ligada à saúde mental dos policiais.

O gesto, no entanto, precisa ser analisado à luz da política de segurança pública conduzida pelo governador Tarcísio de Freitas e pelo agora ex-secretário Guilherme Derrite.

Desde o início da atual gestão, a Polícia Militar passou por uma reconfiguração significativa em sua estrutura de comando. A movimentação de dezenas de coronéis, embora formalmente administrativa, foi interpretada dentro da corporação como um processo de alinhamento político, vez que quem foi movimentado defendia uma PM mais institucionalizada, era favorável às câmeras corporais no modelo com gravação permanente e, portanto, era mais PM, menos governo.

Os efeitos dessas mudanças insistem em aparecer nos indicadores. São Paulo registra aumento consistente da letalidade policial, acompanhado de episódios que levantam questionamentos sobre o uso proporcional da força e os mecanismos de controle institucional.

Não podemos esquecer das operações na Baixada com 84 mortos, entre eles pessoas em situação de rua, deficiente físico, deficiente visual, mães e até uma criança de 4 anos, o pequeno Ryan, morto com um tiro de fuzil. As comunidades criminalizadas tentam existir diante os índices de 280% de mortalidade policial na região.

Os casos não isolados se acumulam. Impossível não lembrar que, sob o atual governo, um policial agrediu uma senhora de 80 anos com um soco na cara; um agente da PM jogou um trabalhador de uma ponte; um estudante de medicina foi morto covardemente por dois policiais na Vila Mariana, bairro de classe média paulistano; policiais civis e militares foram presos por participarem da morte de um delator do PCC no aeroporto de Guarulhos.

Ao mesmo tempo, há sinais de desgaste interno. Crescem os relatos de adoecimento mental na tropa, e há aumento nos índices de suicídio entre os policiais. As mortes em serviço também voltam a assombrar unidades da Polícia consideradas de elite, caso da Rota, que registrava óbitos há mais de 20 anos.

A promessa de valorização das forças de segurança também não se concretizou. Persistem desigualdades internas e dificuldades estruturais. Na Polícia Militar, apenas oficiais são valorizados, enquanto os praças, que são a ponta de lança da corporação, seguem desvalorizados e submetidos a humilhações constantes de seus superiores, além de pressionados por resultados, culminando com o recorde histórico de pedidos de baixa: 917 em 2025.

Especialmente na Polícia Civil, as marcas do abandono da atual gestão são gritantes: delegacias sucateadas e sem pessoal, viaturas velhas ou acabadas em pátios, além de delegacias da mulher que permanecem fechadas diante um grave contexto de feminicídios e violências. A proteção às mulheres, vale dizer, foi dada como prioridade por Tarcísio durante sua campanha.

Diante o contexto, as novas nomeações podem representar uma tentativa de ajuste de rumo — sobretudo ao incorporar o tema da saúde mental ao núcleo de comando. Ainda assim, a efetividade dessas mudanças dependerá menos dos nomes escolhidos e mais de eventuais alterações na estratégia de segurança pública e da postura de quem dirige o estado, que precisa dar um sinal claro de que a pretensão nesse momento é fazer outra política, não a que vigorou até agora.

O ponto central permanece em aberto: se haverá revisão de uma política marcada pela narrativa do confronto, ou se as mudanças se limitarão ao plano simbólico. Resta a nós, cidadãos que acreditam não só na Segurança Pública, mas nos Direitos Humanos, que não são coisas antagônicas, observar atentamente.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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