Artigos

Guerra de espectro total: a genealogia do segundo lawfare contra um governo de centro-esquerda no Brasil

A extrema-direita brasileira, que denuncia o ‘globalismo’ como ameaça à soberania, trabalha ativamente para submeter a eleição brasileira à jurisdição penal de outro país

Guerra de espectro total: a genealogia do segundo lawfare contra um governo de centro-esquerda no Brasil
Guerra de espectro total: a genealogia do segundo lawfare contra um governo de centro-esquerda no Brasil
O presidente Lula (PT). (Foto: Evaristo Sa/AFP)
Apoie Siga-nos no
Eleições 2026

Algumas cenas de julho revelam um quadro maior. O secretário de Estado Marco Rubio reuniu delegações de 65 países em Washington para uma reunião sobre o “Ressurgimento do Terrorismo Político”. Flávio Bolsonaro convidou delegações estrangeiras para sugerir que as urnas eletrônicas no Brasil são fraudadas diante de uma suposta influência venezuelana. O jornal Washington Post noticiou, em 24 de julho, que dois oficiais sêniores do governo dos EUA virão ao Brasil para examinar as dúvidas sobre o sistema eleitoral brasileiro.

Como revelou Maria Cristina Fernandes no Valor Econômico, grande parte dessa falação tem como fonte oculta Hugo Carvajal, ex-chefe da inteligência militar venezuelana.

Em 17 de outubro de 2025, Hugo Carvajal, ex-chefe da inteligência militar venezuelana – que se declarara culpado de narcoterrorismo em junho –, aceitou colaborar com a Justiça americana. O ecossistema bolsonarista reagiu em tempo real: Eduardo Bolsonaro fez transmissão ao vivo apostando que uma delação do general “coloca tudo a perder” para Lula, e Alexandre Ramagem afirmou que o caso expunha a rede de narcoterrorismo que sustentaria a esquerda latino-americana.

O dinheiro do narcotráfico teria irrigado, via PDVSA, “chapas alinhadas ao Foro de São Paulo”. Essa acusação recicla uma carta escrita por Carvajal em 2021, quando tentava evitar a extradição da Espanha, alegando que o narcotráfico venezuelano financiara o Podemos espanhol e candidatos de esquerda sul-americanos – alegações que a Justiça espanhola rejeitou em 2022 como narrativas de terceiros, desprovidas de prova.

Seis dias depois de Carvajal virar colaborador, Flávio Bolsonaro compartilhou o vídeo de um ataque americano a uma embarcação atribuída ao narcotráfico e convidou publicamente os Estados Unidos a “combater essas organizações terroristas” na Baía de Guanabara. Cinco dias depois, ocorreu a chacina do Rio. O vocabulário já estava pronto para recebê-la.

Em 26 de maio de 2026, Flávio Bolsonaro – agora candidato – reuniu-se com Trump na Casa Branca para pedir que o governo americano declarasse o PCC e o Comando Vermelho organizações terroristas estrangeiras, e afirmou ter levado suas pautas “pessoalmente” também a Marco Rubio, com retornos agendados a Washington.

Em junho, num evento da CNI, declarou que o governo Lula “parece parceiro de grupos narcoterroristas” e prometeu classificar as duas facções como organizações terroristas, “como foi feito pelo governo dos Estados Unidos”.

Em 1º de julho, a CIA, por determinação de seu diretor, John Ratcliffe, desclassificou um documento de inteligência sobre as supostas capacidades do regime venezuelano de manipular votação eletrônica entre 2004 e 2020.

No dia 16 de julho, Rubio convocou o ministerial das 65 delegações e elevou o “terrorismo de esquerda” a prioridade global de contraterrorismo – categoria que, segundo ele, foi por décadas o “ponto cego” da doutrina ocidental. Propôs tratá-la com compartilhamento de inteligência, cooperação policial e rastreamento de financiamento: a mesma arquitetura montada depois do 11 de Setembro contra o jihadismo, agora reorientada contra “comunistas e marxistas”. Isso a despeito de os estudos disponíveis mostrarem que, nos Estados Unidos, a violência política de extrema direita é historicamente mais frequente e mais letal que a de esquerda.

Em 20 de julho, a coordenadora jurídica da campanha de Flávio Bolsonaro, Maria Claudia Bucchianeri, ex-ministra do TSE, protocolou representação alegando a existência de uma “organização criminosa digital”, constituída por perfis fantasmas que contratariam impulsionamentos irregulares contra o candidato e, segundo ela chegou a mencionar, a favor da reeleição de Lula. Um detalhe da peça merece atenção: parte dos anúncios teria sido paga em moeda estrangeira, inclusive em peso colombiano.

Já no dia 21, Flávio levou a suspeição das urnas a um encontro com diplomatas de 42 países em Brasília. Citou os documentos da CIA sobre vulnerabilidades em sistemas de votação na Venezuela e afirmou que urnas da Smartmatic também teriam sido usadas no Brasil. O TSE desmentiu categoricamente as suspeitas, e o senador divulgou nota dizendo que não estava questionando a integridade do sistema eleitoral brasileiro – o dizer e desdizer que era também o método do pai.

Na noite de 24 de julho, o Washington Post revelou que o governo Trump enviará dois altos funcionários do Departamento de Estado a Brasília – Riley M. Barnes, secretário-assistente, e Samuel Samson, secretário-adjunto assistente – com a missão de levantar dúvidas sobre a imparcialidade e a integridade do sistema eleitoral brasileiro antes do pleito de 4 de outubro. Segundo as quatro autoridades americanas e brasileiras ouvidas pelo jornal, os emissários deverão se reunir com críticos das urnas eletrônicas e elaborar um relatório destinado a pôr em dúvida a credibilidade do processo. O Departamento de Estado confirmou a viagem, sem informar seus objetivos. O Itamaraty já recusou os vistos.

Em resumo, a premissa maior é fabricada em Washington e é sempre sobre a Venezuela: Carvajal é narcoterrorista confesso; o regime venezuelano manipularia urnas eletrônicas. A premissa menor é fabricada em Brasília e não consta de documento algum: o Brasil estaria dentro dessa história – pelo Foro de São Paulo, pela Smartmatic, pelo peso colombiano.

Via comercial

Em paralelo, correu a guerra comercial – a frente que completa o espectro. Em julho de 2025, Trump impôs tarifa de 50% aos produtos brasileiros por carta que citava expressamente o julgamento de Bolsonaro – “uma caça às bruxas que deve acabar IMEDIATAMENTE”, escreveu –, numa sanção comercial declaradamente aplicada como punição por um ato judicial. No mesmo mês, Alexandre de Moraes foi sancionado pela Lei Magnitsky, e o USTR – o Escritório do Representante de Comércio, agência do Executivo americano vinculada diretamente à Casa Branca – abriu a investigação da Seção 301 contra o Pix e o comércio digital brasileiro. Derrubadas pela Suprema Corte americana, em fevereiro de 2026, as tarifas baseadas na legislação de emergência, a ofensiva mudou de base legal: em 15 de julho, concluída a investigação, o USTR anunciou tarifa adicional de 25%, com o Pix como alvo central, em vigor desde o dia 22; no dia 24, veio nova sobretaxa de 12,5%, fruto de outra investigação do USTR, elevando a taxação de parte das exportações brasileiras a 37,5%. A punição comercial acompanhou, semana a semana, o calendário da ofensiva eleitoral.

E a veia comercial também corre pela família. Eduardo Bolsonaro, que se mudou para os Estados Unidos para articular a pressão, admitiu em julho de 2025 que a tarifa foi discutida com o governo americano – a preferência do grupo, disse, era por sanções direcionadas a indivíduos –, chamava a medida de “Tarifa-Moraes” e reivindicou publicamente participação na articulação; em junho de 2026, foi condenado pelo STF precisamente por buscar a interferência estrangeira no processo do pai. Flávio assumiu o bastão na rodada seguinte: a proposta da tarifa de 25% veio a público dias depois de sua visita à Casa Branca, e em 7 de julho o senador participou como expositor da audiência pública do próprio USTR, enviando carta em que pedia o adiamento da decisão – não o seu cancelamento – para depois das eleições, sob o argumento de que a tarifa beneficiaria politicamente o governo. Às vésperas do anúncio, de volta de Washington, o candidato antecipou em transmissão: “A tarifa vai chegar para o Brasil”.

Uma guerra de espectro total

O que está acontecendo com o Brasil tem nome na literatura estratégica. Dominação de Espectro Total é a doutrina que o Pentágono formalizou no documento Joint Vision 2020, lançado em maio de 2000: ser “persuasivo na paz, decisivo na guerra, proeminente em qualquer forma de conflito” – o domínio simultâneo, como resume Andrew Korybko a partir do trabalho de F. William Engdahl, das esferas militar, nuclear, normativa, geopolítica, espacial e comunicacional. Numa palavra: tudo o que pode ser transformado em arma.

Três conceitos se encaixam em camadas. A dominação de espectro total é o fim: prevalecer em todos os domínios. A guerra híbrida é o modo: o método indireto, barato e negável de desestabilizar um governo por intermediários. O lawfare é o meio: a arma jurídica concreta, com sua geografia, seu armamento e suas externalidades.

E há uma particularidade brasileira, que o antropólogo Piero Leirner intuiu ao intitular seu livro de 2020 O Brasil no Espectro de uma Guerra Híbrida: o país já passou por isso uma vez, no ciclo que vai de 2013 à eleição de 2018, com o primeiro lawfare entre os instrumentos. A diferença, agora, é de método: contra uma democracia em tese aliada, que não se pode bombardear nem golpear abertamente, todas as bandas do espectro falam a língua do direito. Designação de terrorista, representação eleitoral, procedimentos de tarifas, tudo tem forma jurídica. O lawfare deixa de ser uma das armas do espectro para se tornar a gramática comum de todo o espectro.

Lawfare

Lawfare, na definição de Cristiano Zanin, Valeska Zanin e Rafael Valim, é “o uso estratégico do Direito para fins de deslegitimar, prejudicar ou aniquilar um inimigo”. O lawfare, ensinam, opera em três dimensões estratégicas: a geografia (a escolha do campo de batalha, isto é, do órgão julgador), o armamento (a norma jurídica escolhida para vulnerar o inimigo) e as externalidades (a guerra da narrativa que envolve o processo na mídia e na opinião pública).

O primeiro lawfare, cujo símbolo é a condenação que tirou Lula da eleição de 2018, operou as três dimensões em chave nacional. O álibi era a corrupção; o armamento, a lei anticorrupção; a geografia, a 13ª Vara de Curitiba; e os vazamentos seletivos à imprensa e uma imensa operação de comunicação. Os instrumentos eram nacionais – um juiz, uma força-tarefa, a delação premiada –, ainda que houvesse, ao fundo, cooperação técnica com o Departamento de Justiça americano.

O segundo lawfare mantém a estrutura e altera cada conteúdo.

O armamento é multiplicado: o novo lawfare corre por três veias simultâneas, cada uma com seu ramo do direito, seu órgão e sua função: a criminal, a eleitoral e a comercial.

No lawfare criminal, o álibi já não é a corrupção, e sim o narcoterrorismo, associado a fraudes eleitorais imaginárias. Designações de organizações terroristas, o crime de “material support”, a prisão de Maduro em Nova York, Carvajal convertido em colaborador. Os órgãos de investigação e processo são o Departamento de Justiça e as cortes norte-americanas; a função é construir o inimigo, dando-lhe tipo penal.

A geografia se desloca: o tribunal favorável já não é uma vara de Curitiba, e sim a jurisdição americana – que, como mostram os próprios autores a propósito do FCPA (a lei anticorrupção dos Estados Unidos), se estende ao mundo inteiro: basta qualquer elo com o país, até uma transação em dólar, para que suas autoridades se declarem competentes sobre fatos ocorridos em outros países.

A veia eleitoral é a das urnas e das petições: a fantasiosa influência da Venezuela nas eleições dos EUA e do Brasil, a representação da “organização criminosa digital”, a suspeição da Smartmatic, o relatório que os emissários vêm preparar, a semente da impugnação por financiamento ilícito. O órgão julgador é o próprio TSE – mas sob fiscalização norte-americana; a função não é a condenação nacional, e sim deslegitimar a disputa antes que ela ocorra.

A veia comercial, o álibi é um inexistente déficit comercial dos EUA contra o Brasil, o Pix e o trabalho forçado. O órgão é o USTR e o próprio Executivo americano; o alvo, o país e sua economia; a função, cobrar o preço – punir o Judiciário, pressionar o governo e condicionar o humor do eleitorado no ano da eleição.

Guerra híbrida

Guerra híbrida, na teoria de Andrew Korybko, é o método indireto americano de troca de regime, formulado a partir das crises da Síria e da Ucrânia. O atrativo do modelo é ser barato e de autoria negável: grupos intermediários fazem por Washington o que meio milhão de soldados não conseguiria fazer diretamente, sem os custos políticos da intervenção aberta.

E o Brasil de Lula é seu alvo clássico. Um Estado orientado à multipolaridade, ativo nos BRICS, que flerta com a desdolarização, já era tratado como rival estratégico pelos EUA de Obama, que gramparam a presidenta Dilma e a Petrobras em plena disputa do pré-sal; imagine-se pelos EUA de Trump, que taxaram o país em retaliação explícita a um julgamento, sancionaram um ministro do Supremo e bombardeiam embarcações no mar do Caribe. Aqui, o grupo que atua por procuração não são guerrilheiros nem forças irregulares, mas a extrema-direita institucional – um partido, uma campanha, um senador em ponte aérea com Washington.

A sequência de Korybko prevê dois pilares: a revolução colorida (o golpe brando) e, se ela fracassa, a guerra não convencional (o golpe rígido). No Brasil, ambos já foram tentados – e ambos fracassaram. O golpe brando foi a contestação das urnas e os acampamentos diante dos quartéis em 2022; o golpe rígido foi o 8 de janeiro e a trama de ruptura pela qual Bolsonaro cumpre 27 anos.

O que se ensaia agora é um terceiro pilar, jurídico – criminal, eleitoral e comercial –, acionado quando os dois primeiros falham. É o lawfare como terceiro pilar da guerra híbrida.

O espelho: eles devolvem o vocabulário que os condenou

Como argumentamos eu, Letícia Cesarino e Isabela Kalil, em livro que está no prelo, a extrema direita contemporânea é uma grande devedora de seus adversários – não nos objetivos, mas nos métodos e nas linguagens. É o que Naomi Klein chamou de doppelgänger: o mundo-espelho que capta as linguagens do adversário e as devolve invertidas.

“Organização criminosa digital”, a categoria da representação protocolada no TSE, é o reflexo invertido, quase palavra por palavra, das que condenaram o bolsonarismo: a “milícia digital” do inquérito das fake news, a “organização criminosa armada” da sentença da trama golpista. Pegam o vocabulário que os condenou e o refletem de volta contra Lula. A operação tem dupla vantagem: reivindica para si o estatuto de vítima (invertendo a denúncia de lawfare, que era da esquerda) e planta, nos autos, a semente de uma futura impugnação – se a campanha do adversário é “financiada por organização criminosa”, há matéria para cassação.

O peso colombiano – mencionado pela coordenadora jurídica da campanha, Maria Claudia Bucchianeri, na representação ao TSE – é pilar fundamental. No plano interno, sugere financiamento estrangeiro irregular de campanha – matéria de Justiça Eleitoral. No plano externo, insinua a conexão narco (Colômbia, FARC, Petro, Maduro) que permite acionar o enquadramento americano: campanha financiada por narcoterrorismo é campanha passível de sanção, designação, jurisdição extraterritorial. Uma mesma moeda circulando entre o TSE e o Departamento de Estado. Carvajal é fundamental nesse contexto: um condenado por narcoterrorismo nos Estados Unidos, convertido em colaborador, é a fábrica de “provas” ideal para alimentar simultaneamente os dois circuitos.

O que está em jogo

O objetivo tem endereço e data: fazer com Lula em 2026 o que se fez com Lula em 2018 – derrotá-lo ou, se não for possível, deslegitimá-lo e retirá-lo –, mas por todas as vias ao mesmo tempo. Não há uma frente decisiva porque a doutrina não prevê frentes: prevê o espectro. E, se a via eleitoral falhar, a moldura antiterror segue disponível para o dia seguinte: ela justifica sanções contra ministros do Supremo, pressão econômica, e até – como já se pediu abertamente – ação militar americana em território brasileiro.

Convém não subestimar o que está em jogo. O direito antiterror é, por construção, o ramo jurídico mais refratário a garantias que o Ocidente produziu: foi desenhado para inimigos absolutos, não para adversários políticos. Transferi-lo para a disputa partidária significa abolir, na prática, a distinção entre oposição e crime – que é a distinção constitutiva da democracia. A extrema-direita brasileira, que denuncia o “globalismo” como ameaça à soberania, trabalha ativamente para submeter a eleição brasileira à jurisdição penal de outro país. O internacionalismo dos nacionalistas resolve-se, mais uma vez, em subalternidade – agora com força de lei.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo