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Flávio-Vorcaro-Eduardo: o ecossistema transnacional do bolsonarismo no exílio
O caso ‘Dark Horse’ talvez não seja apenas sobre um filme. Talvez seja um raro vislumbre da engenharia política do pós-derrota bolsonarista
No século XXI, líderes populistas, movimentos iliberais e redes extremistas aprenderam algo essencial: o poder já não depende exclusivamente do Estado. Ele depende da capacidade de construir uma infraestrutura paralela, financeira, cultural, jurídica, digital e transnacional.
É sob esta lente que deve ser analisado o recente conjunto de revelações envolvendo Eduardo Bolsonaro, o filme Dark Horse, contratos tornados públicos pelo Intercept Brasil, estruturas societárias nos Estados Unidos e a crescente reorganização do bolsonarismo fora do território político brasileiro.
O caso talvez não seja, em essência, sobre um filme. O filme é apenas a superfície visível.
Segundo reportagem recente do Intercept, depois de indicar os contatos entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro, mais recentemente, contratos relacionados à produção de Dark Horse indicariam um papel mais substantivo de Eduardo Bolsonaro do que o previamente apresentado publicamente, incluindo atribuições de produtor-executivo e influência sobre decisões financeiras do projeto. Politicamente, o episódio sugere a existência de uma engrenagem de sustentação internacional do bolsonarismo.
Nos últimos anos, a literatura contemporânea sobre corrupção transnacional, lavagem de dinheiro e novas arquiteturas globais de influência política passou a demonstrar algo profundamente desconfortável: democracias podem ser fragilizadas por redes privadas de dinheiro e opacidade que atravessam fronteiras jurídicas.
Em Moneyland, o jornalista e pesquisador Oliver Bullough descreve a emergência de uma elite política global que aprende a mover recursos, influência e patrimônio entre jurisdições de baixa transparência, trusts, holdings e empresas de responsabilidade limitada, criando espaços híbridos onde accountability democrática se torna progressivamente mais difícil.
É precisamente aqui que o caso brasileiro se torna politicamente relevante. O bolsonarismo, embora eleitoralmente enfraquecido, não desapareceu. Ele parece estar passando por um processo de reorganização internacional, particularmente nos Estados Unidos e, de forma notável, na Flórida. A região tornou-se não apenas um polo de afinidade ideológica com setores trumpistas, mas também um espaço institucionalmente conveniente: facilidade de abertura de empresas, mecanismos fiduciários robustos, estruturas societárias de baixa visibilidade pública e redes privadas de apoio político.
Segundo reportagens recentes, a Polícia Federal passou a considerar a hipótese de que recursos associados a Vorcaro possam ter financiado despesas de Eduardo Bolsonaro nos EUA, embora isso permaneça sob investigação e não constitua conclusão definitiva.
O ponto central: sob a lógica americana de AML (Anti-Money Laundering), esse tipo de arquitetura reúne várias bandeiras vermelhas clássicas: pessoas politicamente expostas estrangeiras (PEPs); movimentação transnacional; intermediários privados; empresas recém-criadas ou de operação pouco evidente; possível mistura entre atividade política (eleitoral), cultural e comercial; uso potencial de trusts/holdings; alteração ou remoção de registros após exposição pública e fluxo financeiro com racionalidade econômica pouco evidente.
Nenhum desses elementos, isoladamente, prova crime. Mas o conjunto importa. No combate à lavagem de dinheiro, o padrão de risco frequentemente vale mais do que um único evento. Se os Estados Unidos levam realmente a sério seu discurso global contra lavagem de dinheiro e corrupção transnacional, o escrutínio regulatório deveria ser igual quando os atores envolvidos pertencem a redes políticas ideologicamente alinhadas à extrema direita? Ou existe aplicação seletiva dos mecanismos regulatórios?
Em American Kleptocracy, Casey Michel argumenta que os próprios Estados Unidos se transformaram, nas últimas décadas, em um dos ambientes mais favoráveis do mundo para acomodar capitais politicamente sensíveis por meio de empresas opacas, trusts e estruturas fiduciárias difíceis de rastrear. O problema não seria apenas externo; seria sistêmico. A pergunta é: qual o nível de transparência exigido quando tais instrumentos passam a coexistir com projetos políticos personalistas e movimentos com histórico de contestação institucional?
Em Kleptopia, Tom Burgis demonstra como a nova geografia do poder frequentemente mistura negócios privados, influência política, reputação internacional e proteção jurídica em ecossistemas cuja natureza real permanece deliberadamente difusa. O dinheiro, sugere Burgis, raramente viaja sozinho; ele costuma carregar influência consigo. O Brasil talvez esteja diante de uma versão própria deste fenômeno.
Não necessariamente uma conspiração. Mas possivelmente uma infraestrutura. O mais interessante (e talvez mais preocupante) é que movimentos iliberais raramente entendem derrotas eleitorais como ponto final. O trumpismo não desapareceu após 2020; reorganizou-se financeiramente, midiaticamente e juridicamente. Viktor Orbán consolidou uma ecologia permanente de financiamento e influência cultural. Redes europeias nacionalistas construíram mecanismos paralelos de sobrevivência institucional. O exílio político contemporâneo parece não significar isolamento… Reengenharia?
No caso Bolsonaro, o elemento mais interessante (politicamente) é que isso ocorre justamente dentro do ecossistema da extrema direita transnacional entre Brasil e Estados Unidos, especialmente Flórida e Texas, que já funcionam como hubs políticos, migratórios e financeiros do bolsonarismo.
A Flórida, que com o governador DeSantis funcionou como laboratório do Trumpismo 2.0, parece ter se tornado também, para parcelas do bolsonarismo, algo mais do que um endereço. Talvez uma retaguarda. Talvez uma jurisdição conveniente para reconstruir influência, reputação e capacidade operacional. Porque Texas, Flórida, Delaware, Wyoming, Nevada e South Dakota aparecem frequentemente na literatura sobre AML (combate à lavagem de dinheiro) como jurisdições com: baixa transparência; proteção patrimonial forte; estruturas societárias flexíveis; menor escrutínio político do que Nova York/DC.
O bolsonarismo tardio, pós-presidência, talvez esteja menos dependente de financiamento partidário tradicional e mais inserido numa lógica transnacional de capital privado, propaganda audiovisual, redes empresariais e estruturas jurídicas estadunidenses, um modelo mais próximo da literatura sobre cleptocracia global do que do velho clientelismo latino-americano.
O caso Dark Horse talvez não seja apenas sobre um filme. Talvez seja um raro vislumbre da engenharia política do pós-derrota bolsonarista. E, se for esse o caso, o Brasil deveria começar a prestar mais atenção não apenas ao discurso… mas às estruturas.
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