Eu, psicoterapeuta de Bolsonaro…

De onde se origina essa aversão por homossexuais, pobres, negros, índios e tantos outros combalidos de nossa sociedade?

Jair Bolsonaro. Foto: Alan dos Santos/Presidência da República

Jair Bolsonaro. Foto: Alan dos Santos/Presidência da República

Artigo,Política

Atuo como psicoterapeuta há cerca de quarenta anos. Nesse período, atendi pessoas dos mais diferentes e inusitados segmentos sociais. Pessoas socialmente notórias, outras bastante simples, e mesmo políticos. Ao longo desses anos me deparei com o que existe de mais significativo na condição humana. Dia desses me vi divagando como seria ser psicoterapeuta do capitão Bolsonaro. Imaginei que dramas pessoais atingem sua alma para ter tanto ódio das minorias desvalidas. De onde se origina essa aversão por homossexuais, pobres, negros, índios e tantos outros combalidos de nossa sociedade.

 

 

As turbulências que afligem a totalidade de sua alma para, em plena cerimônia religiosa, a Marcha de Jesus, exibir as mãos em atitude juvenil como se fossem armas atingindo alguém quedado ao chão. As mãos em forma de armas e o sorriso mais franco e prazeroso a ostentar o poder inquestionável de destruição. E ainda a saga de destruição das florestas e de parte significativa do meio ambiente. Destruição a crivar seus caminhos de modo inquebrantável.

E que tanto rancor existe em seu coração para fazer de aliados políticos inimigos desprezíveis quando ousam questionar suas posições? Seu comportamento persecutório em acreditar que todos querem desestabilizar sua família e mesmo seu governo se situa além do alcance da compreensão dos estudiosos da alma humana. Ou ainda, em que momento de sua vida se efetivou sua posição misógina e absurdamente machista.

E mesmo sabendo que o capitão Bolsonaro foi expulso do Exército, e que isso é algo que macula a alma de modo indescritível, sua vingança contra o generalato atraído na armadilha dos cargos ministeriais e estatais de seu governo está sendo demasiadamente cruel. Ele os humilha em público de modo avassalador, e sequer consegue disfarçar o prazer que disso resulta.

Mesmo sendo notória a sua falta de condição cognitiva e intelectual, incapaz de articular corretamente o emprego do sujeito com o tempo verbal, e a exibição de ideias interessantes e de vanguarda, ainda assim o seu negacionismo aos avanços da ciência e de medicina em particular são incompreensíveis. Atribuir à devassidão provocada pela Covid 19 em todo o mundo o significado de uma simples gripezinha que não atingiria os brasileiros, e isso em momento em que o seu Ministério da Saúde contabilizava mais de cem mil mortes, é simplesmente inatingível para todos que se dispõem a tentar compreender os meandros do psiquismo humano. Aparelhou o Ministério da Saúde com militares das mais diversas patentes, e com a exclusão dos profissionais da saúde dos escalões secundários para tentar camuflar o verdadeiro estado de calamidade provocado pela pandemia da Covid 19.

Seria interessante vê-lo discorrer sobre tais fatos diante do psicoterapeuta. Sim, diante do psicoterapeuta, para aquele em que o acolhimento ao paciente faz com que esse relate e confie fatos que só nesse vínculo são possíveis. Algo que mais ninguém sabe, nem mesmo familiares mais próximos e íntimos. O enredo desse encadeamento de ódio e negacionismo deve ter nuances simplesmente indescritíveis para se entender o sofrimento psíquico que se abate sobre ele.

Como entender os olhos esbugalhados do capitão Bolsonaro crispando ódio diante de contrariedades, ou mesmo quando questionado sobre desmandos de sua ação governamental. Exibe um descontrole inadmissível, não apenas para um chefe de Estado que tem entre suas prerrogativas a liturgia do cargo, mas a toda e qualquer pessoa que minimamente tenha atividade pública. Sua verborragia carregada de palavrões e expressões chulas é algo simplesmente sem qualquer parâmetro de comparação mesmo em pessoas que não exibam cargos e situações sociais de prestígio. A incongruência entre as coisas que vocifera aos quatros cantos como estandarte de moralidade e probidade, e seu comportamento, então, é simplesmente dantesco. Desde a pregação da condição indissolúvel do casamento quando ele mesmo tem, inclusive, filhos de vários casamentos, até a pregação irascível contra a corrupção quando o seu próprio clã familiar está envolto em inúmeras acusações e ações da Justiça, tudo, absolutamente tudo é totalmente disforme do que apregoa como virtude de sua conduta.

E como seria o sofrimento psíquico a perturbar seu sono, descrito por ele mesmo como algo sofrível, e que faz com que durma pouco e acorde com os primeiros raios do dia. Seria interessante trabalhar o detalhamento de seu sofrimento e das coisas que estão a perturbar sua alma. Alma sofrida que manifesta apenas apreço pelo ódio, sem qualquer lugar para algo sensível como música, poesia, artes ou literatura. A perseguição contra as universidades públicas é algo inatingível por todos que defendem a pesquisa de qualidade como baluarte de soberania de um país. Alguém que, inclusive, se enaltece por não ter nenhum livro em sua casa.

Divago nesses pensamentos e me dou conta de que essas divagações são, de fato, verdadeiros delírios, afinal seu teor de sofrimento psíquico é algo que o faz resistente a qualquer forma de tratamento. Alguém cujo sofrimento está além do alcance da ajuda psicoterápica, pois seu negacionismo sequer concebe que suas atitudes e ideias delirantes estariam a necessitar de intervenção premente para seu soerguimento. Divagações, simples e meras divagações…

 

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É psicoterapeuta existencial. Lecionou em cursos de pós-graduação em Psicologia da Saúde na PUC de São Paulo e na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Autor com o maior número de livros publicados em psicologia no Brasil, adotados nas principais universidades da América Latina e Europa.

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