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‘Eso con Fidel no pasaba’: um relato de Cuba em abril de 2026

Volto com a convicção de que, se nem mesmo nós, no campo progressista, temos todas as respostas, tampouco as soluções do imperialismo podem ser verdadeiras

‘Eso con Fidel no pasaba’: um relato de Cuba em abril de 2026
‘Eso con Fidel no pasaba’: um relato de Cuba em abril de 2026
Pessoas passam por lixo abandonado numa rua em Havana, em 4 de fevereiro de 2026 — Foto: Yamil Lage / AFP
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É quase meia-noite em Havana, mas o tratado de silêncio internacional desta hora de uma segunda-feira é desafiado por uma sequência de boleros, salsas e canções cubanas. O som vem do quintal de uma casa em Vedado, bairro da capital cubana. É um coro alegre, talvez de uma família – que ignora, ao menos por algumas horas, o custo humano altíssimo que os moradores da ilha vêm pagando para se manter de pé.

O bloqueio econômico falha em dobrar o espírito, mas acerta em cheio no cotidiano, tornando o simples ato de existir um exercício de persistência. O embargo é e será, enquanto existir, a principal causa dos problemas cubanos. Mas Cuba é uma sociedade que se reinventa e busca maneiras de sobreviver por uma conexão subterrânea de solidariedade e comércio entre pessoas.

Em relação ao embargo, é perceptível um grande cansaço nas ruas. Envolve a realidade material que seus efeitos provocam, mas também a própria narrativa política da revolução. Durante décadas, para quem observava de fora, as tensões acumuladas pareciam amortecidas por um discurso de resistência e continuidade. O testemunho direto, porém, revela outra camada de impacto.

A pé no Malecón, de bicitáxi em bicitáxi, ou atravessando Havana em relíquias mecânicas anteriores a 1951, dediquei meus dias a ouvir. Dessas trocas e observações, fui montando um panorama sobre o que significa viver e resistir na ilha hoje.

Uma fila em um posto de gasolina em Matanzas, Cuba, em 7 de janeiro de 2026. Foto: Norlys Pérez/REUTERS

Desde a crítica feroz dos trabalhadores que operam nas tarefas mais extenuantes – e que, na falta de turistas, nada arrecadam – até a defesa consciente da Revolução por parte daqueles que, mesmo em meio à crise, conseguem viabilizar seus complementos de renda.

Aqueles que tiveram contato com outras formas de Estado possuem críticas muito justas e fundamentadas. No entanto, ou justamente por isso, sabem a importância de não abrir mão das conquistas e das políticas públicas que o governo, apesar do embargo, ainda pode oferecer.

Há um senso comum que circula pelas ruas quase sem ser notado, mas que preenche todos os vazios. Em uma tenda no Mercado de San José, na Havana Velha, um feirante que nos vendia souvenirs se espantou ao ouvir que eu e minha companheira pagávamos o equivalente a 400 dólares apenas pelo direito a um teto no Brasil. O custo de vida e a desassistência social nas democracias liberais raramente entram na conta que circula nas telas dos celulares que hoje povoam a ilha. Ali, constrói-se um imaginário alimentado, em parte, desde a visita de Barack Obama, em 2016

Essa ânsia pelo consumo que se observa nas ruas não deve ser confundida com mera futilidade; ela é a face visível de um desejo por qualidade de vida. Para um povo submetido a um cerco que asfixia o cotidiano, um objeto de consumo torna-se um símbolo de normalidade e alívio. É nesse vácuo de necessidades não sanadas que o ‘sonho americano’ opera sua sedução mais eficaz, oferecendo cores e facilidades a quem há muito só conhece a logística da escassez.

São as contradições de uma Cuba pós-Fidel.

Mesmo com a crise severa de combustíveis, caminhonetes modernas – e, para não ser desonesto, ao menos um carro esportivo de luxo que circula na ilha – dividem espaço com a realidade dura da escassez e carestia de combustível para o trabalho turístico, por exemplo. São veículos de donos de pequenos negócios, mercados, restaurantes e sorveterias, muitas vezes estrangeiros, mas que mostram que já existe, ainda que extraoficialmente, uma divisão de classes na ilha. O impacto da crise de combustíveis, além de prático, é psicológico.

Mulher acompanha neta até a escola, enquanto o governo adota medidas para economizar combustível. Foto: Norlys Pérez/REUTERS

Ouvir que ter corriente (energia elétrica) é, por vezes, mais angustiante do que não ter resume a saúde mental na ilha: é a tortura da expectativa. Cuba depende de termelétricas que queimam petróleo bruto para gerar energia, e a escassez de combustível torna o apagão uma ameaça constante que desorganiza a vida pessoal, embora nunca a segurança. A ilha permanece um local extremamente seguro, livre de drogas e da violência cotidiana; a angústia não vem das ruas, mas da incerteza do fluxo.

Ainda assim, Fidel permanece como um fiel da balança. Não soa estranho ouvir uma crítica feroz ao governo atual seguida da constatação: “Eso con Fidel no pasaba”. Uma crítica à revolução, mas com um tom saudoso ao líder da revolução cubana que faleceu em 2016.

As necessidades práticas mais básicas se fundem às questões de soberania a cada instante, especialmente no cotidiano. Em Cuba, nunca é ‘apenas’ uma questão de sobrevivência; a escassez é sempre acompanhada de uma leitura política um pouco mais profunda.

Ao observar o que parecia ser uma modesta contribuição chinesa na infraestrutura da ilha, como a instalação de parques solares, perguntei a um interlocutor por que isso não era mais rápido e em maior escala, e se tinha a ver com a possibilidade de um “medo cubano” de se tornar um satélite dos interesses chineses. Recebi uma resposta carregada ideologicamente de uma sinceridade desconcertante: “Os problemas de Cuba são os cubanos que vão resolver. Mas, se querem vir aqui negociar e ajudar, são bem-vindos”. Uma resposta dura, sem perder a ternura.

Deixo Cuba já sentindo certa nostalgia. Do sabor do café da manhã de Susana e Júlio, que nos abriram o coração, a casa e o pensamento em Vedado, e a quem pretendo voltar a visitar. Da sinceridade gentil de Dariel, que ampliou nossos horizontes sobre Cuba, dos povos originários até a revolução e além, e a imagem do Callejón de Hamel, onde Rafa nos levou. Ali, entre as cores e o ritmo musical da “Santería”, vi o impacto profundo nos olhos de Karina, minha companheira de vida e aventura.

Concluo — correndo o risco de soar autocongratulatório — que visitar Cuba hoje é um necessário exercício de solidariedade política e de coragem. Estar presente enquanto a ilha enfrenta a agressão mais severa da história recente (e quem diz isso são os próprios cubanos) é uma forma de romper, ainda que individualmente, com o isolamento imposto pelo bloqueio.

Volto com a convicção de que, se nem mesmo nós, no campo progressista, temos todas as respostas para as questões da ilha hoje, tampouco as soluções fáceis do imperialismo podem ser verdadeiras.

Por isso, ver de perto a dignidade de um povo que se recusa a sucumbir sob o peso do império não é apenas um aprendizado, mas um dever para quem acredita que a soberania de uma nação não deveria ser o preço de sua sobrevivência.

E que os países amigos de Cuba, sobretudo o nosso, tenham pressa em ajudar efetivamente. É preciso coragem ao enfrentar o imperialismo!

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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