Editorial – O Brasil atual atingiu o ponto extremo da demência

'A guerra das vacinas, em pleno desenvolvimento e de incerto final, é a prova da situação de terrificante descalabro', escreve Mino Carta

Foto: EVARISTO SA / AFP

Foto: EVARISTO SA / AFP

Artigo

Quando o paladino Orlando endoideceu de amor, segundo o poema épico Orlando Furioso, de Ludovico Ariosto, o sublime poeta de Ferrara, alguém cuidou de encilhar um cavalo alado para chegar à lua, onde se guarda a razão dos homens. Seria o único meio de devolver a Orlando alguma saúde mental. Parece-me que o Brasil atual atingiu um ponto extremo de uma crise de demência que vem de longe, se quisermos, desde o descobrimento. Desconfio, porém, da existência de um juízo brasileiro, na lua ou em qualquer lugar do universo.

 

 

Neste país que ainda não chegou a nação, a guerra das vacinas, em pleno desenvolvimento e de incerto final, é a prova provada de uma situação de terrificante descalabro, sem contar o fato de que o suposto presidente da República mais uma vez transgride a Constituição, a lhe impor todo o cuidado com a saúde popular. Aqui vivemos na treva. As vacinas existem e uma delas, a da Pfizer, de eficácia comprovada já está em aplicação no Reino Unido. Logo mais, talvez antes do fim do ano, será empregada em um programa conjunto de Alemanha, França e Itália.

Nas nossas plagas, à sombra de um estúpido debate em torno da eficiência do remédio, sem contar a irremediável desconfiança de quem se arvora a presidente da República, fala-se agora da importação de todas as vacinas disponíveis, como se houvesse necessidade de um aval brasileiro a qualquer uma delas. Recomendo a leitura na edição de fim de ano, a próxima, da longa conversa que mantive com o professor Aldo Fornazieri. Está aí a explicação. Isto tudo se deve à falta de organização de um povo súcubo, ignorante, conformado.

Um ditado italiano diz a respeito de quem está fora do eixo e perdeu a razão: “Ele vive no mundo a lua”. O planeta dos lunáticos, admiravelmente representado por Georges Meliés no seu famosíssimo filme, obra-prima do alvorecer da Sétima Arte. Cada vez menos países ficam fora de um plano de vacinação, hoje já previsto para abarcar o mundo, quem sabe antes do Natal ou logo após. Aqui vivemos à margem da humanidade por obra de uma situação somente explicável à luz de uma análise patológica. Quando, orientados por Americo Vespuci, que já alcançara as costas do Piauí, os portugueses comandados por Cabral atingiram Porto Seguro, o escriba da aventura reconheceu a fertilidade da terra, onde “em se plantando tudo dá”. Logo começou a desgraça de uma colonização predatória, a dividir o espaço em imensas capitanias hereditárias e a desencadear um processo de escravidão que durou três séculos e meio e, a rigor, ainda vigora.

Brutal a discrepância entre o que a natureza oferecia e a estultice do homem incapaz de aproveitar-se de tanta generosidade. Pairava desde então a conspiração contra o melhor juízo, semeava-se a demência.

 

Publicado na edição n.º1137 de CartaCapital, de 23 de dezembro de 2020

Responda nossa pesquisa e nos ajude a entender o que nossos leitores esperam de CartaCapital

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Diretor de Redação de CartaCapital

Compartilhar postagem