Com a grana do Estado, turma do mercado corre para títulos de alto risco

'A enxurrada de dívidas encontrou investidores dispostos a garantir sua renda fixa'

Foto: Jorge Araujo /Fotos Publicas

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Artigo

O Financial Times registra as declarações de Dan Ivascyn, gerente de investimentos da Pimco, uma das maiores gestoras de ativos do planeta. “Fora dos Bancos Centrais não há muita liquidez oferecida nos mercados.” No início de novembro, diz Ivascyn, o FMI estimou que os países desenvolvidos do G-20 despejaram, desde o início da pandemia, cerca de 11 trilhões de dólares para apoiar indivíduos, empresas e o setor de saúde.

 

 

Com os Bancos Centrais apoiando os mercados de crédito, as corporações venderam e refinanciaram suas dívidas, em um esforço para acumular reservas para além da pandemia. A enxurrada de dívidas encontrou investidores dispostos a garantir sua renda fixa, em um ambiente de rendimentos próximos de zero dos títulos públicos de longo prazo. O rendimento médio dos títulos de alto risco (high yield) nos EUA caiu para 4,8%, marcando “um novo recorde de baixa em todos os tempos para essa classe de ativos”, de acordo com o Bank of America. Com o bolso recheado com a grana do Estado, a turma do mercado correu para os títulos de alto risco.

No capitalismo carregado de todas as suas determinações, a riqueza agregada é o estoque de ativos reprodutivos e direitos de propriedade sobre esses ativos e seus rendimentos. São ações e títulos de dívida gerados ao longo de vários ciclos de criação da renda, avaliados e precificados diariamente em mercados especializados.

Ainda no século XIX, um pensador da economia discorreu a respeito: “Ao se desenvolver o capital-dinheiro disponível também se desenvolve a massa de valores rentáveis, títulos do Estado, ações etc. Mas aumenta ao mesmo tempo a demanda de capital dinheiro disponível, posto que os que especulam com títulos e valores desempenham um papel fundamental no mercado de dinheiro… Se todas as compras e vendas desses títulos não fossem mais do que a expressão dos investimentos reais de capital, seria acertado dizer que não influem na demanda de capital de empréstimo”.

Nos 30 anos gloriosos que sucederam à Segunda Guerra Mundial, as políticas econômicas foram forjadas sob o receio de reedição do desastre social e econômico ocorrido na Grande Depressão. As políticas anticíclicas cumpriram o que prometiam ao sustar a recorrência de crises de “desvalorização de ativos”. Mas, ao garantir o valor dos estoques de riqueza existentes, as ações de estabilização praticadas pelos Tesouros Nacionais e pelos Bancos Centrais criaram um consenso silencioso nos “mercados” a respeito dos riscos embutidos nas decisões dos agentes que operam no mundo da finança.

A sucessão de episódios desde os anos 1980 indica que os “mercados” afrouxaram os critérios de avaliação do risco e recorreram à alavancagem imprudente com crédito barato. As intervenções de última instância dos Bancos Centrais e dos Tesouros Nacionais, concebidas para evitar a deflação de ativos, incitaram a conservação e valorização da riqueza em sua forma mais estéril, abstrata, que, em contraposição à aquisição de máquinas e equipamentos, carrega parcas esperanças de geração de mais renda e emprego para os necessitados. E tome desigualdade e precarização.

Um economista da escola austríaca recomendaria um sistema de crédito sem permissão de criar moeda. Assim, o capitalismo retornaria à sua condição natural de economia governada pelos indivíduos frugais e empreendedores. No “processo de mercado”, a expansão da economia está submetida à decisão que define a preferência dos agentes individuais entre consumo presente e consumo futuro. O indivíduo-investidor-empreendedor deixa de tomar seu primitivo, guarda o dinheiro para investir na vinícola do vizinho e sorve sua preciosidade daí a cinco anos.

A poupança prévia é acumulada sob a forma de depósitos e mobilizada pelos bancos, meros intermediários entre poupadores e “gastadores”. As operações de crédito são remuneradas pela taxa natural de juros e apenas redistribuem as posições entre credores e devedores, refletindo as distintas preferências entre consumo presente e consumo futuro (investimento). A dívida de A é o crédito de B: os balanços transformam-se simetricamente. Não haveria a possibilidade de uma “crise de crédito” provocada por uma diabólica capacidade dos bancos de criar moeda e promover a alavancagem excessiva. O dinheiro serve apenas para lubrificar as transações na economia real e o crédito permite a transição suave entre a poupança e o investimento.

Essa distopia austríaca imagina um capitalismo que jamais existiu. As sucessivas operações para conter os desatinos do capitalismo financeiro também indicam que os Bancos Centrais e os Tesouros ganharam poderes para disciplinar os desatinados e, assim, transformar os vícios da ganância sem propósito nas virtudes da prosperidade igualitária, à espera de uma política econômica democrática.

 

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Economista e professor, consultor editorial de CartaCapital.

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