Editorial – Bolsonaro não é Trump, é uma desgraça exclusivamente brasileira

Presidente brasileiro é resultado de uma situação única no mundo pretendido como civilizado

Bolsonaro e Trump na Casa Branca (Foto: AFP)

Bolsonaro e Trump na Casa Branca (Foto: AFP)

Artigo

Joe Biden, confesso, me causa uma sensação de fragilidade. Talvez seja por isso que não consigo enxergá-lo como o presidente dos Estados Unidos neste momento de turbulência, ainda que os dias de Trump estejam no fim. A questão é complexa e o momento mais turvo do que pode parecer à luz de uma análise superficial. É como se os EUA estivessem à beira de uma ruptura profunda, a desnudar as próprias entranhas do país.

O momento, ouso dizer, precisaria de um estadista, talvez do porte de Franklin D. Roosevelt. Mas talvez servisse um Lyndon Johnson, bem mais significativo do que muitos imaginaram no instante em que, na qualidade de vice-presidente, assumiu o posto de John Kennedy, assassinado em Dallas em um episódio até hoje de complexa explicação. E nem se ­fale de Abraham Lincoln.

Biden goza do aval de Barack Obama e de um perfil simpático e mesmo elegante. Nem por isso torna-se convincente no papel a que a história o convoca em busca de uma composição no país de Martin Luther King e Little Rock, de Lincoln Gordon e do iludido presidente Jimmy Carter. Refiro-me a uma nação que assumiu o papel de império do Ocidente, pretendeu ser farol da democracia e manchou-se de delitos a provarem sua hipocrisia.

Enfim, arrisco-me a dizer que o problema estadunidense é maior do que Donald Trump, mesmo porque há razões para acreditar que, ao cabo, uma solução será encontrada, a não carecer o país de instituições sólidas a despeito das confusões destes dias. Não deixam de ser os Estados Unidos um perfeito exemplo das contradições mundiais, surgidas nas mais diversas frentes. Mas convém entender que Jair Bolsonaro não é Trump, assim como não foi Mussolini ou Hitler, é uma desgraça exclusivamente brasileira, resultado de uma situação única no mundo pretendido como civilizado.

Não há civilização na resignação de um povo que não foi educado por quem tinha de convocá-lo para a realidade dos fatos, não há civilidade alguma no comportamento de pretensas autoridades que de fato merecem a candidatura ao manicômio, com uso altamente aconselhável da camisa de força. Permito-me apenas lembrar que, por exemplo, na Argentina a vacinação contra o coronavírus já foi iniciada.

Qualquer comparação entre Brasil e Estados Unidos é definitivamente impossível. O grande irmão do Norte, como eram chamados os EUA pelos editoriais do Estadão, não sofreu uma colonização que lhe cortou as asas, muito pelo contrário, combateu uma guerra de independência autêntica e enfrentou uma revolução interna de enormes proporções. Não há dúvidas quanto à perversa mediocridade de Donald Trump, mas ele teve às suas costas um país muito diferente do Brasil de Bolsonaro.

Há nos EUA pontos de excelência indiscutíveis, no Brasil até mesmo o futebol deixou de ser o que já foi. Eles contam com hospitais na vanguarda da medicina, centros de pesquisa, a formidável Nasa, universidades exemplares, uma Hollywood que abriga desde os irmãos Coen até o humor sutil de George Clooney etc. etc. Nós temos nada, o vácuo de Torricelli.

Recordo os tempos ásperos, quando dirigia a redação da revista Veja, e o homem da CIA, lotado na embaixada de Brasília, me ligava com a pretensão de orientar na interpretação dos fatos. Chamava-se Mowinckel e alimentava a granítica certeza de que uma publicação dos Civita, donos da Editora Abril, acolheria prazerosamente as suas lições de política e comportamento humano. A Veja rebelde garantia-lhe dissabores e decepções e mais tarde eu pagaria por isso, mesmo porque contava também com a antipatia do ditador Ernesto Geisel, aquele que foi coroado como autor da distensão lenta, gradual, porém segura. Sem contar quantos o celebraram como um irredutível nacionalista. Encantado consigo mesmo, não percebeu ter sido escolhido como títere executor dos projetos do titereiro Golbery do Couto e Silva.

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