Belluzzo: Em situações como pandemia, governos não podem hesitar

'Bancos Centrais e Tesouros Nacionais têm de abandonar regras que ordenam suas relações em tempos de normalidade'

Fachada do Banco Central do Brasil (Foto: Raphael Ribeiro/BCB)

Fachada do Banco Central do Brasil (Foto: Raphael Ribeiro/BCB)

Artigo

No Financial Times, edição de quarta-feira 23, William Cohan, ex-banqueiro de Wall Street, autor de Money and Power: How Goldman Sachs Came to Rule the World, relata o renascer das esperanças da empresária de turismo Mei Zhang, após Jay Powell, presidente do Federal Reserve, pedir ao Congresso “apoio fiscal direto” às pequenas empresas norte-americanas.

As palavras do presidente do Federal Reserve, diz Cohan, foram música para os ouvidos de Zhang. Como dezenas de milhões de outros pequenos empresários nos EUA, ela é uma vítima da Covid-19.

Com MBA em Harvard e estada na McKinsey, a resposta da senhorita Zhang ao coronavírus tem acompanhado as recomendações dos livros-texto de economia.

Ela cortou custos onde foi possível em sua empresa de viagens com sede em São Francisco, a WildChina. Rescindiu o contrato de aluguel do escritório, pagando uma multa para fazê-lo. Pegou dinheiro Paycheck Protection Program, pacote de 669 bilhões de dólares do governo, o que lhe permitiu continuar a pagar os funcionários com metade do salário.

 

No Brasil, prosseguem as discussões a respeito do auxílio emergencial

 

Todos agora trabalham em casa. Mas não se atreve a procurar uma linha de crédito bancário por medo de não conseguir pagar os juros e muito menos o principal.

Dizem que essa crise é diferente. Ela é diferente, mas é igual, ou seja, é a crise de uma determinada estrutura de relações. A vulneração veio por uma desarticulação brutal das relações de produção e dos nexos mercantis – sobretudo das relações salariais. O afastamento social provocou o rompimento dos nexos monetários, insisto monetários, que sustentam as relações de oferta-demanda entre bancos, empresas, trabalhadores assalariados e prestadores de serviço autônomos.

No Brasil, prosseguem as discussões a respeito do auxílio emergencial – valor, cobertura e tempo de vigência. Os debates quase sempre estão concentrados no volume de gastos requeridos para a implementação do programa. Poucos se indagam sobre os efeitos desse dispêndio na reabilitação dos circuitos monetários, aí incluídos a retomada parcial das atividades, o faturamento das empresas, os ganhos de confiança das famílias beneficiadas.

Em situação como esta, os governos não podem hesitar. Os Bancos Centrais e os Tesouros Nacionais têm de abandonar as regras que ordenam suas relações em tempos de “normalidade”. Nos tempos de “normalidade” os bancos emprestam para as empresas e para os cidadãos na quase certeza de recuperação do valor emprestado, acrescido da taxa de juros. Certamente há o risco de inadimplência. Cabe aos bancos avaliar a “credibilidade” dos clientes.

Na pandemia econômica, o setor bancário privado não tem condições de avaliar e muito menos de bancar o risco. Não se trata de risco, mas de incerteza radical, como nos ensinou John Maynard Keynes. A esse sistema privado e regulado por um agente do Estado incumbe manter a confiança na moeda e em seu processo de criação pelos bancos, assim como garantir sua circulação entre os demais agentes privados. Em tempos de normalidade, a atuação do BC se resume a controlar a liquidez dos mercados monetários, administrar o risco e manter a estabilidade das relações débito-crédito.

É sabido que o dinheiro existe desde as civilizações primevas, como a Mesopotâmia, mas somente nas economias de mercado capitalistas a sociabilidade é construída e articulada pelos nexos monetários. Meu amigo José Francisco Gonçalves sentenciou: nas economias capitalistas os bens e serviços que satisfazem as necessidades não saem das mãos dos produtores para circular nos “mercados” sem o carimbo monetário, o preço. Mas a colocação no mercado desses bens e serviços pelos produtores ou possuidores ocorre apenas quando são positivas as expectativas de apropriação privada de um valor monetário acrescentado do lucro.

Se não há valor monetário criado, não há valor monetário a ser apropriado. Resta, então, refugiar-se na posse do dinheiro que ainda sobrevive nas contas de cada um, mas não da maioria. Em tal penúria, o Estado pode e deve agir maciçamente nos circuitos de crédito e de gasto fiscal para promover a formação da renda. E deve fazer isso rapidamente para proteger os grupos mais fragilizados, mediante a constituição de programas incumbidos de sustentar as vidas e manter as cadeias de produção em funcionamento.

Em 1990, às vésperas de sua morte, o economista Hyman Minsky escreveu que no declínio profundo de 1929-33 o comportamento autointeressado de cada unidade econômica – famílias, empresas, bancos e instituições financeiras não-bancárias – em vez de promover a coerência sistêmica, piorou as condições macroeconômicas. Em vez de restaurar a estabilidade, o livre-mercado exacerbou os “desequilíbrios”.

 

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Economista e professor, consultor editorial de CartaCapital.

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