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As eleições brasileiras e as perspectivas para o BRICS+

Sob a retórica de multipolaridade, o atual nível de engajamento do Brasil no bloco sofreu uma desaceleração perceptível

As eleições brasileiras e as perspectivas para o BRICS+
As eleições brasileiras e as perspectivas para o BRICS+
Foto de família da 17ª Cúpula do Brics, no Rio de Janeiro — Foto: Isabela Castilho | BRICS Brasil
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Eleições 2026

Como é típico na maioria dos assuntos de Estado, o centro da disputa em torno do engajamento do Brasil na iniciativa BRICS+ está no plano político doméstico. Durante grande parte dos últimos dois anos, o governo Lula posicionou Brasília como uma defensora do Sul Global, utilizando a plataforma BRICS+ para advogar por uma arquitetura financeira internacional menos dependente do dólar e por uma recalibragem da governança global. No entanto, sob a retórica de multipolaridade, o atual nível de engajamento do Brasil no bloco sofreu uma desaceleração perceptível. O ímpeto da política externa brasileira encontrou uma limitação significativa, não devido à escassez de oportunidades internacionais, mas sim a um ambiente político doméstico altamente incerto. Com a aproximação das eleições presidenciais de 2026, o compromisso do Brasil com a iniciativa BRICS+ tornou-se contingente ao calendário eleitoral. Além disso, as declarações explícitas do ex-presidente Jair Bolsonaro – que permanece em prisão domiciliar e já indicou seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, para a presidência – de que retirará o Brasil da iniciativa BRICS+ caso retorne ao poder, não pressagiam apenas uma mudança na postura diplomática, mas sim um possível desmonte estratégico da coesão do bloco.

A atual paralisia, embora enganosa em sua apresentação externa, é substancial quando examinada de perto. No papel, o Brasil continua a executar os rituais de um membro ativo: defendeu a expansão do bloco, participou das deliberações sobre um sistema comum de pagamentos e sediou reuniões ministeriais preparatórias. No entanto, o progresso significativo rumo a uma integração mais profunda, que inclua mecanismos de facilitação do comércio, sistemas de liquidação em moedas locais ou políticas industriais conjuntas, diminuiu consideravelmente. As questões da política doméstica permanecem evidentes. Diante de uma maioria apertada da chamada Frente Ampla no Congresso Nacional e de um antagonismo crescente com seguimentos do Congresso, o governo Lula adotou uma postura estratégica defensiva. Cada concessão aos parceiros do BRICS+ relacionada a reduções tarifárias ou compromissos financeiros é agora submetida a um intenso escrutínio como uma potencial vulnerabilidade eleitoral. Consequentemente, a política externa brasileira tem produzido compromissos retóricos ambiciosos enquanto entrega resultados operacionais circunstanciais, priorizando gestos simbólicos em vez de reformas estruturais.

A principal fonte de incerteza reside no próprio futuro político do presidente Lula. As eleições gerais no Brasil estão marcadas para outubro de 2026, com um eventual segundo turno presidencial a ser realizado em 25 de outubro. Aos oitenta anos de idade e enfrentando índices de aprovação ambivalentes em meio a um crescimento econômico lento e persistentes restrições fiscais, o presidente Lula enfrenta uma disputa altamente competitiva. Uma pesquisa de meados de abril de 2026 do instituto BTG Pactual/Nexus situou Lula com 46% das intenções de voto contra 45% do senador Flávio Bolsonaro em um cenário de segundo turno, um empate técnico dentro da margem de erro da pesquisa. Da mesma forma, uma pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada em 28 de abril mostrou os dois candidatos empatados, com Flávio Bolsonaro recebendo 47,8% dos votos contra 47,5% de Lula em um segundo turno simulado, também um empate técnico. Esse cálculo eleitoral precário efetivamente congelou o planejamento estratégico de longo prazo do Brasil no âmbito do BRICS+. É institucionalmente racional que negociadores brasileiros se abstenham de se comprometer com mecanismos financeiros vinculativos ou parcerias de infraestrutura de uma década quando o poder executivo que ratificaria tais acordos pode ser substituído por um governo declaradamente opositor destas estratégias.

Evidências dessa cautela institucional são prontamente visíveis no arquivamento de diversas propostas substantivas. O governo Lula migrou para a meta menos ambiciosa de conectar sistemas nacionais de pagamento para reduzir a dependência do dólar, mas mesmo essa Iniciativa de Pagamentos Transfronteiriços do BRICS (BCBPI, na sigla em inglês) – proposta pela primeira vez em 2015 – permanece estagnada. Como a Bloomberg e o Business Standard reportaram em julho de 2025, os países do BRICS “mais uma vez deixaram de avançar significativamente no sistema de pagamentos transfronteiriços”, com complicações técnicas, preocupações de segurança e a expansão do bloco atrasando qualquer resultado concreto. A Nova Plataforma de Investimento (NIP, na sigla em inglês) também está aparentemente paralisada, mostrando que as discussões chegaram a um impasse.

O espectro do retorno de Bolsonaro torna esta situação particularmente alarmante. As declarações explícitas de que o Brasil se retirará da iniciativa BRICS+ caso a família Bolsonaro retorne ao poder não podem ser descartadas como mera retórica de campanha. Isso constitui uma ameaça concreta à coerência institucional do bloco. Uma administração Bolsonaro poderia implicar uma guinada brusca do Brasil para longe do Sul Global, e tal retirada não ocorreria isoladamente. Em vez disso, se desenrolaria num cenário maior de tensões internas entre outros membros do BRICS. A Índia, sob o primeiro-ministro Modi, tem cada vez mais equilibrado seus compromissos estratégicos entre alianças ocidentais e o bloco, enquanto as crises de infraestrutura e governança da África do Sul diminuíram sua capacidade de liderança regional. Um desengajamento brasileiro representaria a saída do maior produtor agrícola do bloco e de uma voz crítica para a América Latina. Isso poderia validar tendências isolacionistas em outros Estados-membros, potencialmente desencadeando uma erosão gradual da credibilidade política e da eficácia operacional da iniciativa.

Por outro lado, uma vitória do presidente Lula nas eleições de outubro de 2026 desbloquearia um potencial significativo para uma renovada liderança brasileira em nível regional e um engajamento mais profundo com a iniciativa BRICS+. Livre das amarras do calendário eleitoral, um Lula reeleito possuiria o capital político e o mandato institucional para retomar uma política externa mais assertiva e reformista. A prioridade imediata provavelmente envolveria reviver as propostas técnicas arquivadas, talvez começando pela Iniciativa de Pagamentos Transfronteiriços do BRICS. Um novo governo Lula poderia acelerar o desenvolvimento de um sistema de pagamentos para todo o bloco, aproveitando as estruturas nacionais existentes, como a plataforma de pagamentos instantâneos de grande sucesso no Brasil, o PIX, como um potencial modelo tecnológico para outros membros.

Além disso, com o imperativo eleitoral ultrapassado, o Brasil poderia retomar um papel de liderança no debate sobre a reforma da governança global. O Brasil tem buscado há muito tempo direcionar a agenda do bloco para a reforma das instituições internacionais, uma posição diluída por uma adesão ampliada com interesses mais diversos. Um Lula reeleito poderia tentar focar a agenda do BRICS+ nesses objetivos de reforma multilateral, forjando coalizões com membros afins para pressionar por mudanças na ONU, no FMI e no Banco Mundial. Por fim, com uma base política consolidada, o Brasil poderia avançar seus projetos nacionais de infraestrutura e autonomia digital por meio dos canais do BRICS+, incluindo a expansão da cooperação tecnológica com parceiros-chave como Rússia e China em energia nuclear, inteligência artificial e monitoramento por satélite.

Em conclusão, o engajamento do Brasil com o BRICS+ chegou a uma encruzilhada. Este chaveamento não é primariamente determinado por pressões geopolíticas per se, ou seja, provenientes de pressão geopolítica direta, mas por dinâmicas eleitorais domésticas. Deve-se refletir que uma potencial derrota de Lula tem o potencial de alterar fundamentalmente a orientação estratégica do Brasil, substituindo um construtor de pontes multilaterais por um defensor do bilateralismo seletivo, com uma política externa muito mais alinhada com a dos Estados Unidos. Para que a iniciativa BRICS+ continue como um contrapeso significativo às instituições lideradas pelo Ocidente, ela precisa de um Brasil que esteja disposto e seja capaz de manter compromissos continuados. No momento, a incerteza política doméstica estancou essa disposição e restringiu essa capacidade. O prognóstico, portanto, é preocupante: ao que tudo indica, até que o futuro eleitoral do Brasil seja resolvido em outubro de 2026, seu papel nacional no BRICS+ permanecerá sendo o de um espectador cauteloso e de atuação substancialmente restrita.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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