A ordem é ‘pólvora no Corona’

'A falta de método do presidente Bolsonaro escancara sua metódica perseguição da desorganização organizada', escreve Luiz Gonzaga Belluzzo

Presidente Jair Bolsonaro. Foto: Sergio Lima/AFP

Presidente Jair Bolsonaro. Foto: Sergio Lima/AFP

Artigo

Pouco a pouco, os brasileiros conseguem montar o quebra-cabeças do governo Bolsonaro, suas desorganizações, decisões e indecisões. A desorganização é uma forma de organização, assim como as indecisões não podem ser entendidas senão como uma dimensão das decisões. Quando assistimos a uma partida de futebol, frequentemente os ínclitos narradores nos informam que “fulano de tal ficou indeciso, não chutou e perdeu o gol.” A indecisão é a decisão de não chutar.

 

 

Quanto à desorganização organizada, desponta de imediato o exemplo a politica sanitária do governo Bolsonaro comandada pelo ilustre general Pazuello. O debate com os governadores a respeito das vacinas e do calendário da vacinação sugeriu desorientação, desorganização, mas, minhas suspeitas insinuam que estamos diante da organização desorganizada , ou se preferirem a desorganização organizada (peço desculpas ao mestre Celso Furtado por surrupiar furtivamente o título de seus magnífico livros “A Fantasia Organizada” e “A Fantasia Desorganizada”)

Quero dizer que a falta de método do presidente Bolsonaro escancara sua metódica perseguição da desorganização organizada. Pensei em pedir de empréstimo ao pensador americano Richard Hofstadter as ideias apresentadas em seu livro A Paranoia na Política Americana. Hofstadter não alcançou Donald Trump, mas o paranoico presidente americano bota as caras em cada página do livro. Desnecessário dizer que Hofstadter tampouco teve notícia de Jair Bolsonaro, o clone tropical de seu idolatrado chefe do Norte.

Vamos a um trecho da obra: “O que caracteriza o estilo paranoico não é que seus expoentes vejam conspirações aqui e ali na história, mas a ideia de uma conspiração ‘vasta’ ou ‘gigantesca’ como a força motriz dos eventos históricos. A história é uma conspiração, iniciada por forças demoníacas dotadas de poderes quase transcendentes. Para derrotá-las suficientes os métodos políticos usuais de negociação políticos, mas uma cruzada total. O líder paranoico vê essa conspiração em termos apocalípticos — o nascimento e a morte de mundos inteiros, ordens políticas inteiras, sistemas inteiros de valores humanos. O paranoico está sempre cuidando das barricadas da civilização. Ele vive constantemente em um ponto de virada: é agora ou nunca na organização da resistência à conspiração.

O tempo está se esgotando para sempre. Como os milenaristas religiosos, o paranoico expressa a ansiedade daqueles que estão vivendo os últimos dias e às vezes está disposto a definir uma data para o apocalipse.”

A última exibição do padrão de comportamento paranoide-(des)organizacional de Bolsonaro foi a eliminação de tarifas para a compra de armas. Essa decisão deve ser agregada à resistência de Bolsonaro e aliados à vacinação. Lembra o movimento dos reacionários americanos contra o tratamento da água potável com flúor.

Aqui, na Tropicália, os cidadãos munidos de revólveres e escopetas vão matar o vírus. As vacinas são desnecessárias, coisas de maricas. A ordem é “pólvora no Corona”.

 

Junte-se ao grupo de CartaCapital no Telegram

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Economista e professor, consultor editorial de CartaCapital.

Compartilhar postagem