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A guerra ao Irã como instrumento da hegemonia norte-americana

O discurso de Donald Trump sobre querer construir um mundo mais pacífico caiu por terra

A guerra ao Irã como instrumento da hegemonia norte-americana
A guerra ao Irã como instrumento da hegemonia norte-americana
O presidente dos EUA, Donald Trump – Foto: Mandel NGAN / AFP
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Até recentemente, o discurso de Donald Trump sobre querer construir um mundo mais pacífico ainda encontrava eco nos meios de comunicação tradicionais. O ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã jogou por terra qualquer pretensão pacificadora de seu governo, suscitando debates sobre o fim do chamado Império Americano. Se por um lado, o poderio dos EUA foi demonstrado no assassinato do líder supremo iraniano, a resistência que a nação islâmica tem apresentado abriu espaço para ponderações contrárias. Mas afinal, como opera a hegemonia norte-americana no contexto de disputa crescente com a China?

Se, na década de1970, a estratégia de recuperação hegemônica dos EUA passou pela suspensão da convertibilidade do dólar em ouro, medida que compensou a fatídica aventura militar no Vietnã, e mostrou que Washington dispunha de vários instrumentos de manutenção do seu poderio ao redor do mundo. No contexto atual, a lógica se repete com sinal trocado. Diante da perda crescente de competitividade econômica frente à China, a reorganização da influência global passa agora pela reafirmação do poder militar que os EUA tem demonstrado em sucessivas operações de guerra que buscam reafirmar que embora em declínio relativo crescente, o paíse ainda detêm de um peso geopolítico ímpar.

É dentro dessa lógica que o ataque ao Irã e o controle político sobre a Venezuela se inserem. De fato, embora ocorrendo na America Latina e no Oriente Médio, o alvo principal é a China, conforme demonstrado pelo próprio presidente Trump ao afirmar que: “Se o Irã fizer qualquer coisa que interrompa o fluxo de petróleo no Estreito de Hormuz, será atingido pelos Estados Unidos da América vinte vezes mais forte.” No mesmo sentido, ao eliminar dois dos três principais fornecedores de petróleo da China, Washington encarece rapidamente o preço do petróleo bruto no mercado internacional e impõe desafios estratégicos imprevisíveis a Pequim, ao mesmo tempo em que estreita os laços com as monarquias Sunitas e garante a sub-hegemonia de Israel no Oriente Médio.

Mas ainda que a superioridade militar dos EUA em relação à República Islâmica seja evidente, nada indica por ora que o regime iraniano esteja prestes a cair, ainda mais com a recente escolha de Mojtaba Khamenei à liderança de governo. Além disso, escaldado pelo que ocorreu na região no início dos anos 2000, a maioria do eleitorado norte-americano não está com muita tolerância para um longo conflito, e Trump não parece ter a disciplina e o afã milenarista que teve o governo Bush quando da invasão no Iraque. E assim, os próximos desdobramentos vão depender da duração e escala do conflito.

De todo modo, ainda que esteja enfrentando mais resistência do que esperava, os efeitos imediatos do conflito em curso parecem até o momento mais favoráveis para os Estados Unidos que, ao demonstrar sua enorme vantagem bélica frente ao resto do mundo, consegue seguir arrancando concessões, benefícios desiguais e demonstrações de submissão de aliados e adversários, dentro de uma verdadeira cruzada que assume cada vez mais um caráter bíblico e civilizacional.

No longo prazo, tudo indica que os EUA devem caminhar ao seu declínio relativo, com desvantagens tecnológicas e rearranjo das alianças em torno da política externa menos belicista da China. Mas por ora, o poder norte-americano segue grande, com tudo que isso implica para sua própria sociedade e para o mundo.

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