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A linguagem do Vale do Silício: o que torna o glossário das big techs um mecanismo de poder?

Comunidade. Liberdade. Inovação. Conexão. Segurança. Expressões que, em princípio, parecem carregar valores universais e positivos. Mas, no reino do Vale do Silício, passaram por um processo silencioso de ressignificação. As grandes empresas de tecnologia são experts na disputa pela linguagem porque sabem que ela é uma ferramenta crucial para conquistar mercados, usuários ou dados.

Quando ouvimos o termo “comunidade”, pensamos em vínculos, pertencimento, afinidades e relações construídas ao longo do tempo. Foi justamente essa promessa que ajudou a impulsionar os primeiros tempos das redes sociais. Mas a ideia de comunidade que hoje emerge das plataformas está cada vez mais distante desse significado original. Em seu lugar, surgem algoritmos alucinados reforçando bolhas homogêneas, onde o engajamento vale mais do que o diálogo e a polarização se torna um modelo de negócio.

O mesmo acontece com as chamadas “políticas da comunidade”. O termo sugere regras coletivamente construídas para proteger usuários e garantir a convivência. Na prática, porém, trata-se de normas definidas unilateralmente por empresas privadas, muitas vezes aplicadas de forma opaca, inconsistente ou até mesmo descumpridas pelas próprias plataformas quando seus interesses econômicos estão em jogo.

Outro exemplo é o “impulsionamento”. A palavra transmite a sensação de algo espontâneo, de um conteúdo que ganhou relevância por mérito próprio. Mas impulsionar significa, literalmente, pagar para ampliar alcance. Não há nada de orgânico nisso. O que existe é uma infraestrutura comercial que transforma atenção em mercadoria.

Talvez nenhum conceito tenha sido tão disputado nos últimos anos quanto a “liberdade de expressão”. O termo foi capturado por setores políticos, econômicos e tecnológicos interessados em associar qualquer forma de regulação ou responsabilização à censura.

Mas liberdade de expressão não é um direito absoluto. Ela convive com outros direitos fundamentais, como a proteção da honra, da dignidade, da democracia e da integridade das pessoas. Só que isso as big techs e sua trupe não falam.

A disputa em torno dessas palavras não é acidental. Sabemos o poder da comunicação. Narrativas levantam e derrubam governos, constroem impérios econômicos e justificam guerras. É por meio da linguagem que as big techs chegam aos países onde operam.

Elas não chegam falando nossa língua política, nossa história ou nossa cultura. Chegam com o léxico da tecnocracia: inovação acima de tudo, competição permanente, meritocracia como explicação universal e lucro tratado como sinônimo de progresso.

Essa linguagem não serve apenas para vender produtos. Ela busca moldar a opinião pública, influenciar legisladores e capturar debates regulatórios. É uma estratégia semelhante àquela utilizada por diferentes grupos de poder ao longo da história: apropriar-se do vocabulário dos direitos para defender interesses privados. Direitos humanos, direitos climáticos, participação cidadã e liberdade passam a ser mobilizados de forma seletiva, muitas vezes com seus significados invertidos.

A “inovação” e o “desenvolvimento”, termos amplamente utilizados nos debates regulatórios e tidos como conceitos “naturais” no mercado da IA, respondem aos interesses das grandes empresas. E não param de pé quando minimamente provocados: inovação para quem e para atingir o quê? Desenvolvimento com base em quê e para resolver quais problemas estruturais?

Questionar esse conjunto de termos ou, no mínimo, estranhar é um caminho para conhecer seus reais interesses e recuperar o sentido público e cidadão dos conceitos que foram capturados. Afinal, quem controla a linguagem não controla apenas a narrativa, mas define os limites do que é possível ou não, do que é legal, ético, do que interessa de fato para aquela sociedade.