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“Sai do meu país!”: agressão a refugiado expõe a xenofobia no Brasil

Política

Mohamed Ali, refugiado sírio residente no Brasil há três anos, foi hostilizado e agredido verbalmente em Copacabana, região nobre do Rio de Janeiro, onde trabalha vendendo esfihas e doces típicos. 

Em vídeo publicado nas redes sociais é possível ver um homem exaltado que grita repetidas vezes “sai do meu País!”, ostentando dois pedaços de madeira nas mãos e ameaçando o refugiado. “O nosso país tá sendo invadido por esses homens bombas, que matam crianças”, diz, em discurso xenofóbico.

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O caso aconteceu na quinta-feira 3. No vídeo, Ali limita-se a recolher os produtos que vende, visivelmente constrangido.

As agressões duram cerca de um minuto, no qual as ofensas não param: “Vamos expulsar eles! Cadê o Crivella? Cadê o prefeito?”, grita o agressor em vídeo publicado na página do Facebook Mídia Independente Coletiva – MIC. 

Ali manifestou-se nos comentários do vídeo. 

“Eu, Mohamed, sou este rapaz que foi humilhado. Estou aqui faz três anos. Vim pro Brasil porque eles abriram as portas para todos os refugiados. Todos os meus amigos estão trabalhando. Estamos trabalhando arduamente. Estou muito sentido porque nunca pensei que isso pudesse acontecer comigo”, afirmou, no comentário que já recebeu 2,2 mil likes. 

No Brasil, xenofobia é crime tipificado na lei 9.459, de 1997. Seu primeiro artigo diz: serão punidos, na forma desta lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. 

“Vim com amor, porque os amigos sempre diziam que o Brasil aceita muito outras culturas e religiões e as pessoas são amáveis e todos os refugiados procuram paz. Não sou terrorista, se eu fosse, eu não estaria aqui, estaria lá lutando como eles fazem”, afirma, agradecendo a todos que o defenderam.

Apesar da fama de “cordial” e de receber bem imigrantes, o aumento das denúncias mostra um lado triste do Brasil. Entre 2014 e 2015, os casos aumentaram 633%, pulando de 45 para 333 registros recebidos pela Secretaria Especial de Direitos Humanos, via plataforma Disque 100. Na Justiça, quase não há registros de denúncias que prosseguiram ou de xenófobos punidos. 

Olhando os dados de 2015 mais de perto, vê-se que os principais alvos de preconceito são os refugiados. As principais vítimas são haitianos (26,8%), depois pessoas de origem árabe ou de religião muçulmana (15,45%). 

“Tenho muitas esperanças no Brasil. Moro no Brasil e aqui já é minha pátria. Espero que isso não aconteça com mais ninguém, de nenhuma nacionalidade”, afirmou Ali.  

Na sexta 4, ele voltou a se manifestar nas redes. 

“Realmente, agora eu sinto que estou vivendo em família, uma grande família. Quando perdemos o rumo, de repente você acha milhões de pessoas te dando a mão. Isso é uma coisa que enche meu coração de amor por todos. Isso é uma coisa que me dá esperança nesse mundo que ainda tem pessoas , especialmente , brasileiros, muito boas. Quando a chuva cai , você não deve ficar totalmente temeroso, porque a chuva faz com que as flores cresçam. Eu espero paz pra viver”. 

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