Economia
O custo das sementes transgênicas para a agricultura dos EUA
Iniciado há 20 anos, o plantio de sementes transgênicas corresponde a 90% do cultivo de soja e milho no país. Só que o preço das sementes subiu 305%
“Ah, esse custo Brasil. Está matando a agricultura”. Ouve-se muito, não? É uma das músicas mais tocadas nos shows da banda “Ronaldo Caiado e seus Berrantes”. Ainda mais quando o poder político está sendo disputado a golpes de votos dentro do Congresso e não da população brasileira.
“Mas você não concorda que existem grandes entraves de legislação e infraestrutura para a agropecuária deslanchar?”, certamente me perguntarão nas redes sociais. Isto, os mais educados. Os demais virão com pés em meu peito. Sei evitá-los. Estão inundados de micoses.
Aos primeiros, costumo responder. Não, contudo, jogando todas as distorções nas costas do investimento público em décadas de governos. Meto aí nesse saco de maldades também a iniciativa privada, geralmente distraída para colocar recursos de retorno em longo prazo.
Não é essa, no entanto, a discussão na coluna de hoje. Na semana passada, citei vários movimentos de aquisições e fusões entre fabricantes de insumos agrícolas que certamente afetarão de forma negativa o agricultor brasileiro.
Rumores indicam a breve venda dos ativos da Vale em fertilizantes para a norte-americana Mosaic. Perto do que acontece lá fora, é coisa pouca, entre R$ 2 e 3 bilhões, mas relevante para o consumidor de potássio, sobretudo do Nordeste.
Mas ainda não está aí o foco principal desta coluna, penalizado que estou com os plantadores de soja e milho dos Estados Unidos. Os estados de Ohio, Wisconsin, Indiana, e outros do Corn Belt, estão revoltados. Não sei se a baba irá cair no colo de Hillary Clinton ou Donald Trump. Mas é grossa.
Caso é o seguinte: nos EUA, dólar é dólar, juros e inflação baixos são reais; no Brasil, reais são apenas o nome da moeda e a coroa de Momo. Sim, evitei a letra erre, mas cabia.
Há 20 anos, a Monsanto introduziu na agricultura norte-americana as sementes transgênicas. A invenção começou para evitar a broca do milho, seguiu para resistir aos mais fortes herbicidas, até chegar à diminuição do stress hídrico. Convenceu. Atualmente mais de 90% do plantio de soja e milho são feitos com elas. Lá e no Brasil.
O busílis: nesse período, o custo das sementes transgênicas de soja subiu 305% e o custo por hectare plantado com a cultura atingiu US$ 150,40. As informações vêm do USDA (Departamento de Agricultura dos EUA).
Fato é que o mesmo não aconteceu com as cotações dos grãos, há três anos em queda. Mesmo com a produção maior dos últimos dois anos, a perda de receita dos agricultores americanos, em relação ao pico entre 2011/12, é estimada em 40%.
Como então aguentar os preços das sementes? Simples, aguentando. São poucas as alternativas. Não fosse assim, a Bayer alemã não estaria comprando a norte-americana Monsanto.
O diretor-presidente da empresa alemã, Werner Baumann, declara apostar na biotecnologia e a justifica com a estimativa da ONU de que, em 2050, o planeta estará com 9,7 bilhões de pessoas que não terão perdido o hábito da alimentação. Um sábio. Gente que enxerga longe.
E no Brasil? Até aonde se enxerga?
Depende de quem olha pela mira. Se a Bayer acertará o centro do alvo, pois se tornará a líder em insumos no país, com participação de 22% no mercado.
Se os agricultores brasileiros, lerão no alvo dísticos da concentração na produção de insumos, preços cartelizados, desnacionalização da economia, e o câmbio incerto a influir nos custos de produção e preços de comercialização. Espingardas tico-tico não costumam ser eficientes para acertarem esses alvos.
Ah, desculpem-me, e o custo Brasil. Se não o lembrasse os confederados caiados não me perdoariam. Alguns podem estar pensando, “bem, então, agora é cinzas, tudo acabado e nada mais”.
Téquinão.
Apesar de algumas adversidades climáticas, com influência negativa na colheita de certos produtos, a queda no valor bruto da produção brasileira, em 2016, não ultrapassará 2,5% (grato, donas Dilma e Kátia Abreu).
A próxima safra, ora em fase de plantio, é promissora em termos de área e uso de tecnologia. Os carros-chefes soja e milho se beneficiam do câmbio para vender bem e mantiveram os custos controlados, principalmente com a compra antecipada de insumos na levada da queda do dólar em relação ao início do ano.
Dessa forma, o vento que bate aqui nas palmeiras, não é o mesmo que bate lá em plátanos e bordos.
Se aqui está melhor hoje, amanhã não estará, a menos que o Brasil se defenda em forma nacionalista de aquisição de tecnologia, já sugeridas em várias colunas, embora pouco acreditadas.
Não volto ao assunto tão logo.
2026 já começou
Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.
A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.
Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.
Assine ou contribua com o quanto puder.



