Augusto Diniz | Música brasileira
Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.
Augusto Diniz | Música brasileira
Bia Ferreira esbanja vigor musical em álbum conceituado na ‘amefricanidade’
Cantora e compositora, cresceu na música cantando nas ruas e agora lança seu excelente terceiro álbum, entre a leveza e a política
A mineira Bia Ferreira tocou em praças e ruas de várias cidades onde viveu nas regiões Sudeste e Nordeste. Ao fim de cada apresentação, passava o chapéu para arrecadar algum dinheiro que lhe desse condições de, pelo menos, se alimentar no fim do dia.
Em 2018, viu sua música Cota Não É Esmola (um manifesto sobre justiça social) viralizar na internet. A partir daquele momento, sua carreira ganhou projeção. Vieram então Igreja Lesbiteriana, Um Chamado (2019) e Faminta (2022), álbuns marcados pela “dor social”, como afirma, dos tempos difíceis que passou.
Agora, mais madura, com uma carreira ascendente no exterior, ela lança Améfrica cheio de vivacidade, vigor musical, leve e político ao mesmo tempo. Um disco para entrar na lista dos melhores do ano por tudo que ele emana.
“A Bia de 2019, que lançou o Igreja Lesbiteriana, vinha de uma dor social muito latente. Uma artista que vivia na rua, que rodava o chapéu, que não sabia se ia conseguir comer, vinda de um lugar de embate”, conta ela em entrevista ao programa Sobre Tom, de CartaCapital.
“Agora, a Bia que fez Améfrica está vivendo outra coisa. Ela passou por 26 países nos últimos três anos, levando arte e cultura. É uma Bia que se reconhece brasileira de um lugar de muito orgulho, que faz arte brasileira, música negra brasileira”, complementa.
O conceito do terceiro álbum da cantora se encaixava na definição de ‘Améfrica Ladina’ da escritora e ativista Lélia Gonzalez, na qual ela dá centralidade ao protagonismo dos povos originários e negros na América Latina e Caribe.
“Entendi que o que eu estava fazendo se encaixava nesse conceito de amefricanidade, tendo pessoas originárias e africanas da diáspora como protagonistas do que a gente vê culturalmente, esteticamente e socialmente”, explica Bia.
O disco – com a produção da própria Bia em parceria com Vinicius Lezo — traz de forma latente a musicalidade afro-caribenha, como o reggae, e a tipicamente brasileira, como os ritmos nordestinos.
“Quando trago a crítica social nesse disco, faço-a muito no lugar de minhas experimentações de soluções para o problema”, ressalta.
“Esse álbum vem para falar da leveza da vida, alegria como forma de subversão, lembrar que mexer o corpo e dar o primeiro passo é muito importante para que a gente não adoeça. Gente adoecida não faz revolução”.
No seu novo disco, Bia Ferreira regravou Cota Não É Esmola. Ela diz ter orgulho da canção e o registro dela faz parte da reafirmação de onde veio. “Nunca é demais se posicionar por políticas públicas”, afirma.
Assista à entrevista de Bia Ferreira a CartaCapital:
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