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‘LOST’ e a Iniciativa Dharma: quando o controle mental sepultou a utopia dos anos 1960
Duas décadas após a estreia, a icônica série — hoje disponível no catálogo da Disney+ — revela-se uma poderosa alegoria sobre as disputas políticas e psíquicas que moldaram o mundo moderno
[Aviso: Este texto contém spoilers sobre o enredo e o desfecho da série]
Em 2004, quando LOST estreou — série que hoje vive um forte revival de audiência no catálogo da Disney+ —, a televisão operava sob a lógica da passividade. A produção de Damon Lindelof e J.J. Abrams rompeu esse pacto, transformando o espectador em um investigador de ruínas e pistas. Contudo, vista à distância de duas décadas, a jornada de figuras como o cético médico Jack Shephard, a fugitiva Kate, o golpista Sawyer, o torturador arrependido Sayid e o místico John Locke revela-se muito mais do que um quebra-cabeça pop: a ilha funciona como uma poderosa arqueologia política e psíquica das fraturas do século XX.
No coração do mistério está a Iniciativa Dharma. Longe de ser apenas um recurso de ficção científica, ela introduz na narrativa a ciência militarizada e comportamental das décadas de 1960 e 1970. Suas estações subterrâneas, computadores obsoletos e filmes de treinamento carregam a estética de uma era ambígua, em que o ápice da contracultura e a paranoia estatal caminhavam lado a lado.
A genialidade de LOST reside em espalhar os ecos dessa geração por meio de alegorias sofisticadas. O próprio termo “Dharma”, extraído das tradições filosóficas indianas, dialoga com a apropriação ocidental do budismo e do hinduísmo — um movimento que, na vida real, coincidiu com os experimentos de Timothy Leary com o LSD e a busca pela expansão da consciência.
Essa ponte histórica ganha contornos explícitos no personagem Richard Alpert. Seu nome evoca diretamente o psicólogo de Harvard que, junto a Leary, pesquisou a psilocibina antes de partir para a Índia e renascer como Ram Dass, ícone da espiritualidade psicodélica. Na série, Alpert atravessa gerações sem envelhecer, uma metáfora viva do elo imortal entre a utopia da transcendência e o aprisionamento institucional promovido pela ilha.
O choque entre emancipação e opressão atinge seu ápice na infame Sala 23. Ali, a Dharma expõe indivíduos a processos violentos de condicionamento psicológico, repletos de estímulos visuais e mensagens subliminares. A sequência é uma referência direta aos experimentos de controle mental da Guerra Fria — em especial o projeto MK-Ultra, financiado pela CIA. O paralelo histórico é brutal: enquanto uma parcela da juventude tentava abrir as portas da percepção, os aparatos de segurança do capitalismo ocidental financiavam cientistas para descobrir como trancá-las e manipulá-las.
Essa dualidade se manifesta na própria estrutura narrativa da série, que usa a ficção científica mais divertida para aprofundar suas teses. Ao abraçar abertamente as teorias de viagem no tempo em suas temporadas maduras, LOST faz com que os próprios sobreviventes sejam arremessados de volta à década de 1970. Vestindo os uniformes da Dharma, os personagens passam a integrar o cotidiano da organização. O roteiro brinca com o determinismo histórico: o futuro tenta alterar o passado, mas acaba apenas se tornando engrenagem dele.
Diante desse laboratório tecnocrático, John Locke surge como a antítese espiritual. Recorrendo a rituais ancestrais e a uma pasta alucinógena feita com raízes nativas da floresta, Locke induz transes e visões em uma tenda do suor. É a busca psicodélica legítima pela emancipação do ser, um contraste direto com o controle químico e pavloviano exercido pelas máquinas da Sala 23. As instituições tentam codificar o milagre através do eletromagnetismo e de equações matemáticas — os célebres números 4, 8, 15, 16, 23 e 42 —, transformando o misticismo em controle estatístico.
Sob a ótica da psicanálise, esse grupo de sobreviventes — completado por tipos psicologicamente fragmentados como o azarado Hurley e o instável casal Jin e Sun — desembarca na ilha mutilado por traumas, culpas e abandonos gerados por uma sociedade adoecida. O território selvagem atua como o próprio inconsciente freudiano e junguiano, dividindo-se nas eternas metáforas de luz e sombra.
Há a luz física da energia eletromagnética e das rupturas no espaço-tempo, mas há também a escuridão das cavernas, da floresta e da fumaça preta que pune e julga. Jung chamaria essa escuridão de “sombra”: aquilo que a civilização reprime ou não consegue reconhecer em si mesma. Nas experiências psicodélicas, assim como na ilha, as fronteiras do ego desabam. A percepção se abre para imagens luminosas, mas traz à tona o medo coletivo e o trauma.
É por essa razão que o desfecho da série dividiu tantas opiniões. O público moldado pelo pragmatismo esperava uma resposta puramente corporativa ou um manual científico para cada engrenagem da ilha. Ao encerrar a narrativa pela chave da espiritualidade, do afeto e da aceitação da morte, LOST rejeitou a lógica positivista da Iniciativa Dharma.
Ao fim, a ilha de LOST permanece atual porque espelha o nosso próprio tempo: um mundo vigiado por algoritmos e técnicas modernas de controle do comportamento, em que a disputa pela consciência humana e pela definição do que chamamos de realidade continua sendo a batalha política central.
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