ToqueTec

O Triunfo do Papel: Como as cartas de Pokémon venceram a ilusão digital

Enquanto a Sony põe fim aos jogos físicos, os cardgames provam que a posse real virou um ato de resistência da cultura pop

O Triunfo do Papel: Como as cartas de Pokémon venceram a ilusão digital
O Triunfo do Papel: Como as cartas de Pokémon venceram a ilusão digital
Reprodução | A ironia máxima da nossa era hiperdigitalizada é que a tecnologia, em vez de matar o papel, virou a infraestrutura que o sustenta
Apoie Siga-nos no

Por Tiago Souza

No último fim de semana, me peguei assistindo com meus filhos ao Pokémon World Championships 2026, que aconteceu em São Francisco. Mais especificamente, focamos nas etapas finais de Pokémon TCG, a categoria de disputa de cartas colecionáveis da franquia. Ver a arena lotada, com jogadores do mundo inteiro duelando com pedaços físicos de papel impresso, me fez refletir sobre um paradoxo intrigante: por que as versões puramente digitais dos jogos de cartas (como Pokémon TCG Live ou Magic: The Gathering Arena) enfrentam tanta dificuldade para substituir ou desvalorizar o jogo físico?

Sony e o mundo físico dos games

A resposta para essa pergunta ganhou um contorno urgente e quase distópico nos últimos dias. Em uma ação judicial recente na Califórnia, a Sony defendeu-se de forma categórica, afirmando ser “óbvio” e “implausível” acreditar que os jogadores são realmente donos de suas compras digitais na PlayStation Store. Segundo a empresa, o consumidor adquire apenas uma licença temporária de uso. Se o servidor desligar ou a licença expirar, seu jogo some — e seu dinheiro também. É a oficialização de que, no mundo digital, somos todos inquilinos de bits.

Leia também:

Vale destacar que a empresa confirmou recentemente o encerramento da fabricação de jogos em mídia física para os consoles PlayStation a partir de janeiro de 2028. Rumores recentes, entretanto, dão conta de que a Sony possa estar reavaliando ou considerando adiar esses planos devido à estratégia da concorrente Microsoft e à pressão dos fãs.

O duelo real e a posse inalienável

É nesse cenário de desmaterialização da propriedade que os cardgames físicos revelam sua verdadeira força. Quando você compra uma carta de Pokémon ou de Yu-Gi-Oh! — outro fenômeno monumental nascido nas páginas dos mangás e telas de anime que segue arrastando multidões —, aquele pedaço de papel é seu de forma absoluta. Nenhuma corporação pode dar um “takedown” na sua gaveta, atualizar os termos de serviço do seu fichário ou deletar a sua coleção durante a noite.

Existe um triunfo do átomo sobre o bit. A posse física gera uma conexão tátil e psicológica que o código de programação é incapaz de simular. Em Yu-Gi-Oh!, o grande charme sempre foi o conceito do “duelo real”: o olhar no olho do oponente, a tensão de colocar uma carta virada para baixo na mesa, o barulho característico de embaralhar o deck e a leitura da linguagem corporal do adversário. O ambiente digital tenta reproduzir essa emoção com efeitos visuais e hologramas na tela, mas falha porque elimina o fator humano e a fricção da realidade. No digital, você joga contra um algoritmo. No analógico, você duela com uma pessoa.

Pra fechar!

A ironia máxima da nossa era hiperdigitalizada é que a tecnologia, em vez de matar o papel, virou a infraestrutura que o sustenta. São as comunidades no Discord, os canais de streaming no YouTube e as plataformas de venda online que globalizaram e inflacionaram esse mercado de colecionáveis físicos.

A provocação para esta semana é: em um mundo onde as empresas querem nos convencer de que não possuir nada é o padrão de conveniência, será que o ato de colecionar cartas físicas não virou uma das nossas últimas trincheiras de propriedade real? Da próxima vez que alguém disser que o futuro é 100% digital, mostre a sua carta favorita. Afinal, na nuvem nós somos apenas inquilinos, mas no tabuleiro de mesa, nós ainda somos os donos do jogo.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo