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Sem eira nem beira

Os personagens dos novos contos de Luiz Ruffato não pensam no dia de amanhã em busca de si mesmos

Sem eira nem beira
Sem eira nem beira
Imagem: TV Globo
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O tcheco Jaroslav Hašek escreveu um conto, Conversa com o ­Pequeno ­Miloš, cujo narrador confessa ter abandonado o sobrinho no deserto, deixando-o às mordidas de formigas, de tanto que perguntas do garoto, ininterruptas, o enlou­queciam.

O mineiro de Cataguases Luiz ­Ruffato, em Armadilhas, também escreveu um, Janeiro, em que um menino insiste em fazer perguntas, só que ao pai. O desfecho de Ruffato é, porém, menos cruel e mais anticlimático. Aos personagens acontecerão coisas que à leitura estão indisponíveis, a não ser que devem ir passear na Avenida Paulista, para “ver aquele povo correndo de lá para cá, feito formiga”.

Armadilhas é dividido em duas partes: O Assombro dos Dias e Um Buquê de Flores Artificiais. Janeiro está na primeira e tem duas páginas. A partir deste, que sucede a um conto-haicai e outro de um parágrafo, os contos crescem. Passam a ter três, quatro, e chegam a 16 páginas. Algo que os guia é o desaparecimento.

Em Natal, 1981, um filho exemplar desistiu da vida e “desapareceu de Ubá para sempre”. Em Monalisa, um sujeito vai trabalhar no Iraque e “nunca mais se soube dele”. Gelson, protagonista de A Noite Passada, metido pelos filhos num asilo, encontra-se “alojado nessa espécie de sala de espera da morte”.

Armadilhas. Luiz Ruffato. Companhia das Letras (168 págs.79,90 reais)

“Geraldinho poderia ter se tornado um dos muitos ‘desaparecidos’ da época da ditadura militar”, diz o narrador de Geraldinho, o Vermelho. A maioria das histórias se passa na segunda metade do século XX.

Em A Missão, conto que joga com o morde e assopra de ora manter mistério para gerar curiosidade no leitor, ora revelar partes do mistério para satisfazê-lo, o jovem Abel pega um ônibus ao Rio de Janeiro, não sabemos para quê – nem ele sabe. Trata-se de algo rebelde, revolucionário, em tempos de ditadura.

O tipo de personagens que povoam Armadilhas, o próprio livro lista: “Gente sem eira nem beira, pretos, brancos, mulatos, católicos, crentes, espíritas, umbandistas, que viviam sem pensar no dia de amanhã”. Remete ao mosaico humano de Eles Eram Muitos Cavalos (2001), romance de estreia de Ruffato.

Outro romance seu, Flores Artificiais (2014), está explícito na segunda parte, Um Buquê de Flores Artificiais. Esta começa com uma nota do autor para noticiar a morte de Dório Finetto, personagem do romance e narrador dos contos a seguir. Flores Artificiais são memórias que ­Finetto entregou a Ruffato, dando-lhe carta branca para com elas fazer o que quisesse; ele as editou em forma de romance.

Eles Eram Tão Cavalos, livro de estreia do autor mineiro, lançado há 25 anos, foi adaptado para o teatro

A nota em Armadilhas diz que, com a morte de Finetto, na pandemia, cumpre-se a promessa, feita numa nota de rodapé do romance, de trazer à tona textos do personagem que à época ficaram de fora. É uma confusão proposital entre realidade e ficção.

Finetto trabalhou no Banco Mundial e correu o mundo. Diferentes dos contos da primeira parte, que se passam no interior do Sudeste, os narrados por ­Finetto são cosmopolitas. Têm lugar em Macau, Maputo, Guiana Francesa e Paris, numa comuna no salto alto da Itália etc. São histórias de segunda mão, ouvidas de pessoas desses lugares.

Não são histórias de desaparecimento como as da primeira parte, mas de pessoas que reconhecem o ponto de mudança na vida, quando se encontraram em si mesmas, para o bem ou para o mal.

Luiz Ruffato representa tudo numa linguagem apurada e, às vezes, cinematográfica. Ele também incorpora a seu texto aspectos de oralidade, como a falta de preposição na regência de assistir (“assistir a final do campeonato”, em vez de “assistir à final do campeonato”) e o pronome reto como objeto direto (“Ninguém quis ela”, em vez de “Ninguém a quis”). •


Vitrine

Por Ana Paula Sousa


A Máquina e Nós: Promessas e Armadilhas da Inteligência Artificial (Todavia, 208 págs., 89,90 reais), de Tatiana Roque, professora do Instituto de Matemática da UFRJ, soma-se a um conjunto de livros que buscam entender os impactos da Inteligência Artificial e apontar caminhos para minimizar seus efeitos.


O protagonista de Esta Bruma Insensata (Companhia das Letras, 208 págs., 99,90 reais) é um colecionador de citações que fornece frases ao irmão, um escritor recluso. O brilhante ponto de partida permite que Enrique Vila-Matas faça o que tão bem sabe fazer: jogar, de forma espirituosa, com a ficção e a realidade.


Para quem conhece a literatura de Mariana Enriquez, o gosto da escritora argentina por cemitérios não chega a surpreender. Surpreendentes são os relatos sobre suas visitas a cemitérios de diversas cidades do mundo, reunidos em Alguém Caminha Sobre o Seu Túmulo (Intrínseca, 376 págs., 89,90 reais).

Publicado na edição n° 1429 de CartaCapital, em 09 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Sem eira nem beira’

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