Cultura
Rebobine, por favor
Os relançamentos ganham lugar cativo na programação das salas e alcançam, às vezes, um público maior que o de filmes novos
No último fim de semana, 981 salas do País exibiram Harry Potter e a Pedra Filosofal para comemorar os 25 anos de sua estreia. A ideia da Warner era concentrar as sessões no domingo 30 de agosto. Mas a pré-venda foi tão boa que as exibições foram estendidas até a quarta-feira 2.
Um único dia bastou para que o filme inaugural da franquia ocupasse o segundo lugar no ranking de bilheteria do Filme B, atrás apenas de Homem-Aranha: Um Novo Dia. Detalhe: além de estar disponível no streaming, o filme já tinha sido relançado cinco anos atrás.
A diferença é que, naquele momento, as reestreias eram uma prática esporádica. Hoje chegam a três por semana.
Segundo Viviano, da Warner, 2 milhões de espectadores foram, desde 2021, ver algum Harry Potter nos cinemas. Fraccaroli, da Paris, diz que essa onda tomou o mundo
Em 2025, foram exibidos 1.010 longas-metragens nas salas brasileiras. O número é recorde, mas tem uma característica peculiar: só 42% deles eram estreias. Todo o resto foi relançamento, pré-estreia ou filme do ano anterior que seguiu em cartaz.
Só a Warner, desde o primeiro relançamento de Pedra Filosofal, em 2021, foi buscar em seu acervo outros 20 títulos para colocar no cinema. Hernán Viviano, vice-presidente da Warner Bros. Pictures para a América Latina, conta a CartaCapital que, nesses cinco anos, quase 2 milhões de pessoas pagaram ingresso para ver um filme da franquia – e o número cresceu esta semana.
Em 2025, além de Harry Potter e o Cálice de Fogo (2005), que atraiu, em um dia, 378 mil espectadores, a empresa relançou Interstellar (2014), A Noiva Cadáver (2005) e O Iluminado (1980). Desde 2021, a distribuidora arrecadou 48 milhões de reais em relançamentos – isso sem contar os quase 5 milhões de reais do último domingo.
Imagem: Redes Sociais
“A nostalgia é um ativo cada vez mais relevante na indústria do entretenimento e no comportamento do consumidor”, diz o executivo, colocando a onda vivida pelos cinemas em um contexto mais amplo. As reestreias, reforça Viviano, costumam ter um “caráter de evento”: estão ligadas a datas comemorativas e são, muitas vezes, programadas em salas especiais, como IMAX e 4DX.
Ou seja, elas buscam reproduzir aquilo que se tornou um mantra no mundo offline: a experiência.
Rodrigo Saturnino Braga, ex-executivo da Sony Pictures, hoje à frente do Filme B, diz que os distribuidores, a partir dos resultados de Harry Potter, basicamente, responderam à reação do público. “Coraline, por exemplo, fez mais público no relançamento do que no lançamento!”, conta ele. “O filme foi se tornando conhecido por meio das plataformas e a turma que gosta do filme foi se mobilizando nas redes sociais.”
Curiosamente, o mesmo ambiente digital que tornou menos corriqueiro o hábito de ir ao cinema gerou um desejo por filmes antigos – tanto entre fãs quanto entre novos espectadores. E os protagonistas desse fenômeno parecem ser, sobretudo, os membros da Geração Z – que abarca pessoas nascidas entre 1997 e 2012.
Marketing. A exibição da franquia Jogos Vorazes servirá de “aquecimento” para o novo filme. Os produtores de La La Land aproveitaram o aniversário de 10 anos – Imagem: Lionsgate e Paris Filmes
Tiago Mafra, diretor-executivo da Associação Brasileira das Empresas Exibidoras Cinematográficas Operadoras de Multiplex (Abraplex), cita um levantamento da Fandango, plataforma de venda de ingressos dos EUA, para dar concretude ao papel dos nativos digitais no mercado.
De acordo com a pesquisa, 87% dos jovens da Geração Z foram ao cinema ao menos uma vez nos últimos 12 meses. “É o maior índice entre todas as faixas etárias, à frente dos millennials (82%), da Geração X (70%) e dos baby boomers (58%)”, diz Mafra. “Eles buscam imersão e convívio, não apenas a praticidade de ter o conteúdo na palma da mão. Essa geração uniu os dois mundos: confere estreias nas redes, vai ao cinema e volta ao digital para opinar.”
O bom desempenho de filmes antigos – que não são necessariamente clássicos – coincide com a retração do público pós-pandemia. Em 2025, foram vendidos no Brasil 112,8 milhões de ingressos – 10% menos que em 2024.
A Agência Nacional do Cinema (Ancine), no informe publicado em junho, chamou a atenção para o fato de que, nos últimos três anos, a média de frequência ficou num patamar cerca de 70% inferior à do período entre 2017 e 2019. “Em linha com o que se observa na maioria dos mercados internacionais, verifica-se que o volume de público das salas de cinema tende a se estabilizar em um patamar inferior ao período pré-pandemia”, escreve a Ancine.
Os relançamentos parecem, portanto, fazer parte também de uma tentativa de revitalização de um negócio que a pandemia e o streaming transformaram de modo profundo. “Hoje, eles são usados de forma sistemática para estimular o retorno aos multiplex”, afirma Mafra, observando que as reestreias deixaram de ser algo pontual para integrar a programação “com calendário próprio”.
E isso está longe de ser algo específico do Brasil. Como conta Márcio Fraccaroli, da Paris Filmes, que relançou, há duas semanas, La La Land, a reestreia celebratória de 10 anos partiu dos produtores do filme. “Eu já tinha os direitos, mas paguei por todo o material refeito – novo trailer, novo cartaz”, diz.
Uma de suas apostas foi colocar o musical no Cine Marquise, que tem o sistema Dolby Atmos, com som de altíssima qualidade. Fraccaroli acha, inclusive, que a exibição de shows e eventos nas salas, iniciada pela Trafalgar, contribuiu para a ressignificação do cinema.
“Hoje, os relançamentos são usados de forma sistemática para estimular o retorno aos multiplex”, diz Tiago Mafra, diretor-executivo da Abraplex
Para um distribuidor, diz ele, o relançamento dá não apenas menos gastos como também menos dor de cabeça: “Quando você compara com um filme novo, eles são filmes fáceis de lançar. A gente não tem a necessidade de ficar brigando por sessão, por sala. Não tem a exigência comercial de passar de quinta a domingo”.
Como observa Saturnino Braga, é possível, hoje, abrir salas a partir da demanda: “Os exibidores têm as próprias redes sociais. Com isso, também vão medindo de forma mais efetiva o interesse das pessoas”.
E, como sempre acontece, à onda grande se seguem outras, menores. Uma delas é a da reestreia como forma de aquecer os lançamentos. É o que acontecerá com Vingadores, com a franquia Jogos Vorazes – que terá todos os filmes relançados em outubro – e até com Gosto de Cereja (1997), de Abbas Kiarostami, a ser relançado pela Paris no ano que vem.
Depois de fechar a distribuição de O Aroma da Pitanga, adaptação do cult iraniano estrelada por Wagner Moura, Fraccaroli resolveu relembrar os 30 anos da Palma de Ouro para Kiarostami em Cannes e, assim, arar o terreno para o filme novo. “Nesse caso, é estratégia de marketing”, resume.
A estratégia, no entanto, não deixa de ser um reencontro com o que, historicamente, significava uma reestreia na tela grande: a chance de apreciar, em uma projeção de qualidade, um clássico.
“Nos anos 1990, descobri uma empresa que tinha os direitos de O Leopardo e a Pandora relançou o filme no Cinesesc”, lembra o distribuidor André Sturm, também dono do Cine Belas Artes. “Na mesma época, o Grupo Estação trouxe os filmes do Truffaut, a Pandora trouxe o Bergman… A ideia era possibilitar que as pessoas vissem obras clássicas na tela grande. De uns três anos para cá, começaram a relançar qualquer coisa.”
O incômodo, ainda que roce questões estéticas, deriva também do estado de coisas da exibição: “O mercado encolheu, e falta espaço no circuito para lançarmos filmes novos. Tem mesmo sentido ficar colocando em cartaz filmes que não são tesouros do cinema?”
Jean-Thomas Bernardini, que, assim como Sturm, tem uma distribuidora – a Imovision – e um cinema – o Reserva Cultural –, é outro que vê nuances no que está acontecendo.
Em 4K. A Hora da Estrela, depois de passar pelos cinemas, foi licenciado pela Netflix. Durval Discos e Xica da Silva são outros títulos relançados em novas cópias – Imagem: Rede Sociais, Embrafilme e Dezenove Som e Imagem
Em agosto, ele próprio esteve à frente de uma série de relançamentos embalados em uma mostra de cinema pernambucano e tem recolocado na tela títulos europeus de seu catálogo.
Ainda assim, Bernardini pondera: “Com dois ou três relançamentos todas as semanas, vira uma nova concorrência”.
Para o circuito exibidor, por outro lado, é uma possibilidade de levar, com o chamariz do evento, espectadores para as salas vazias e enfrentar os períodos de vacas magras – como foram os meses de junho e julho, quando as festas juninas e a Copa tiraram gente dos cinemas.
Além disso, ainda que muitos dos relançamentos sejam motivados por estratégias sobretudo comerciais, o olhar para o passado – seja ele próximo ou distante – contribui para a memória do cinema e para a formação de público.
O restauro e a digitalização de obras em 4K são, inclusive, partes essenciais dessa história toda. Como lembra Saturnino Braga, a versão em 4K, hoje economicamente mais acessível, serve também para atender aos requisitos tecnológicos das plataformas – cujos acervos são compostos, majoritariamente, por obras com até dez anos de idade.
Na sessão Vitrine Petrobras, voltada à distribuição de filmes brasileiros e à exibição a preços populares, por exemplo, os relançamentos estão diretamente ligados aos processos de digitalização.
O primeiro título antigo exibido no programa foi Durval Discos (2002), de Anna Muylaert. Outros cinco vieram desde então. O último foi Xica da Silva (1976), de Carlos Diegues. E, ao contrário do que acontece com a franquia Harry Potter, fartamente disponível, algumas das obras estavam inacessíveis ou pouco acessíveis.
Publicado na edição n° 1429 de CartaCapital, em 09 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Rebobine, por favor ‘
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