Política
O “amor” tem preço
O impacto econômico do trabalho não remunerado das mulheres equivale a 8% do PIB, calcula um estudo da FGV Ibre
Por trás da rotina de preparar almoço, lavar a louça, limpar a casa, administrar remédios no horário certo e acompanhar filhos ou parentes mais velhos em consultas médicas, mora um motor econômico silencioso. Esse esforço é considerado uma tendência “natural” ao cuidado. Trata-se, porém, de um trabalho pesado e invisível. Não à toa, a filósofa marxista italiana Silvia Federici costuma afirmar que “o que eles chamam de amor, nós chamamos de trabalho não pago”. No Brasil, é possível estimar qual seria o impacto econômico desse “instinto materno”. Apenas as horas semanais trabalhadas pelas mulheres no cuidado doméstico e familiar, sem contar o trabalho formal ou registrado, representariam 8% do Produto Interno Bruto, estima a economista Isabel Duarte, da FGV Ibre.
Duarte chegou a esse “valor” a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. As mulheres – empregadas ou não – dedicam, em média, 21 horas semanais ao trabalho doméstico. Com base nesses dados, foi possível chegar nesse resultado econômico. Ou seja, se o “trabalho invisível” feminino fosse remunerado, o impacto no PIB seria superior ao do agronegócio, que, de acordo com o IBGE, varia entre 6% e 7% todos os anos.
Invisível, mas bem palpável, o ato de cuidar aparece com destaque ao ser apontado como o principal motivo pelo qual as mulheres em idade ativa estão fora do mercado, revela a economista. Com base na Pnad, ela identificou que 47% não têm trabalho formal e, destas, cerca de 30% abriram mão da carreira para cuidar dos filhos ou familiares mais velhos, ou para se dedicar aos afazeres da casa. O mesmo motivo atinge apenas 3% dos homens. “São cerca de 13 milhões de mulheres que alegam não conseguir buscar emprego porque têm de se dedicar ao cuidado.”
“Quando minha mãe adoeceu, imediatamente assumi. Claro que não seriam meus irmãos a largar a vida deles para cuidar dela”, diz mãe solo de três e paciente oncológica
As consequências dessa divisão desigual são muito claras: até hoje, em pleno 2026, as mulheres recebem 20% a menos que os homens, quando desempenham a mesma função nas empresas. “É claro que, para eles estarem totalmente disponíveis, tem uma mulher que mantém a rotina doméstica”, pontua a economista.
Uma pesquisa recente sobre juventude e trabalho da Fundação Itaú com o Datafolha e o Instituto Locomotiva revela que essa dinâmica vem se repetindo com a população mais jovem, evidenciando que pouca coisa deve mudar para a próxima geração. O estudo Juventudes e o Mundo do Trabalho revela que mais de mais de um terço das jovens de 16 a 29 anos não trabalham nem buscam emprego porque precisam cuidar de familiares (21%) e são responsáveis pelas atividades domésticas (15%). A situação se agrava entre as mais velhas, negras e com menor escolaridade. “Essa pesquisa revela uma situação estruturante da própria sociedade de atribuir à mulher o cuidado, mas que, infelizmente, está se reproduzindo na juventude”, avalia Carla Chiamareli, gerente do Observatório Fundação Itaú, responsável pelo levantamento.
“Parece uma ode ao sacrifício feminino”, desabafa a mãe solo de três e paciente oncológica Juliana Lílian Coelho de Andrade. Apesar de uma sólida formação em Turismo e Gastronomia e ampla experiência profissional nas duas áreas, ela está afastada há quatro anos das cozinhas de restaurante, que tanto ama. Além de conciliar o cuidado dos filhos com o tratamento de um câncer raríssimo no cérebro, precisou acolher a mãe, também diagnosticada com a doença. “Quando minha mãe adoeceu, imediatamente assumi a obrigação. Claro que não seriam meus irmãos a largar a vida deles para cuidar dela. Nós somos educadas para sermos as cuidadoras da família.”
Piora com o tempo. A possibilidade de uma mulher arrumar emprego após os 45 anos despenca e taxa de desemprego sobe a 60% – Imagem: SEST/SENAT
Hoje, aos 46 anos, a chefe de cozinha ganha a vida na informalidade, com produção e venda de bordados e bolos por encomenda. Além disso, abre a casa uma vez por mês para oferecer jantares temáticos. “Tenho feito esse malabarismo para conseguir cuidar de todo mundo e obter alguma renda”, explica. Moradora de Petrolina, interior de Pernambuco, ela divide com milhares de mulheres da região as consequências de um deserto de assistência pública, marcado pela escassez de creches e escolas em tempo integral. “Não tem nenhum suporte para a mulher continuar a vida, sobretudo a profissional”, lamenta.
Paralelamente ao abandono institucional que ainda empurra mulheres do País inteiro para longe do mundo do trabalho há ainda a assimetria cultural que tolera a ausência masculina no ato de cuidar. Depois de uma cirurgia para tentar remover o tumor no cérebro de Andrade, em 2022, os médicos deram a ela em torno de seis meses de vida apenas. À época, ela começou a “se organizar” para se despedir dos filhos. “Expliquei a eles, ainda pequenos, o que estava acontecendo e que eu poderia ‘ir embora’ em breve.” Mesmo diante dessa situação, nem o pai da mais velha, que sofre de má-formação e precisa de acompanhamento médico constante, tampouco o pai dos dois mais novos se prontificaram a dividir o cuidado das crianças. “Eles têm essa opção de priorizar a própria vida”, critica a mãe solo.
Com o avançar da idade, as chances das mulheres de voltar para o mercado são ainda menores, revela um estudo da plataforma InfoJobs. Entre as 45+, o índice de desemprego é de 60%. Há um ano e meio em busca de uma nova vaga, a administradora de empresas Ivanilda Alves da Silva é a personalização da estatística. “Parece que, quando você passa dos 49, as portas se fecham e nos tratam como se tivéssemos 101 anos”, se queixa a profissional de 53. Apesar de uma sólida trajetória de mais de 20 anos na indústria e uma transição de carreira bem-sucedida para a área de produção cultural, ela tem percebido um olhar preconceituoso quando entrega o currículo.
Homens ganham mais porque, para estarem totalmente disponíveis, há mulheres que mantêm a rotina doméstica
Na tentativa de combater o estigma, a profissional tem feito uma série de cursos rápidos para se atualizar, principalmente com foco no uso de Inteligência Artificial. “Eu tenho experiência de mercado e entusiasmo para aprender. Ainda assim, o mundo corporativo parece desprezar o conhecimento das pessoas mais velhas.” Agora, porém, a busca por um novo emprego é atravessada também pela rotina de cuidados com a mãe idosa e o irmão portador de deficiência, que demandam muitos acompanhamentos médicos. Ao longo da carreira, explica, conciliar as duas jornadas não chegou a ser um empecilho. “Sempre tive chefes que entenderam minha situação. O problema agora tem sido o preconceito.”
A resposta do Estado para aliviar esse quadro tão preocupante é o Plano Nacional de Cuidados, lançado em julho de 2015. “Quem mais acumula esse trabalho do cuidado não remunerado são as mulheres negras”, explica Joana Passos, secretária nacional de Autonomia Econômica e Cuidado do Ministério das Mulheres. “Uma menina de 12 anos já acumula mais horas de cuidado do que um homem adulto. Essa realidade nos leva a priorizar as meninas jovens, que serão nosso foco para desenvolver políticas públicas de capacitação”, explica.
Base: 347 entrevistas com jovens que não trabalham e não estão procurando emprego
Fonte: Pesquisa Juventudes e o Mundo do Trabalho, da Fundação Itaú com Datafolha e Instituto Locomotiva com 1.816 entrevistados de 16 a 29 anos
Sob o entendimento de que o cuidar deve ser compartilhado entre Estado, empresas e famílias, o Plano envolve 20 ministérios e articula metas para ampliar creches, implantar escolas de tempo integral e criar lavanderias e centros multiuso comunitários. Parte das ações estratégicas também será desenvolvida em parceria com os municípios e estados. O objetivo é transferir esse fardo invisível para o âmbito público e devolver o tempo produtivo e a chance de qualificação para mulheres que hoje vivem no limite da exaustão.
Garantir autonomia financeira é também uma forma indireta de dar mais segurança às mulheres. Passos revela que, entre as vítimas de violência doméstica, 66% não têm renda suficiente para romper a relação abusiva. “Isso significa que, se a gente possibilita autonomia econômica para elas, isso passa a ser uma condição para romper com o ciclo da violência.” Para a secretária, retirar o cuidado da esfera do sacrifício privado, tratá-lo como um dever coletivo, que precisa ser dividido entre a família, as empresas, a sociedade e o Estado, é o único caminho para que as mulheres possam assumir as rédeas de seus próprios destinos. •
Publicado na edição n° 1429 de CartaCapital, em 09 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O “amor” tem preço’
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