Política
Voo cego
O Ministério Público cobra soluções para o caos com helicópteros
“Eu não tenho controle em relação às condições de voo do helicóptero. Apenas sou avisado de que vai acontecer a parada para a manutenção da máquina, que é prevista antecipadamente pela empresa. Mas não sou informado sobre a validade das peças ou sobre os prazos de manutenção.” A duas semanas da audiência pública que reunirá Ministério Público Federal, governo e prefeitura do Rio de Janeiro, Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) e Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para discutir as condições de segurança e fiscalização dos voos turísticos e panorâmicos na capital fluminense, o relato do piloto Cícero (nome fictício) mostra a persistência de uma das muitas lacunas operacionais em uma atividade que, mais que um problema de ordem urbana, traz riscos de morte a turistas e cariocas.
Outro problema revelado por Cícero – que tem cinco anos de trabalho no setor – e confirmado por outros profissionais ouvidos por CartaCapital, é o regime de trabalho dos pilotos. Ele pode ser exaustivo, sobretudo durante o verão, o que também compromete a segurança de voo. “A carga horária é bem aleatória nas empresas, mas no geral são inúmeros voos durante o dia todo. A maioria das empresas trabalha com freelancers. É o cara que vai chegar ali e fazer uma diária como piloto”, explica. Nos dias com muita procura pelos turistas, o horário de almoço normalmente não é respeitado, diz Cícero. “O último voo antes do almoço sempre atrasa e o primeiro voo após o almoço nunca pode atrasar. O piloto acaba ficando espremido, às vezes com meia hora, ou até menos, para o almoço, dependendo da correria”, revela o profissional.
Após a queda de um helicóptero na Vista Chinesa, mirante próximo ao Corcovado, em 8 de agosto, que causou a morte do piloto e de três turistas colombianas, o MPF deu entrada em uma ação civil pública para obrigar que os três níveis de governo estabeleçam um programa para moralizar o setor. Somente em 2026 já ocorreram três acidentes com 13 mortos no Rio. A ação, que também investiga a empresa Voos Rio Panorâmico, responsável pela comercialização do pacote turístico e pela operação da aeronave acidentada, aponta o excesso de voos desse tipo no Rio: em apenas um ano, foram 24,6 mil decolagens e 81,4 mil passageiros. Nos últimos dez anos ocorreram 47 acidentes com 38 mortes na cidade.
O ação aponta desrespeito a rotas e altitude, uso excessivo das aeronaves e jornada exaustiva
A ação do MPF aponta e pede soluções imediatas para problemas estruturais, como poluição sonora, desrespeito às rotas estabelecidas e à altitude mínima de voo, uso excessivo das aeronaves e jornada exaustiva de trabalho. E determina que os voos turísticos e panorâmicos obrigatoriamente utilizem a Rota Especial de Helicópteros Praia (REH Praia), corredor aéreo já existente ao longo do litoral carioca e situado a 600 metros da faixa de areia. “Sua utilização como corredor ordinário para o transporte remunerado de passageiros permitiria reduzir a exposição de áreas densamente habitadas ao ruído e aos riscos associados à concentração dessas operações”, diz o MPF, ressaltando que o único dos acidentes recentes ocorridos sobre o mar, em abril, com a queda de um helicóptero na orla da Barra da Tijuca, terminou sem vítimas fatais.
Também sob anonimato, um especialista em segurança de voo com duas décadas de experiência no setor afirma que há falhas na fiscalização feita pela Anac. Por isso, é impossível saber se os pilotos estão de fato utilizando a REH Praia e respeitando as altitudes mínimas. “É fundamental que as empresas sofram uma vistoria sobre manutenção, documentação e treinamentos obrigatórios”, diz. Também é preciso combater os helicópteros particulares que fazem fretamento clandestino. “E talvez limitar o número de helicópteros voando sobre o Cristo Redentor, por exemplo. Em um domingo de sol podemos avistar até cinco aparelhos no mesmo sobrevoo”, destaca. O risco é enorme: “Existe uma troca de frequências de coordenação dos helipontos que, às vezes, complica o piloto. Quem vem do Aeroporto de Jacarepaguá usa uma frequência, após a Pedra da Gávea muda para outra. Já em Botafogo utilizamos a frequência do Aeroporto Santos Dumont. Vários pilotos desqualificados erram.”
A Anac suspendeu a operação da Voos Rio Panorâmico e de outras três empresas (Broad Fly, Nobre Turismo e Mr. Top Fly) e determinou que nove aeronaves operadas por elas permaneçam em solo. Segundo a auditoria feita pela agência, duas destas empresas fraudavam reiteradamente os documentos que atestavam as horas de voo, no intuito de aumentar o intervalo entre as manutenções. Outro problema detectado é a falta de documentos que atestem que as empresas utilizam o Sistema de Gerenciamento da Segurança Operacional (SGSO), que detalha as medidas a serem tomadas nos casos de panes e pousos de emergência. Presidente da Anac, Tiago Faierstein afirma que a agência reguladora faz o que pode. “O Brasil tem a segunda maior frota de helicópteros do mundo. É impossível atuarmos de forma minuciosa em todo o País.”
Panorâmico. Só em 2026, foram três acidentes com 13 mortos no Rio. Nos últimos dez anos, a cidade contabilizou 47 acidentes com 38 mortos – Imagem: Tércio Teixeira/AFP e Redes Sociais
Autor da ação no MPF, o procurador Sérgio Suiama diz que a decisão da Anac não é satisfatória, porque seu principal fundamento – os riscos de acidente e a poluição sonora – não foi contemplado. “Há pelo menos outras dez empresas operando diariamente na cidade com voos panorâmicos”, informa. O MPF não pretende pedir a proibição dos passeios turísticos de helicóptero, mas Suiama afirma que não é razoável que uma atividade usufruída por poucos exponha centenas de milhares de moradores e áreas ambientalmente protegidas aos impactos dos sobrevoos. A prefeitura anunciou que, além da Voos Rio Panorâmico, outras quatro empresas foram proibidas de operar a partir do heliponto da Lagoa. “Estamos avançando na construção de um acordo com a Anac”, diz o prefeito Eduardo Cavaliere.
Enquanto as medidas necessárias não se concretizam, o setor segue bombando. Segundo dados das empresas, cerca de 70 voos de helicóptero para passeio turístico decolam diariamente no Rio, com uma média de 220 passageiros. Ao todo, 12 empresas e 46 helicópteros têm licenças para voos panorâmicos na cidade. Quem opera na legalidade também está ansioso por soluções. “A gestão dos voos turísticos no Rio pode ser melhorada com uma fiscalização mais firme no que concerne à manutenção e à segurança operacional. Isso vai fazer com que as empresas fiquem mais atentas”, diz Rodrigo Mouzo, sócio da Rio Blue Sky. Ele avalia, porém, que não há um número excessivo de voos. “A demanda aumentou bastante nos últimos anos, o voo panorâmico tem ficado cada vez mais em evidência, mas ainda tem muito mercado a ser explorado”, conclui. •
Publicado na edição n° 1429 de CartaCapital, em 09 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Voo cego’
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