Política

O reduto eleitoral como território

De que modo o crime organizado disputa o voto no Brasil

O reduto eleitoral como território
O reduto eleitoral como território
Tá dominado. Eleição decidida pelo Comando Vermelho levou o Exército a escoltar as urnas no Ceará – Imagem: Exército Brasileiro/TRE/AM
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Em outubro de 2025, Santa Quitéria, cidade de 43 mil habitantes no interior do Ceará, votou sob escolta do Exército. Não havia guerra nem catástrofe natural, mas uma eleição suplementar convocada após a Justiça descobrir que o prefeito e o vice haviam sido eleitos, um ano antes, com ajuda do Comando Vermelho. Pichações ameaçavam de morte quem apoiasse o adversário, mensagens prometiam expulsar da cidade quem não votasse “certo” e um carro de luxo comprado em Fortaleza foi levado à Rocinha, no Rio, como agradecimento a um traficante nascido ali.

O Tribunal Regional Eleitoral do ­Ceará chamou o caso de o mais grave já julgado em sua história. Mas não é um episódio isolado. De Belford Roxo (RJ) a Cotia (SP), repetem-se casos de influência de organizações criminosas sobre a política: um vereador que chefiava uma milícia foi barrado pelo TSE mesmo sem condenação; um candidato a deputado estadual foi preso por operar lavagem de dinheiro do PCC; e vereadores de três cidades paulistas foram presos, suspeitos de fraudar licitações a mando da facção. Juntos, esses episódios mostram como dominar um território passou a significar não apenas controlar o tráfico ou cobrar propina, mas eleger pessoas.

Duas tradições de pesquisa ajudam a entender o fenômeno: a sociologia da violência urbana, que analisa como organizações armadas constroem autoridade sobre territórios e populações, e a ciência política, que observa o que ocorre quando esse domínio encontra eleições, partidos e burocracias públicas. Em conjunto, elas mostram não uma passagem automática do crime ao voto, mas os mecanismos que tornam essa conversão possível.

O crime organizado acumula poder por duas vias que nem sempre caminham juntas: território e rede. O território é a face mais visível, partindo de ocupar um espaço e passando a regular a vida cotidiana, cobrar taxas, limitar concorrentes e usar a violência para sustentar uma ordem local. É esse poder que operações como a Ícaro, em Minas Gerais, tentam interromper.

A rede raramente é composta apenas por criminosos. A mercadoria política existe porque agentes do Estado aceitam negociá-la

A rede funciona de outro modo: traficantes, lideranças comunitárias, policiais e políticos conectam-se por relações que atravessam fronteiras territoriais. Michel Misse chamou essa troca clandestina de “mercadoria política”, quando agentes do próprio Estado transformam proteção, informação ou influência em recursos negociáveis. Nesses casos, o crime não precisa dominar fisicamente um território, mas alcançar posições estratégicas.

Essa diferença ajuda a compreender milícias e facções. O domínio miliciano depende fortemente da ocupação física e ostensiva, enquanto o PCC também se apoia em redes disciplinares que conectam cárcere e rua. As operações analisadas mostram as duas lógicas: coerção territorial no Ceará e na Paraíba e redes políticas e financeiras no Rio e em esquemas atribuídos ao PCC. Esse poder de regular populações é chamado, na literatura, de governança criminal.

A rede raramente é composta apenas de criminosos. A “mercadoria política” existe porque agentes do próprio Estado aceitam negociá-la: o policial que antecipa uma operação, o servidor que aprova uma licença irregular ou o político que indica alguém para um cargo em troca de apoio.

As investigações mostram esses personagens. Na Operação Unha e Carne, a Polícia Federal encontrou o nome de um delegado federal em planilhas de pagamentos atribuídos ao contraventor investigado, ao lado de deputados e do ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar, acusado de interferir em nomeações de secretarias estaduais. No balanço de 2025 do Gaeco do Ministério Público do Rio, entre os denunciados por ligação com organizações criminosas, estavam servidores do sistema socioeducativo, do órgão ambiental e ex-secretários municipais. Ao decretar a prisão preventiva de Bacellar, o ministro Alexandre de Moraes apontou fortes indícios de participação em organização criminosa, com atuação voltada à obstrução de investigações e à interferência no Poder Executivo estadual. Esses casos mostram por que reduzir essas redes ao “mundo do crime” é um erro. A “mercadoria política” depende justamente da conexão entre mercados ilegais e posições formais de autoridade.

Imagem: Rafael Campos/GOVRJ

Antes de qualquer disputa eleitoral, uma organização criminosa instalada em um território pode alterar profundamente a vida cotidiana. A “sociabilidade violenta” descreve situações em que a força deixa de ser excepcional e passa a orientar relações sociais. Mercados ilegais produzem redes, reputações e formas próprias de regulação. Códigos do “mundo do crime” e, no caso do PCC, o “proceder” regulam conflitos e comportamentos onde a Justiça formal é distante ou lenta. Isso não significa adesão homogênea da população. O ponto central é que, ao mediar conflitos e impor regras, uma organização acumula recursos sociais que podem, em determinadas condições, ser mobilizados politicamente.

A ciência política entra quando a ordem territorial encontra a política institucional. Organizações armadas podem oferecer intermediação eleitoral, mobilizar eleitores, proteger campanhas ou neutralizar adversários. Outra consequência é a redução da competitividade: quanto maior o domínio armado, menor a capacidade de outros grupos disputarem política nesses territórios. Em Sobral, a Operação Omertà investigou um “pedágio eleitoral” de até 60 mil reais cobrado de candidatos para entrar em áreas sob influência do Comando Vermelho.

Depois da eleição, o apoio eleitoral pode ser trocado por proteção institucional, nomeações e influência sobre políticas públicas. Em Belford Roxo, investigados com candidaturas barradas chegaram a ocupar cargos no Executivo municipal. A captura, portanto, pode sobreviver mesmo quando a via eleitoral direta é fechada. A coerção também eleva o custo financeiro e físico da oposição e pode afastar candidaturas independentes.

O problema ultrapassa a segurança pública porque atinge as condições anteriores ao voto. Uma eleição pode ser formalmente regular e, ainda assim, ocorrer em ambiente no qual medo, dependência econômica ou coerção territorial reduzem a liberdade de escolha. A erosão democrática, nesse caso, começa antes da abertura das urnas. A disputa central dos próximos pleitos será saber se o Estado conseguirá limitar essa transformação do poder criminal em poder político antes que redes armadas e ilícitas passem a interferir de forma estável sobre quem pode concorrer, fazer campanha e governar. •


*Integrante do Centro de Pesquisa em Criminalidade (Crisp/UFMG).
O projeto Observatório das Eleições 2026 é uma iniciativa do professor titular aposentado Leonardo Avritzer, sob a coordenação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Instituto de Estudos sobre Política e Integridade Eleitoral (Iepi). O Observatório tem o objetivo de monitorar grandes questões e elementos relativos às eleições, de modo mais geral, e aos processos eleitorais especificamente. A iniciativa contempla destacada produção acadêmica e jornalística desde 2018, tendo tido diversos parceiros, tanto no campo do financiamento quanto no campo da divulgação.

Publicado na edição n° 1429 de CartaCapital, em 09 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O reduto eleitoral como território’

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