Mundo
Saqueadores e fantoches
Trump toma o petróleo do país, sob aplauso dos amigos de Maduro
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou na sexta-feira 28 ter alcançado um “acordo” com a Venezuela para “assegurar o controle majoritário” de 65 bilhões de barris de óleo bruto, o que equivale a um quinto da maior reserva de petróleo do planeta. Considerando que os norte-americanos invadiram militarmente a Venezuela em janeiro, depuseram e prenderam Nicolás Maduro e instituíram no lugar um governo marionete, liderado pela vice, Delcy Rodríguez, que governa sob estrito controle de Washington desde então, o tal “acordo” ao qual o republicano se refere só pode ser alcançado por dois motivos: foi imposto goela abaixo da população e contou com a anuência de uma burocracia estatal que, embora tenha chegado ao poder com um discurso de esquerda, tornou-se nos últimos anos uma matéria ideologicamente amorfa e adaptável às conveniências e à própria sobrevivência.
O “acordo” foi saudado não só por Rodríguez, mas pelo Partido Socialista Unido da Venezuela, legenda tanto de Hugo Chávez quanto de Maduro, que, em nota, expressou seu “pleno respaldo” ao plano que “prioriza os interesses nacionais”. A nota do PSUV vai na contramão do que Chávez disse quando ainda estava vivo e no cargo: o petróleo venezuelano não poderia nunca cair nas mãos dos Estados Unidos. Assim como ele, outro líder histórico do chavismo, Diosdado Cabello, ex-ministro do Interior e ex-presidente da Assembleia Nacional, sempre jurou de pés juntos que a soberania venezuelana seria mantida a todo custo diante do assédio norte-americano. Só que, uma vez o acordo anunciado, o mesmo PSUV ao qual todos eles pertencem optou por uma leitura absolutamente pragmática, ao dizer que o trato oferece “soluções reais para a reativação econômica e a recuperação dos serviços públicos”. O documento menciona ainda a injeção de recursos em uma economia combalida não apenas por anos de sanções e embargos, mas pelo duplo terremoto que, em 24 de junho, deixou mais de 6,5 mil mortos e milhares de desabrigados.
Rodríguez falou do “histórico acordo” em rede nacional de rádio e tevê, dizendo que o negócio “terá impacto significativo no renascimento da nação”. Para ela, o acerto é “produto do fortalecimento da relação entre a Venezuela e os Estados Unidos”, não de uma imposição neocolonial violenta, como grande parte das esquerdas, inclusive no Brasil, interpretaram. A presidente não se queixou de imposições externas, ao contrário, agradeceu nominalmente a Trump e ao secretário de Estado, Marco Rubio.
Os “chavistas” se adaptam às conveniências e se apegam à própria sobrevivência no poder. A oposição fica a ver navios
Por sua vez, a oposição venezuelana, que sonhava em finalmente chegar ao poder, depois da deposição e da prisão de Maduro, ficou a ver navios. Mais uma vez, Trump e Rubio preferiram fechar negócio com um governo fantoche em vez de criar condições para a líder oposicionista María Corina Machado ou Edmundo González Urrutía voltarem triunfantes a Caracas. Corina Machado tornou-se mundialmente conhecida por doar a Trump o Prêmio Nobel da Paz recebido em outubro. Urrutía diz ter vencido a eleição presidencial de julho de 2024, cujas atas finais nunca foram apresentadas por Maduro.
Com um governo fantoche nas mãos e um quinto das reservas de petróleo da Venezuela no bolso, Trump simplesmente descartou o movimento oposicionista venezuelano, que, por causa disso, passou a protestar em voz alta. Expoente da oposição, o economista venezuelano Ricardo Hausmann, que por anos arquitetou em parceria com os Estados Unidos a queda de Maduro, mandou uma mensagem pública a Trump: “Você decidiu usar o poder dos Estados Unidos não para libertar os venezuelanos, mas para se aliar aos nossos opressores”, em referência a Rodríguez e à cúpula do PSUV.
Hausmann argumentou ainda que o atual governo venezuelano nem sequer tem poder legítimo para celebrar esse acordo – e aqui entra um ponto nebuloso, que pode mandar o negócio por água abaixo. A rigor, o mandato cumprido por Rodríguez é contestável. Se, como os Estados Unidos dizem, Maduro era um ditador ilegítimo que se mantinha ilegalmente no poder, o mesmo então deve ser dito sobre a sua vice. No lugar dela, pela lógica de Washington e da Europa, quem deveria estar no poder é Urrutía, que teria vencido as últimas eleições presidenciais, contra Maduro. Além disso, com ou sem legitimidade, a presidente teria a obrigação de submeter o acordo à Assembleia Nacional, cujas composição e legalidade também são objeto de contestação há anos. Ou seja, existe a possibilidade de impugnação da validade do trato quando Trump e Rodríguez deixarem os respectivos cargos. Para um investimento de curto prazo, não seria problema, mas os contratos discutidos chegam a cem anos, o que agrega uma tremenda incerteza jurídica sobre a sua viabilidade. “Esse acordo é a síntese da atual situação da relação bilateral”, afirma a professora Carolina Pedroso, doutora em Relações Internacionais pela Unesp, cujo tema de pesquisa é exatamente o relacionamento entre Venezuela e Estados Unidos. Para ela, o acordo “consolida um ganha-ganha ideologicamente improvável, mas pragmaticamente possível, no qual o petróleo é dado em troca de sobrevivência política da ala hegemônica do chavismo, mesmo assentado sob um equilíbrio precário que, a depender da correlação de forças internas, tanto na Venezuela quanto nos EUA, pode mudar”.
Tanto Trump quanto Delcy, nota Pedroso, “conseguem vender para os respectivos públicos internos a narrativa de vitória e de que todos saem ganhando”, e isso é mais fácil de ser feito “quando se tem pouca ou nenhuma transparência”. A falta de transparência no acordo é, aliás, o principal assunto interno na Venezuela agora, pois a Assembleia Nacional, de ampla maioria governista, aprovou na terça-feira 1º o acordo energético com os EUA, sem, no entanto, poder se debruçar sobre o inteiro teor do documento, que segue desconhecido. “Temos a obrigação de saber o que está escrito nas letras pequenas do contrato”, protestou o deputado Luis Emilio Rondón, do partido opositor Um Novo Tempo. •
Publicado na edição n° 1429 de CartaCapital, em 09 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Saqueadores e fantoches’
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