Editorial

O Supremo vandalizado

O ministro André Mendonça produz o seu 8 de Janeiro particular

O Supremo vandalizado
O Supremo vandalizado
Sozinho, Mendonça causou mais estragos no STF do que a turba de aloprados. Abaixo, duas reportagens de capa servem de prelúdio – Imagem: Sergio Lima/AFP
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Duas reportagens de capa assinadas por André Barrocal servem de prelúdio para o espetáculo em curso. Embora manjado, o golpe nunca deixa de enganar os incautos. E de produzir os efeitos desejados, em maior ou menor medida. Na edição 1410, de 29 de abril, sob o título “Na Mira”, CartaCapital detalha o especial interesse do ministro André Mendonça em recolocar o desafeto Alexandre de Moraes no centro das investigações sobre as falcatruas do Banco Master. No número 1425, de 12 de agosto, descrevemos os pesos e medidas do “juiz torcedor”, Mendonça, empenhado em desviar o foco das denúncias contra Flávio Bolsonaro, representante do clã que o instalou em uma cadeira no Supremo Tribunal Federal.

Nestes meses, o magistrado “terrivelmente evangélico” cumpriu sua missão com a devoção de um talibã. Os vazamentos das conversas de Fábio Luís, filho do presidente Lula, com a empresária Roberta Luchsinger, na esteira do inquérito que apura os desvios no INSS, foram uma tentativa de igualar o campeonato da corrupção quando a opinião pública estava interessada em conhecer o destino do dinheiro repassado pelo banqueiro Daniel Vorcaro para supostamente financiar a “obra-prima” Dark Horse, cinebiografia de um condenado por tentativa de golpe. Nem se compara, porém, à mais ousada emboscada de Mendonça. A exposição, na terça-feira 1º, das relações de Moraes com Vorcaro reverbera além do gabinete do ministro alvejado. Incita a desconfiança pública em relação ao STF e se estende à Procuradoria-Geral da República e ao comando da Polícia Federal.

É desnecessário afirmar que Moraes deve muitas e convincentes explicações, se possível. A oferta de cartões de crédito aos filhos do ministro, os agrados variados à família, a revisão pelo magistrado do contrato do escritório da esposa, Viviane Barci, e as mensagens enviadas pelo banqueiro às vésperas de sua prisão tornam praticamente insustentável a sua permanência na Corte. Caso a maioria dos pares decida rejeitar a abertura de um inquérito contra o colega, a crise institucional contaminará todo o ambiente.

Tão importante quanto escrutinar o comportamento de Moraes é, no entanto, decifrar as intenções de Mendonça. E o timing. O escudeiro da família Bolsonaro partiu para o tudo ou nada e decidiu produzir um 8 de Janeiro particular, ao vandalizar a instituição da qual faz parte. Abriu o sigilo de um relatório preliminar a respeito de Moraes horas depois de vir à tona um pagamento extra de Vorcaro a Flávio. Optou por abrir as portas do inferno, conforme a avaliação de fontes do tribunal.

A terra arrasada planejada pela República de Curitiba desaguou na eleição de Jair Bolsonaro em 2018, desfecho só possível por conta da demolição da institucionalidade pela Lava Jato, com aval das Cortes superiores. Mendonça agora salga o solo para que nada frutifique.

Há, ressalte-se, uma notável diferença: os entusiastas da operação camicase do ministro não poderão, como fizeram após 2018, alegar inocência se a barbárie miliciana se reinstalar no País. Eles sabem muito bem o que fazem. •

Publicado na edição n° 1429 de CartaCapital, em 09 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O Supremo vandalizado’

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