Colunas
Lula é questão de salvação nacional
Eleger um candidato entreguista é permitir ao Império submeter o Brasil ao seu controle sem disparar um único tiro
A CartaCapital é um veículo eminentemente progressista. O leitor ou a leitora que me lê agora é de esquerda ou centro-esquerda, suponho. Hoje quero conversar com vocês direta e confidencialmente sobre a emergência nacional que enfrentamos nas eleições de outubro. Se houver algum bolsonarista extraviado por esta página, peço a ele a gentileza de se retirar.
E prossigo. Creio que podemos dividir a esquerda brasileira atual em três grandes blocos. Um, primeiro, é a esquerda lulista, totalmente fiel ao presidente da República. Não faz críticas a ele e rejeita liminarmente quem as faça, seja pela direita e mesmo pela esquerda. Tem ódio visceral ao “fogo amigo”, que considera inoportuno, quase uma traição. O segundo bloco é a esquerda radical, geralmente marxista ou quase marxista. Revoltada com o Lula 3, declara enfaticamente que ficará neutra em 2026. O terceiro é a esquerda crítica, que também está desiludida com o Lula 3. Vinha fazendo críticas ao governo e não renega essas críticas, mas vai votar pela reeleição do presidente. Faço parte do terceiro. E queria me dirigir hoje a esse bloco e, especialmente, ao segundo bloco.
Amigos da esquerda radical, faço um apelo: não se deve perder de vista que a eleição de 2026 representa um risco existencial para o Brasil, particularmente por sua dimensão internacional. O Imperialismo dos Estados Unidos entrou em nova fase, de muita agressividade, em especial para com a América Latina, que é apresentada oficialmente como área de influência e até mesmo quintal estadunidense. O que aconteceu com a Venezuela em 2026 é um alerta gigantesco para toda a região.
Nesse ambiente, eleger um candidato entreguista é um risco enorme. Permitiria ao Império submeter o Brasil, maior país da América Latina, à sua influência e controle sem disparar um único tiro. Flávio Bolsonaro, notadamente, combina exatamente com os planos dos Estados Unidos. Trata-se de um candidato a vassalo, condição que ele revela sem nenhuma vergonha. Relembro um exemplo recente e verdadeiramente estarrecedor. Veio a público uma carta de Marco Rubio, o ministro das Relações Exteriores de Trump (aquele que parece ter sido escalado para ser uma espécie de vice-rei da América Latina), em que ele agradece a Flávio Bolsonaro – veja bem, leitor ou leitora – por ter oferecido, caso eleito, a criação de um grupo de transição com o governo dos Estados Unidos! É uma oferta inacreditável. Grupos de transição podem constituir uma ponte entre dois governos nacionais para facilitar a mudança do governo que está saindo para o governo eleito. Não me consta que haja precedente para a oferta de Flávio Bolsonaro. Perto disso, Roberto Campos (o avô), o grande defensor do alinhamento aos Estados Unidos em outros tempos, faz figura de fervoroso patriota. Já podemos reimaginar Roberto Campos (que ficou conhecido em sua época com “Bob Fields”) hierático, perfilado sem pestanejar perante a bandeira e o hino nacionais.
Em contraste, Lula oferece um nacionalismo discreto, equilibrado. Verdade que esse nacionalismo é, às vezes, mais retórico do que prático. Mas o fato é que ele oferece alguma contestação, ainda que cautelosa, ao projeto imperial dos Estados Unidos. Justiça seja feita. Embora infestado de neoliberais e conservadores, o governo Lula 3 enfrentou bem algumas questões desafiadoras. Dou apenas um exemplo: a postura do presidente brasileiro perante o genocídio praticado por Israel contra os palestinos. Lula foi claro nesse ponto em mais de uma ocasião. Fez pronunciamentos de crítica ao governo Netanyahu que repercutiram mundialmente. Já Flávio Bolsonaro, na mesma linha que seu pai, é um sionista desbragado. Fez diversos gestos e pronunciamentos de adesão a Israel. Só isso já seria suficiente para não votar nunca nessa figura deplorável – e para não facilitar a sua eventual eleição optando pelo voto nulo.
Para os meus correligionários do terceiro bloco, que chamei de esquerda crítica, digo apenas o seguinte: não faremos, eu sei, como fizemos na eleição de 2022, pelo menos não na mesma medida, o trabalho de formiguinha de conquistar alguns votos para Lula. Falta-nos a convicção decorrente da esperança que a volta de Lula então suscitava. Mesmo assim, meu apelo é: tentem ganhar nem que seja um voto, um único e mísero voto para ele. Assim, você trará pelo menos dois votos para nos afastar do precipício à beira do qual estamos.
Finalmente, um pedido aos lulistas do bloco 1: que a lealdade de vocês a Lula se traduza em uma luta corpo a corpo, renhida, junto aos indecisos para ganhar votos para a reeleição. Afinal, de que serve uma lealdade que não se traduz em esforços práticos?
Votar em Lula, conquistar votos para ele, é questão de salvação nacional! •
Publicado na edição n° 1429 de CartaCapital, em 09 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Lula é c de salvação nacional’
A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.




