Do Micro Ao Macro

Empresa que mais contrata serviços no Brasil não é a que mais paga por eles, aponta levantamento de NFSe

Levantamento com mais de 40 milhões de notas fiscais mostra que volume e valor contratado seguem lógicas opostas no país

Empresa que mais contrata serviços no Brasil não é a que mais paga por eles, aponta levantamento de NFSe
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As notas fiscais de serviço eletrônicas, as NFSe, movimentaram R$ 277,3 bilhões no Brasil entre janeiro e junho deste ano. O montante saiu do cruzamento de 40,4 milhões de documentos fiscais e mostra que o mercado de contratação de serviços opera com duas lógicas separadas: uma pautada pelo volume de notas emitidas e outra concentrada em operações de valor mais alto.

Em quantidade, o varejo aparece à frente dos demais setores, com 11 milhões de NFSe recebidas, cerca de 27% da base analisada. A posição reflete uma operação que depende de manutenção, tecnologia, transporte e infraestrutura para funcionar todos os dias.

Quando o critério passa a ser o valor, a ordem se inverte. O varejo cai para o terceiro lugar, com R$ 36,01 bilhões, atrás do próprio setor de serviços, que soma R$ 71,2 bilhões, e da indústria, com R$ 44 bilhões, cerca de 16% de todo o montante do estudo.

Os números fazem parte de um levantamento da Qive, plataforma de contas a pagar, referente ao período entre 1º de janeiro e 12 de junho. Segundo a empresa, boa parte da contratação de serviços acontece dentro do próprio setor: R$ 30,44 bilhões circulam entre empresas de serviços, o maior fluxo identificado na base.

O peso do setor na economia ajuda a explicar o interesse pelos dados. Em 2025, os serviços responderam por R$ 7,6 trilhões do valor adicionado brasileiro, cerca de 69% do total, segundo o IBGE. Até então, esse mercado era acompanhado sobretudo por indicadores macroeconômicos, com pouca visibilidade em dados fiscais padronizados.

Volume de NFSe favorece o varejo

Entre os serviços com mais notas emitidas na rotina das empresas estão manutenção e conservação de máquinas, veículos e equipamentos, com 4,7 milhões de documentos. Na sequência vêm o licenciamento de softwares, com 4,4 milhões, o transporte municipal, com 3,3 milhões, o agenciamento e a intermediação de títulos e contratos, com 3,2 milhões, e o processamento e a hospedagem de dados, com 1,9 milhão.

Valor inverte a ordem da lista

Quando o critério passa a ser o valor movimentado, a lista muda por completo. A execução de obras por empreitada lidera, com R$ 34,4 bilhões, seguida pelos serviços hospitalares, clínicos e laboratoriais, com R$ 14,2 bilhões. Depois aparecem a manutenção de máquinas, veículos e equipamentos, com R$ 13,8 bilhões, o licenciamento de software, com R$ 12,3 bilhões, e a armazenagem, com R$ 9,6 bilhões.

Para Daniel Paschino, CFO da Qive, a diferença mostra que frequência de contratação e impacto financeiro seguem lógicas distintas. “Esse cenário mostra que as empresas convivem diariamente com duas dinâmicas muito diferentes. De um lado, milhares de contratações recorrentes garantem a continuidade da operação. De outro, um volume menor de notas de alto valor concentra uma parcela significativa da exposição financeira. Cada uma dessas realidades exige modelos próprios de governança, controle e gestão. Na rotina recorrente, o desafio é processar volume com padronização, automação e tratamento eficiente de exceções. Nos grandes projetos, cada documento exige mais controle sobre contrato, aprovação, retenção fiscal e impacto no caixa. Os dois fluxos chegam ao contas a pagar, mas não podem ser administrados com a mesma régua”, afirma o executivo.

Serviços contratam entre si

O desafio de gestão apontado pelo executivo ganha camada extra quando se observa o ciclo de uma contratação de serviço. Para ele, aplicar controles diferentes por tipo de operação exige planejamento antecipado, já que a conformidade começa antes da emissão do documento fiscal.

“O fluxo de pagamento de um serviço não começa quando a nota chega no contas a pagar. Ele se inicia muito antes: na escolha do parceiro, na homologação de fornecedores, na verificação de licenças, na definição clara de onde o serviço será prestado e no acompanhamento da entrega. Quando essas informações operacionais não estão integradas desde o início, as áreas fiscal e financeira são obrigadas a reconstruir todo esse histórico na hora de validar a nota, um momento em que a margem para corrigir erros é quase nula e o risco de prejuízo é alto. Em contratos complexos ou recorrentes, focar apenas no menor preço sem essa visão integrada de ponta a ponta costuma custar muito mais caro no final”, diz Paschino.

São Paulo concentra as NFSe do país

A distribuição geográfica repete a concentração observada na atividade econômica. São Paulo recebeu cerca de 16 milhões de NFSe, ou 40% do volume da base, e R$ 107,6 bilhões em serviços contratados, próximo de 39% do total movimentado. Depois aparecem Rio de Janeiro, com R$ 39,2 bilhões, Minas Gerais, com R$ 23,3 bilhões, e Paraná, com R$ 16,5 bilhões. Na ponta de prestador de serviços, o estado emitiu 17,4 milhões de notas, somando R$ 104,7 bilhões.

Outro ponto do levantamento é que 56,2% das notas do período foram emitidas entre prestador e tomador do mesmo estado, sinal de que a economia de serviços ainda depende de fornecedores próximos, mesmo com o avanço da prestação remota.

Reforma tributária aparece nas NFSe

A mesma base também mostra a adaptação das empresas à reforma tributária. Entre as 40,4 milhões de NFSe analisadas, 17,6% já traziam preenchidos os campos do Imposto sobre Bens e Serviços e da Contribuição sobre Bens e Serviços, o que indica transição gradual para o novo modelo.

Para Paschino, os dados fiscais deixam de ser apenas obrigação regulatória. “Estamos vivendo um momento em que os dados fiscais deixam de ser apenas uma obrigação regulatória e passam a gerar inteligência de negócios. Quanto mais as empresas conseguem transformar essas informações em conhecimento sobre sua operação, mais preparadas estarão para tomar decisões, reduzir desperdícios e ganhar competitividade”, diz o executivo.

O levantamento reúne 40,4 milhões de NFSe emitidas entre 1º de janeiro e 12 de junho, processadas pela Qive nos municípios integrados ao padrão nacional do documento. Os números representam a amostragem coberta pela plataforma, e não o volume total do mercado brasileiro de serviços.

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