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A crise no STF me fez recordar uma antiga lição paterna
Meu pai aposentou-se em 1965 por temer a invasão de suas prerrogativas de juiz independente por um esbirro fardado dos golpistas de 1964
Os encontros e desencontros nas cercanias do Judiciário brasileiro, leia-se Supremo Tribunal Federal, ofereceram a oportunidade para recordar o discurso de meu pai, Luiz Gonzaga Belluzzo (de quem também herdei o nome), por ocasião de sua aposentadoria em 1965.
Uma coincidência biológica me proporcionou a ventura de frequentar as lições de um juiz ao longo de 60 anos. Meu pai aposentou-se em 1965 por temer a invasão de suas prerrogativas de juiz independente por um esbirro fardado das oligarquias golpistas de 1964.
Nada de heroico, apenas submissão aos valores liberais e republicanos que guiaram sua vida desde os tempos da Faculdade de Direito de São Paulo. Segue um trecho de seu discurso:
“Preferi a tranquilidade do silêncio ao ruído das propagandas falazes. Não suportei afetações. As cortesias rasteiras, sinuosas e insinuantes, jamais encontraram agasalho em mim. Em lugar algum, pretendi subjugar, mas ninguém me viu acorrentado a submissões.
“Dentro de uma humildade que ganhei no berço, abominei a egomania e a idolatria. Não me convenceram as aparências, e para as minhas convicções busquei sempre os escaninhos.
“Particularizando: no exercício das minhas funções de magistrado diuturnamente, dei o máximo dos meus esforços para bem desempenhá-las. E, ainda que em meio a uma atmosfera serena e compreensiva, em nenhum momento transigi com a nobreza do cargo.
“Escapei de juízos temerários, tomando cautelas para desembaraçar-me das influências e preferências determinantes de uma decisão. E se, alguma vez, inadvertidamente, pequei contra a lei, vai-me a certeza de que o fiz para distribuir bondade e benevolência.
“Em suma, cumpri o meu dever nos moldes e sob inspiração de minha formação intelectual, moral e sentimental. Isso, apenas isso, o que, se é suficiente para permitir uma aposentadoria com imperturbável placidez de consciência, não enfeixa méritos autorizando outorga de tão valioso prêmio, que, no entanto, tamanha a espontaneidade da oferta, recebo com júbilo, colocando tudo o mais à conta da generosidade dos bons amigos, que nunca me regatearam o calor das suas simpatias e desvelos.
“Amigos, que não aqueles das ressurreições, os quais somente comparecem às homenagens que se realizam nos píncaros, mas amigos que nos vêm obsequiar quando já abandonadas as alturas, na planície, num gesto largo de sinceridade na estima.”
Neste meu entardecer, após tantas lutas e cuidados, não poderia almejar maior e melhor conforto.
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