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Campanhas coordenadas de desinformação ameaçam as eleições
‘Firehosing’ e ‘fazendas de bots’, técnicas sofisticadas de manipulação da opinião pública, seguem a pleno vapor, sem uma reação à altura da Justiça Eleitoral
Por Eliara Santana e Letícia Sallorenzo*
No fervor de uma campanha que apresenta novidades bombásticas a cada hora, dois assuntos trouxeram à tona um tema crucial: a campanha coordenada e permanente de desinformação. Os assuntos foram a denúncia apresentada pela campanha de Lula de divulgação em massa de material inautêntico e a prisão do argentino Fernando Cerimedo, que recebe a alcunha de estrategista digital, mas que extrapolou bastante suas funções.
Por que esse tema é tão crucial? A partir de 2018, com a eleição de Jair Bolsonaro, o Brasil foi sendo transformado num grande laboratório de desinformação para provocar o caos na sociedade, pulverizar as instituições e esgarçar o sistema político. O bolsonarismo se consolidou na onda da desinformação, e a aposta era num projeto vitorioso e duradouro.
No entanto, a eleição de Lula em 2022 e a intensificação das ações do STF contra a desinformação, sobretudo na figura do ministro Alexandre de Moraes, impuseram uma derrota a esse conjunto de forças. Um fracasso eleitoral, mas que não eliminou as ações do ecossistema de desinformação, que segue demonstrando seu poder nas eleições 2026.
As campanhas coordenadas e permanentes de desinformação mobilizam temas sensíveis, são frequentes, têm um timing perfeito em consonância com o contexto político e envolvem muitas estratégias e ações, como o enxame de IA. Esse termo, em linhas gerais, refere-se a um conjunto de robôs que atuam de forma coordenada.
O conceito é amplamente discutido no estudo “How malicious AI swarms can threaten democracy” (“Como enxames maliciosos de IA podem ameaçar a democracia”, em tradução livre), produzido por 22 pesquisadores e publicado na revista Science em janeiro de 2026. Segundo o documento, “os avanços na inteligência artificial (IA) oferecem a perspectiva de manipular crenças e comportamentos em nível populacional. Grandes modelos de linguagem (LLMs) e agentes autônomos permitem que campanhas de influência alcancem escala e precisão sem precedentes. Ferramentas generativas podem expandir a produção de propaganda sem sacrificar a credibilidade e criar, a baixo custo, falsidades que são consideradas mais semelhantes à escrita humana do que aquelas escritas por humanos”.
O método do firehosing
Em 24 de agosto, a jornalista Daniela Lima, do portal UOL, informou que a campanha de Lula vai ao TSE denunciar ação coordenada de divulgação em massa de material inautêntico com queixas sobre o preço dos alimentos. Temos algumas palavras-chave nessa notícia que chamam a atenção: “ação coordenada” e “divulgação em massa”. São palavras que descrevem um fenômeno conhecido como firehosing.
O firehosing é um processo de planejamento, produção, disseminação e ratificação de informações indevidamente tratadas como verdadeiras por quem as propaga, de forma a induzir em quem as consome sensações negativas, contrárias a um alvo eleito.
O que distingue esses ataques da mera manifestação de opinião – protegida pelo direito constitucional à liberdade de expressão – é o nítido propósito de manipular a audiência distorcendo dados, levando o público a erro e induzindo-o a aceitar como verdade aquilo que não tem lastro na realidade.
Nesse processo, o primeiro passo é escolher um alvo a ser atacado, depois, o conteúdo dos ataques. Tal qual o jato d’água de uma mangueira de incêndio, são publicadas milhares de postagens a esse respeito (alto volume), de diversas contas diferentes (multicanal), de forma contínua e repetitiva, para dar a impressão de que existe um único assunto do dia. O conteúdo não tem compromisso com a verdade, tampouco com a coerência dos fatos ao longo do tempo.
Esse método é o instrumento com o qual indivíduos e organizações inescrupulosas se aproveitam dos medos, inseguranças e incertezas das pessoas, sobretudo os eleitores. A prática vem sendo empregada, por exemplo, contra o ministro Alexandre de Moraes desde, pelo menos, 2021, e se revela muito funcional. Basta ver a quantidade de pessoas que têm ódio figadal ao ministro.
Em ano eleitoral, o alvo é o adversário político, tratado como inimigo. No caso denunciado pela campanha de Lula, quem planejou os ataques contra os preços dos alimentos não se deu nem ao trabalho de variar as imagens, que são usadas por vários influencers ao mesmo tempo, deixando o rastro do crime eleitoral cometido bem debaixo do nariz do TSE.
O processo de disseminação de desinformação do tipo firehosing envolve um trabalho de equipe por trás de cada peça publicada. E existe, também, o cliente que encomenda e paga por esse trabalho. No caso dos ataques eleitorais, ficam algumas questões: Quem está financiando? Há dinheiro público por trás disso? Por que o TSE não está se preocupando devidamente com esse processo?
Cerimedo e a rede de desinformação latina
Preso na Bolívia sob a acusação de planejar um ataque à ex-mulher, a advogada e analista política boliviana Nadia Beller, Fernando Cerimedo coordena o portal La Derecha Diario, tem negócios no ramo do marketing político e da produção de conteúdo digital e se tornou muito conhecido por coordenar a comunicação da campanha de Javier Milei na Argentina.
Além de todas essas credenciais, Cerimedo é também íntimo da família Bolsonaro. Em 2022, Eduardo Bolsonaro viajou a Buenos Aires para se encontrar com o “estrategista” e angariar apoio para o pai, Jair Bolsonaro. E após essa visita, em 4 de novembro de 2022, dias após o resultado final das eleições, o La Derecha Diario transmitiu a live “Brazil Was Stolen”, com mentiras sobre as urnas eletrônicas.
Não bastasse, em julho deste ano de 2026, Cerimedo e Eduardo Bolsonaro participaram de uma live novamente recheada de desinformação sobre as urnas eletrônicas. Com a prisão e as investigações, já se descobriu que Cerimedo não era somente um “estrategista”. Ele era, na verdade, um grande articulador de desinformação e mantinha uma fazenda de bots na Bolívia – uma mega estrutura com robôs que simulam engajamento em tempo real e milhares de contas falsas coordenadas para produzir e disseminar mentiras de acordo com o gosto do freguês.
Esses dois eventos mostram que as campanhas coordenadas de desinformação seguem a pleno vapor, sem qualquer constrangimento.
* Eliana Santana é jornalista, doutora em Estudos Linguísticos pela PUC Minas e pesquisadora do Observatório das Eleições. Leticia Sallorenzo é mestre e doutoranda em Estudos Linguísticos pela Universidade de Brasília (UnB).
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