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Monica Benicio: ‘O Rio tem uma oportunidade histórica de eleger duas mulheres trabalhadoras para o Senado’

Em entrevista a CartaCapital, a vereadora fala sobre sua estratégia para conseguir a vitória nas urnas

Monica Benicio: ‘O Rio tem uma oportunidade histórica de eleger duas mulheres trabalhadoras para o Senado’
Monica Benicio: ‘O Rio tem uma oportunidade histórica de eleger duas mulheres trabalhadoras para o Senado’
Créditos: Divulgação Vereadora afirma estar comprometida com o feminismo antirracista e a luta LGBT. Créditos: Divulgação
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Eleições 2026

A mais recente pesquisa Datafolha para o Senado no Rio de Janeiro mostra a candidata do PT, Benedita da Silva, na liderança com 15% das intenções de voto e aponta também uma disputa acirrada – e com resultado imprevisível – para a segunda vaga de senador.

Mencionada por 6% dos eleitores, mesmo índice de adversários que têm mais recursos financeiros, tempo de propaganda na tevê e estrutura de campanha, como os deputados federais Pedro Paulo, do PSD, e Marcelo Crivella, do Republicanos, a vereadora Monica Benicio, lançada pelo PSOL, pode levar o Rio a eleger duas mulheres de esquerda, o que seria uma lufada de ar fresco em uma representação que nos últimos anos foi feita por nomes como Flávio Bolsonaro e Romário, ambos do PL.

Em entrevista a CartaCapital, a viúva de Marielle Franco fala sobre sua estratégia para conseguir a vitória nas urnas, a importância de levar à Brasília a agenda política da vereadora assassinada e a “janela histórica” para eleger uma forte bancada de senadoras progressistas e “ajudar Lula a governar”.

CartaCapital: O que te motiva a ser candidata ao Senado?

Monica Benicio: O entendimento de que o Senado talvez seja a principal trincheira que a extrema-direita escolheu para ocupar e fazer o desmonte da democracia por dentro. Apresentamos um projeto de esquerda para, com a Benedita da Silva, ampliar o campo progressista na disputa desse espaço que será decisivo. Temos um Senado muito conservador. As mulheres são uma expressão ainda muito insuficiente nessa representatividade; se for do campo progressista, nem se fala.

É importante estarmos atentos para poder ocupar o Senado. O Rio de Janeiro tem uma oportunidade histórica de eleger duas mulheres trabalhadoras para o Senado. O voto do Senado é decidido nos últimos momentos da eleição. Muitos não sabem que são dois votos, só descobrem nas urnas. Em 2018, quando tivemos a disputa de duas cadeiras, 57% da população acabou anulando o segundo voto.

CC: Temos diversas candidaturas femininas fortes esse ano. Por que é importante colocar mulheres progressistas no Senado?

MB: Foi criado o movimento Senadoras do Brasil. Várias mulheres progressistas, em diversos lugares do País, unidas para ter essa representatividade no Senado. Reconduzir o presidente Lula é fundamental à nossa democracia; é uma tarefa primordial para não termos de novo o autoritarismo sentado na cadeira da Presidência da República. Mas o presidente não governa sozinho, e hoje temos um Congresso tido como inimigo do povo. Essa renovação de dois terços é muito importante.

Estamos falando de uma janela histórica, em que vemos a luta das mulheres avançando e a sociedade compreendendo a importância da atuação de mulheres progressistas nos espaços de poder para mudar essa realidade concreta que é hoje de violência. O índice de feminicídio está aumentando, mas vemos também o debate social sobre a importância do enfrentamento à violência contra as mulheres em diversas frentes. Queremos uma sociedade que respeite as mulheres e não reproduza as violências que nos trouxeram até aqui. O movimento Senadoras do Brasil me inspira porque são diversos partidos defendendo o campo progressista e entendendo o Senado como um lugar estratégico.

CC: Hoje não é assim…

MB: O Senado é um lugar onde temos visto o direito de mulheres e meninas ser retirado com muita facilidade. Projetos são aprovados em menos de dois minutos, sem grandes debates. Temos senadoras que são conservadoras e não estão ali para defender os direitos das mulheres. É preciso falar sobre a expansão dos direitos e não mais ficarmos reféns de uma conjuntura cada vez mais dramática e polarizada. Somos sempre nós, mulheres, que estamos sofrendo, mas somos nós também que cuidamos da sociedade.

Precisamos estar no orçamento, precisamos ter políticas públicas que garantam não só nosso bem viver, mas igualdade diante da sociedade, com respeito e segurança. É preciso que a política institucional reflita a nossa representatividade. Somos a maior parte da sociedade e, infelizmente, ainda com presença irrisória nos espaços de poder diante da potência que temos quando estamos fazendo política institucional. 

CC: A disputa pela segunda vaga está embolada. Qual sua estratégia para vencer essa corrida?

MB: As pesquisas recentes são muito animadoras porque me colocam tecnicamente empatada, disputando essa segunda cadeira. É surpreendente a velocidade com que esse crescimento aconteceu, e isso é uma resposta das ruas. Os adversários têm mais tempo de trajetória na política institucional, mais estrutura e recurso financeiro. Então, estamos falando de uma competição desproporcional. Mas o que a gente tem visto nas ruas é as pessoas acreditando nesse projeto político, nessa alternativa a essa política que está, em especial no Rio de Janeiro, absolutamente apodrecida.

Para aqueles que estavam dizendo que não era momento de colocar candidaturas para marcar posição, as pesquisas mostram que esta é uma candidatura que não veio só para marcar posição, mas para propor uma política que dialoga na contramão e na antítese dessa política que hoje governa o Rio de Janeiro de uma maneira ampla. A rua tem respondido de uma maneira muito bonita, foi bem mais rápido do que eu imaginava, e isso tem me animado muito. É cedo para falar, mas o acolhimento das pessoas nas redes e nas ruas tem sido muito bonito. Em dois mandatos de vereança, apresentei coragem de transformação, fazendo uma política para a classe trabalhadora, para termos mulheres nos centros de debate e decisão e favelas sendo tratadas com respeito e dignidade. Falar sobre essas pautas que são da realidade da vida, justamente por conhecê-las, está se refletindo nesse ânimo na rua. As pessoas têm identificação.

CC: O PSOL tem dificuldade em dialogar com a eleitora mais conservadora, com a mulher evangélica, por exemplo. O que você está fazendo para superar essa dificuldade?

MB: Não tenho sentido isso como um lugar desafiador. Eu tenho as minhas pautas bem definidas e a política que eu defendo para as mulheres muito bem desenhada, mas não tenho a pretensão de convencer todas as mulheres do Rio de Janeiro, porque a democracia é a diversidade e é o respeito, sobretudo, com diálogo. O que temos feito nas ruas é falar da realidade da mulher que acorda cedo, pega ônibus lotado, que tem dificuldade de colocar a criança na creche, que está na escala seis por um e tem tripla jornada de trabalho, que muitas vezes é mãe solo ou a chefe de família que está segurando todas as contas. Isso faz parte da realidade da maior parte das mulheres.

Nesse momento, as mulheres não estão fazendo um debate de esquerda ou direita; estamos falando de um lugar de sobrevivência. Somos nós que conhecemos a realidade da violência cotidiana, do desamparo do Estado e o que ele provoca nas nossas vidas. As mulheres estão sendo assassinadas por ex-companheiros que não aceitam o fim de relacionamento, têm menos acesso à empregabilidade ou igualdade salarial, e têm dupla ou tripla jornada. O trabalho do cuidado que sustenta a própria sociedade não é valorizado, mas tratado como sendo uma obrigação feminina.

CC: Como está a relação com a candidatura do Lula, já que na chapa apoiada pelo presidente está o Pedro Paulo?

MB: O PSOL decidiu pelo apoio ao presidente Lula por entender, nessa conjuntura, a necessidade e a importância da recondução dele à Presidência da República. Isso é inegociável, indiscutível; é a tarefa número um de todo o campo democrático. Tiramos também o apoio à candidatura da Benedita ao Senado, entendendo que ela hoje representa a viabilidade mais concreta do campo progressista. O que temos dito é que quem vota em Bené, vota em Benício. É preciso fazer com que as pessoas saibam que existe a possibilidade de votar em duas mulheres progressistas, trabalhadoras e oriundas da favela. Duas mulheres que vão garantir a viabilidade do presidente Lula de governar também através do Senado.

CC: Muitos imaginariam a Marielle hoje como uma candidata natural do PSOL ao Senado. Como essa agenda que ela representava será defendida se você estiver lá nos próximos oito anos?

MB: Em 2018, o nome da Marielle era o primeiro quando começou a se fazer o debate no PSOL sobre quem seria representante ao Senado naquele ano. Acabou sendo o Chico Alencar, mas a Marielle era um nome em disputa, colocado ali na construção partidária. Então, não há dúvida nenhuma de que, em 2026, muito provavelmente seria ela, sim, a representante do PSOL nessa disputa do Senado.

A herança desse processo é também essa coragem inspiradora que a Marielle se torna, não só como o símbolo político que se tornou justo, necessário e tão bonito porque foi construído coletivamente. Ela era uma pessoa que entendia a política feita com coletividade, porque só assim a política serve como transformação da vida das pessoas de fato. É uma responsabilidade, mas é também algo que convoca um sentimento de coragem e transformação.

Nós éramos companheiras por muitas razões. Uma delas era porque compartilhávamos a mesma visão de mundo e o mesmo projeto de sociedade. Chegar ao Senado é uma forma de seguir o legado de uma política que se deixa afetar pela dor do outro, pela urgência da vida, que possa fazer você entender a política como uma ferramenta de transformação, principalmente para o combate das desigualdades.

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