Do Micro Ao Macro
Brasil pode incrementar seu PIB em R$ 1 trilhão até 2030 se fizer uso correto da IA
Estudo do Reglab projeta ganho de quase R$ 1 trilhão ao PIB brasileiro até 2030, mas professor da UFG alerta que o país pode não aproveitar o potencial
Um levantamento do Reglab projeta que a IA pode adicionar até R$ 986,7 bilhões ao Produto Interno Bruto brasileiro entre 2027 e 2030. No cenário-base da pesquisa, esse impacto equivale a 2,77% do PIB em quatro anos. O número chama atenção, mas abre uma pergunta menos confortável: quanto dessa riqueza o país vai produzir e quanto vai apenas pagar para usar tecnologia criada fora daqui.
Celso Camilo, doutor em IA e professor da Universidade Federal de Goiás, afirma que a produtividade é o gargalo histórico que a tecnologia pode atacar. Segundo ele, economias avançam quando produzem mais valor com os mesmos recursos ou com menos recursos, e a IA entra exatamente nesse ponto, ao acelerar processos, reduzir custos e melhorar resultados em setores diferentes.
O estudo aponta que 65% do impacto viria da produtividade do trabalho e 35% da eficiência de máquinas e processos. Para Camilo, esse número derruba a ideia de que a tecnologia se resume a chatbot conversacional. Na indústria, algoritmos cortam desperdício. No agronegócio, aumentam produtividade. Em bancos, saúde, logística e varejo, aceleram análises e reduzem custos.
IA muda tarefas antes de eliminar empregos
Ainda assim, o professor considera equivocado resumir o debate a quantos empregos a tecnologia vai eliminar. Segundo ele, o primeiro efeito recai sobre tarefas: parte delas desaparece, outra parte é redesenhada. Profissionais que dominam as ferramentas tendem a produzir mais, enquanto empresas que demoram a adotá-las correm o risco de operar em desvantagem. Camilo resume a lógica em uma frase: “a inovação que entrega valor de mercado não pede licença, pede desculpa”.
A partir daí, ele defende que o motor do desenvolvimento econômico passa pelo letramento e pela maturidade de empresas e trabalhadores em temas de IA e áreas próximas.
Brasil arrisca virar apenas comprador de tecnologia
O professor considera que o Brasil precisa abandonar a posição de usuário. Não há garantia de que os R$ 986,7 bilhões projetados cheguem à economia brasileira. Esse potencial pode migrar para países que concentram infraestrutura computacional, pesquisa, capital, modelos próprios e profissionais especializados. Sem data centers, conectividade, financiamento, formação de pessoas e capacidade de converter pesquisa em produto, o país pode adotar IA em larga escala e continuar comprando de fora a tecnologia que sustenta esses ganhos.
Uso de IA não significa domínio da tecnologia
Ser usuário de ponta em IA não equivale a dominar a tecnologia, pontua Camilo. Uma empresa que paga para acessar modelos estrangeiros ocupa posição diferente de outra que desenvolve propriedade intelectual, exporta soluções e participa da cadeia global de tecnologia. Se o país aceitar o papel de consumidor, pode modernizar a economia e, ainda assim, transferir parte dessa riqueza para fora. Para o professor, o tema pede debate e prática de soberania tecnológica.
País repete padrão de exportar matéria-prima
Camilo lembra que o Brasil ocupa, na maior parte das cadeias produtivas, o papel de fornecedor de insumos para agentes que agregam mais valor e, em muitos casos, vendem de volta o produto acabado por preço maior. “Continuamos vendendo soja e comprando shoyu”, resume o professor. Para ele, mudar esse padrão passa por mudança de posicionamento do país diante do mercado global de tecnologia.
Soberania em IA exige infraestrutura e pesquisa
Segundo Camilo, essa mudança depende de universidades fortes, pesquisa, investimento, infraestrutura, empresas com capacidade de inovar e regulação que proteja direitos sem travar o desenvolvimento tecnológico. Caso contrário, avalia, a IA vai se somar à lista de revoluções tecnológicas em que o Brasil ficou à margem do tabuleiro geopolítico.
A disputa já está em andamento. Os R$ 986,7 bilhões projetados até 2030 mostram o tamanho do prêmio e do risco que cercam o uso de IA no Brasil. Para Camilo, o país pode converter a tecnologia em produtividade, empregos qualificados, empresas e tecnologia própria, ou seguir como um mercado que compra soluções prontas. O tamanho do impacto sobre o PIB já está no estudo. Quanto desse resultado será brasileiro, segundo o professor, ainda depende de escolhas que estão por vir.
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